- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 05 de maio de 1998

SECA V
Nordeste desperdiça 80% da água

SALVADOR - O Nordeste tem hoje, cerca de 21 bilhões de metros cúbicos de água armazenados em milhares de açudes, reservatórios e barragens, mal aproveitados porque pelo menos 80% desse total não estão ligados a nenhum sistema de distribuição. O volume é suficiente para abastecer todos os nordestinos durante anos, mesmo sem chuvas. Um açude de 60 mil metros cúbicos é suficiente para as necessidades anuais de 1,6 mil pessoas. O mesmo açude permite a irrigação de 10 mil hectares, por um ano.

A maioria dos reservatórios foi construída apenas para captar a água e não se fizeram obras complementares para o uso doméstico ou nas lavouras. "Temos que movimentar toda essa água armazenada no Nordeste", afirma o ministro do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos, Gustavo Krause. Ele comenta que alguns reservatórios, mesmo construídos há mais de meio século, só começaram a servir plenamente para o abastecimento há dois ou três anos.«AXXR»

Só agora, depois de quase toda a região entrar em estado de emergência por causa da seca, afetando dez milhões de pessoas, o Governo federal começou a avaliar exatamente quantos açudes, poços, reservatórios e barragens estão em condições ideais de fornecer água no Nordeste. "Estamos identificando toda a água existente na região e sua qualidade", diz Krause.

Construídos sem planejamento ou para atender a interesses de políticos em campanha eleitoral, centenas de açudes distribuídos pelo sertão nordestino são rasos e nunca tiveram condições de possibilitar a distribuição de água para os municípios.

Os Estados nordestinos vivem, nos últimos oito meses, em constante alerta. A Paraíba tem só 35% da água necessária para abastecer o Estado. "Se não chover, a água acaba em três meses", diz Marcone Paiva, assessor da Companhia de Água e Esgoto do Estado (Cagepa). As centenas de poços que vêm sendo abertos apresentam um alto índice de salinização. "Desativamos o fornecimento de água para a irrigação, e demos prioridade só para o abastecimento domiciliar", acrescenta Paiva.

"Por falta de planejamento dos governantes, muitas obras foram feitas sem utilidade", afirma o assessor da Secretaria de Ciência e Tecnologia de Pernambuco, Manuel Silvio Campelo, doutor em recursos hídricos e funcionário aposentado da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). O problema mais grave em Pernambuco está na região de Afogados da Ingazeira. "A reserva de água vai até setembro. Se não chover até essa data, as chuvas só deverão chegar em maio de 99".




   

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