Os 50 anos do Estado de IsraelComemorações pelos 50
anos da criação do Estado de
Israel se realizam por estes
dias, até 14 de maio, dia em que
o patriarca David Ben Gurion
proclamou sua independência, em
1948. Muito tempo antes dessa
proclamação, que coroava anos
de esforços do movimento
sionista, líderes judeus,
seculares e religiosos, das
diversas diásporas planejavam o
estabelecimento do que chamavam
de um lar nacional para os
israelitas. O movimento sionista
deu consistência e viabilidade a
tais planos. Escolheu-se para a
implantação desse lar a velha
Terra Santa, que tinha sido a
pátria dos judeus antes da
derrota dos irmãos Macabeus e da
destruição da fortaleza de
Massada. E, desde o final do
século passado, migrantes judeus
foram se estabelecendo ali,
vindos basicamente da Europa,
onde ocorriam as mais virulentas
perseguições contra seu povo.
Depois que os
romanos destruíram Massada,
alguns milhares de judeus
permaneceram na Terra Santa,
sobretudo na Galiléia. Em 637
depois de Cristo, os árabes
conquistaram a antiga pátria dos
judeus e, no final do século
7º, o sultão Abd El-Malik fez
de Jerusalém uma cidade sagrada
também para os muçulmanos (já
o era para judeus e cristãos),
construindo ali a mesquita de
Omar. O equívoco das Cruzadas
produziu grande massacre de
populações muçulmanas e
também de cristãos pertencentes
a comunidades primitivas ali
remanescentes. O eurocentrismo,
já bem fortalecido, não via
como cristãos quem se vestia e
vivia como os árabes. Em 1517, o
Império Otomano domina quase
todo o mundo árabe, inclusive a
Palestina, e começa a entrar
pela Europa. Remanescentes judeus
e cristãos convivem em paz com
os muçulmanos no Oriente Médio.
A partir de
1882, houve uma primeira onda
migratória de judeus
provenientes da Rússia para a
antiga Palestina. Em 1896, o
jornalista Theodor Herzl, judeu
austríaco, publica O Estado
Judeu, bíblia do movimento
sionista moderno. No início do
século 20, nova onda migratória
para a Palestina, sobretudo de
judeus poloneses e russos. Eles
criam, em 1909, o primeiro
kibbutz (fazenda coletiva).
Iniciam assim a prática de uma
agricultura moderna, desconhecida
pelos palestinos, com
irrigação, fertilizantes,
captação de águas pluviais,
saneamento de terras pantanosas.
No final da 1ª Guerra Mundial,
os britânicos recebem da Liga
das Nações, antecessora da ONU,
um mandato de administração
sobre a Palestina, que durou até
1948. Uma declaração de Lord
Balfour compromete os britânicos
com idéia da criação de um
Estado judeu.
Durante três
décadas, os israelitas se
prepararam obstininadamente e com
muita competência para implantar
seu lar nacional no momento
oportuno. Criaram um organismo
paramilitar de defesa, a Haganá
(o Irgun foi uma dissidência
radical e terrorista), e a
Agência Judaica, para coordenar
a imigração, intensificada com
a ascensão de Hitler ao poder na
Alemanha, seu vasto domínio
sobre a Europa, o Holocausto. As
hostilidades entre palestinos e
judeus, inicialmente ocasionais,
ganham força com a influência
nazista sobre alguns líderes
árabes. A oportunidade aguardada
surge com a resolução das
Nações Unidas dividindo o velho
território em dois Estados, um
palestino e um judeu (1947;
assembléia presidida pelo
brasileiro Oswaldo Aranha); e,
sobretudo, com o término do
mandato britânico, à meia-noite
de 13 para 14 de maio de 1948.
Em vez de
acatar a resolução da ONU e
criar um Estado palestino, os
governantes árabes vizinhos de
Israel optaram por "empurrar
os israelitas para o mar", o
que nunca conseguiram. Mas o
cerco a sua pátria reconquistada
e esses 50 anos de guerra quase
ininterrupta afastaram os
israelenses dos ideais dos
fundadores. Não se justificam a
crescente clericalização do
país, a ascendência de
fanáticos religiosos e
extremistas de direita, práticas
antidemocráticas para reprimir a
revolta dos palestinos, a
colonização, por judeus, das
poucas terras que sobraram para
os palestinos. É inaceitável,
sobretudo, a decisão unilateral
do atual governo israelense de
ignorar os Acordos de Washington
(1993), que possibilitaram a
criação de uma Autoridade
Nacional Palestina e certamente
desaguariam, afinal, em um Estado
palestino. O descumprimento dos
acordos prolonga e multiplica a
tragédia palestina; mas também
faz muito mal aos israelenses,
tornando as antigas vítimas
algozes de outro povo oprimido.