-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de maio de 1998

Os 50 anos do Estado de Israel

Comemorações pelos 50 anos da criação do Estado de Israel se realizam por estes dias, até 14 de maio, dia em que o patriarca David Ben Gurion proclamou sua independência, em 1948. Muito tempo antes dessa proclamação, que coroava anos de esforços do movimento sionista, líderes judeus, seculares e religiosos, das diversas diásporas planejavam o estabelecimento do que chamavam de um lar nacional para os israelitas. O movimento sionista deu consistência e viabilidade a tais planos. Escolheu-se para a implantação desse lar a velha Terra Santa, que tinha sido a pátria dos judeus antes da derrota dos irmãos Macabeus e da destruição da fortaleza de Massada. E, desde o final do século passado, migrantes judeus foram se estabelecendo ali, vindos basicamente da Europa, onde ocorriam as mais virulentas perseguições contra seu povo.

Depois que os romanos destruíram Massada, alguns milhares de judeus permaneceram na Terra Santa, sobretudo na Galiléia. Em 637 depois de Cristo, os árabes conquistaram a antiga pátria dos judeus e, no final do século 7º, o sultão Abd El-Malik fez de Jerusalém uma cidade sagrada também para os muçulmanos (já o era para judeus e cristãos), construindo ali a mesquita de Omar. O equívoco das Cruzadas produziu grande massacre de populações muçulmanas e também de cristãos pertencentes a comunidades primitivas ali remanescentes. O eurocentrismo, já bem fortalecido, não via como cristãos quem se vestia e vivia como os árabes. Em 1517, o Império Otomano domina quase todo o mundo árabe, inclusive a Palestina, e começa a entrar pela Europa. Remanescentes judeus e cristãos convivem em paz com os muçulmanos no Oriente Médio.

A partir de 1882, houve uma primeira onda migratória de judeus provenientes da Rússia para a antiga Palestina. Em 1896, o jornalista Theodor Herzl, judeu austríaco, publica O Estado Judeu, bíblia do movimento sionista moderno. No início do século 20, nova onda migratória para a Palestina, sobretudo de judeus poloneses e russos. Eles criam, em 1909, o primeiro kibbutz (fazenda coletiva). Iniciam assim a prática de uma agricultura moderna, desconhecida pelos palestinos, com irrigação, fertilizantes, captação de águas pluviais, saneamento de terras pantanosas. No final da 1ª Guerra Mundial, os britânicos recebem da Liga das Nações, antecessora da ONU, um mandato de administração sobre a Palestina, que durou até 1948. Uma declaração de Lord Balfour compromete os britânicos com idéia da criação de um Estado judeu.

Durante três décadas, os israelitas se prepararam obstininadamente e com muita competência para implantar seu lar nacional no momento oportuno. Criaram um organismo paramilitar de defesa, a Haganá (o Irgun foi uma dissidência radical e terrorista), e a Agência Judaica, para coordenar a imigração, intensificada com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, seu vasto domínio sobre a Europa, o Holocausto. As hostilidades entre palestinos e judeus, inicialmente ocasionais, ganham força com a influência nazista sobre alguns líderes árabes. A oportunidade aguardada surge com a resolução das Nações Unidas dividindo o velho território em dois Estados, um palestino e um judeu (1947; assembléia presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha); e, sobretudo, com o término do mandato britânico, à meia-noite de 13 para 14 de maio de 1948.

Em vez de acatar a resolução da ONU e criar um Estado palestino, os governantes árabes vizinhos de Israel optaram por "empurrar os israelitas para o mar", o que nunca conseguiram. Mas o cerco a sua pátria reconquistada e esses 50 anos de guerra quase ininterrupta afastaram os israelenses dos ideais dos fundadores. Não se justificam a crescente clericalização do país, a ascendência de fanáticos religiosos e extremistas de direita, práticas antidemocráticas para reprimir a revolta dos palestinos, a colonização, por judeus, das poucas terras que sobraram para os palestinos. É inaceitável, sobretudo, a decisão unilateral do atual governo israelense de ignorar os Acordos de Washington (1993), que possibilitaram a criação de uma Autoridade Nacional Palestina e certamente desaguariam, afinal, em um Estado palestino. O descumprimento dos acordos prolonga e multiplica a tragédia palestina; mas também faz muito mal aos israelenses, tornando as antigas vítimas algozes de outro povo oprimido.

 
 

 

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