SECA V
Nordeste
desperdiça 80% da águaSALVADOR - O
Nordeste tem hoje, cerca de 21
bilhões de metros cúbicos de
água armazenados em milhares de
açudes, reservatórios e
barragens, mal aproveitados
porque pelo menos 80% desse total
não estão ligados a nenhum
sistema de distribuição. O
volume é suficiente para
abastecer todos os nordestinos
durante anos, mesmo sem chuvas.
Um açude de 60 mil metros
cúbicos é suficiente para as
necessidades anuais de 1,6 mil
pessoas. O mesmo açude permite a
irrigação de 10 mil hectares,
por um ano.
A maioria dos
reservatórios foi construída
apenas para captar a água e não
se fizeram obras complementares
para o uso doméstico ou nas
lavouras. "Temos que
movimentar toda essa água
armazenada no Nordeste",
afirma o ministro do Meio
Ambiente e dos Recursos
Hídricos, Gustavo Krause. Ele
comenta que alguns
reservatórios, mesmo
construídos há mais de meio
século, só começaram a servir
plenamente para o abastecimento
há dois ou três
anos.«AXXR»
Só agora,
depois de quase toda a região
entrar em estado de emergência
por causa da seca, afetando dez
milhões de pessoas, o Governo
federal começou a avaliar
exatamente quantos açudes,
poços, reservatórios e
barragens estão em condições
ideais de fornecer água no
Nordeste. "Estamos
identificando toda a água
existente na região e sua
qualidade", diz Krause.
Construídos
sem planejamento ou para atender
a interesses de políticos em
campanha eleitoral, centenas de
açudes distribuídos pelo
sertão nordestino são rasos e
nunca tiveram condições de
possibilitar a distribuição de
água para os municípios.
Os Estados
nordestinos vivem, nos últimos
oito meses, em constante alerta.
A Paraíba tem só 35% da água
necessária para abastecer o
Estado. "Se não chover, a
água acaba em três meses",
diz Marcone Paiva, assessor da
Companhia de Água e Esgoto do
Estado (Cagepa). As centenas de
poços que vêm sendo abertos
apresentam um alto índice de
salinização. "Desativamos
o fornecimento de água para a
irrigação, e demos prioridade
só para o abastecimento
domiciliar", acrescenta
Paiva.
"Por falta
de planejamento dos governantes,
muitas obras foram feitas sem
utilidade", afirma o
assessor da Secretaria de
Ciência e Tecnologia de
Pernambuco, Manuel Silvio
Campelo, doutor em recursos
hídricos e funcionário
aposentado da Superintendência
do Desenvolvimento do Nordeste
(Sudene). O problema mais grave
em Pernambuco está na região de
Afogados da Ingazeira. "A
reserva de água vai até
setembro. Se não chover até
essa data, as chuvas só deverão
chegar em maio de 99".