DÍVIDAS
Contas
públicas gastam 0,99% do PIBBRASÍLIA - As
contas públicas voltaram a
piorar em fevereiro. Juntos,
União, Estados, municípios e
estatais gastaram acima de suas
receitas o equivalente a 0,99% do
PIB (Produto Interno Bruto,
medida da riqueza nacional), o
pior resultado desde o
lançamento do Plano Real, pelo
menos.
Esse resultado
é medido pelo chamado conceito
primário, que exclui os gastos
com os juros da dívida e, por
isso, é considerado o melhor
indicador da disciplina do
governo em conter seus gastos. O
governo federal foi o principal
responsável pelo aumento do
déficit primário, que até
janeiro estava em 0,85% do
produto.
Do aumento de
0,14% do PIB no déficit, o
governo federal e suas estatais
responderam por 0,12% do PIB,
dividido igualmente entre as duas
partes. O déficit de Estados e
municípios e respectivas
estatais cresceu o equivalente a
apenas 0,2% do PIB.
Quando o setor
público tem déficit primário,
é obrigado a se endividar no
mercado para financiar suas
despesas correntes (com pessoal,
custeio e investimentos) - a
menos, claro, que recorra à
emissão de moeda. Em termos
absolutos, os gastos do setor
público superaram as receitas em
R$ 8,850 bilhões.
O mau resultado
nas contas federais ocorre três
meses após o governo editar um
pacote fiscal que, segundo a
equipe econômica, irá gerar uma
economia de R$ 20 bilhões, entre
corte de despesas e aumento de
impostos. Os números também
afastam ainda mais o governo do
cumprimento das metas para o
déficit fiscal - superávit
primário de 1,5% do PIB (0,8% do
PIB para o governo federal).
O chefe do
Departamento Econômico do Banco
Central, Altamir Lopes, atribuiu
a piora nas contas da União às
despesas da Previdência Social e
gastos com pessoal. No caso das
estatais federais, a piora
deve-se a investimentos
realizados para a privatização.
Os números divulgados hoje
mostram que, desde a
implantação do Plano Real, o
resultado primário só vem
piorando. No segundo semestre de
94, início da circulação do
real, o governo obtinha
resultados primários
superavitários de até 5,29% do
PIB. Ou seja, a economia nos
gastos do governo era suficiente
para cobrir toda a conta de
juros. O resultado primário
começou a se deteriorar em
setembro de 1995, quando o
superávit foi reduzido para o
patamar de 1% do PIB. Em 1996 e
1997, as contas públicas
oscilaram entre déficits e
superávits, mas nunca haviam
chegado a um resultado negativo
de 0,99% do produto, como o de
fevereiro. Pelo conceito de
déficit nominal, também houve
piora. Em fevereiro, o resultado
negativo foi de 6,53% do PIB. Ou
seja, no resultado acumulado em
12 meses, as despesas superaram
as receitas em R$ 58,627
bilhões. Em janeiro, o déficit
nominal estava em 6,21% do
produto. O déficit nominal é o
dado que os economistas e
investidores estrangeiros
acompanham mais de perto. Ele
mede todas as receitas e despesas
do governo, incluindo o pagamento
de juros sobre a dívida
pública. O aumento dos juros no
final do ano passado contribuiu
para piorar o resultado nominal.
Durante a crise asiática, em 30
de outubro passado, o governo
dobrou a taxa de juros. O
objetivo da medida era dar mais
rendimento para investidores
estrangeiros e evitar a fuga de
dólares. Isso ajudou a trazer os
dólares de volta, mas aumentou
os gastos com encargos da
dívida. Com isso, a despesa com
juros, que estava na casa dos R$
2,173 bilhões em setembro de 97,
saltou para R$ 5,088 bilhões em
fevereiro.