- - - -- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 04 de maio de 1998

TRADIÇÃO GUERREEIRA
Uma história de liberdade e afirmação

A história diz que, em 1515, já existia povoamento em Pernambuco. Onze anos depois, Portugal recebia o açúcar aqui produzido. Nesta época, o nosso litoral era visitado por expedições espanholas e os portugueses já estavam aclimatados, assimilando até os costumes indígenas.

Pernambuco possui uma das mais ricas histórias do Brasil, com responsabilidade no pensamento da nacionalidade, segundo o escritor Flávio Guerra. "A palavra brasileiro, no sentito atual, só foi conhecida após a Insurreição Pernambucana, em 1645".

Os pernambucanos foram pioneiros nas idéias nativistas durante a expulsão dos holandeses, nas idéias libertárias do Movimento Republicano de 1817, na Confederação do Equador e de tantas revoluções como a História registra. O avanço seguiu também nas letras, artes e pesquisas científicas.

Paranambuco é uma palavra indígena que significa buraco do mar, mas os portugueses resolveram chamar Pernambuco. Este lugar foi doado pelo rei D. João III, em 1534, a Duarte Coelho, durante as Capitanias Hereditárias.

Duarte Coelho ficou de início em Itamaracá, indo depois para Igarassu, fundando a Vila dos Santos Cosme e Damião, onde ainda existe a igreja mais antiga do Brasil. Foi para junto dos índios Caetés e fundou Olinda, em 1536 e desenvolveu o programa colonizador, que se sobressai em relação às demais capitanias. Olinda foi capital de Pernambuco por três séculos. Recife servia de porto.

Durante mais de 10 anos, Duarte Coelho controlou as áreas de Igarassu e Olinda, criando os primeiros engenhos e desenvolvendo a cultura da cana-de-açúcar, mesmo enfrentando os obstáculos que os índios criavam. Eles resistiam ao trabalho braçal. Assim, foi obrigado a importar os negros da África. O número de engenhos aumentava dando impulso surpreendente ao local. Tanto que, em l554, chamou atenção de franceses e holandeses.

INVASÃO Atraídos pela riqueza da capitania e com apoio da Companhia das Índias Ocidentais, os holandeses desembarcaram na Praia de Pau Amarelo em 1630. Sete anos depois, a Holanda enviou o príncipe João Maurício de Nassau. Trazendo numeroso grupo composto de artistas, poetas, literatos e cientistas, ele deu outro rumo ao Recife. Aqui, permaneceu oito anos. Era mais estadista que comerciante, interessado nas ciências e artes. Tinha 32 anos de idade e cinco para organizar a colônia holandesa.

Uma das primeiras providências de Nassau foi reconstruir Olinda, que fora incendiada pelos holandeses. O ato tinha a intenção de reduzir o território e controlar o porto. No Recife, João Maurício desenvolveu obras urbanísticas: palácios Friburgo e Boa Vista, abertura de ruas, canais, diques, construção de residências e o Forte das Cinco Pontes. Trouxe ainda a arquitetura flamenga. Entretanto sua obra mais importante foi a construção da cidade Maurícia (para ser a capital do Brasil Holandês). Escolheu a Ilha de Antonio Vaz (Bairro de Santo Antônio), ligando-a ao bairro da Boa Vista, que era o Recife. Ergueu o primeiro jardim botânico da América.

Entretanto, os problemas começaram a surgir em 1640. A Companhia das Índias Ocidentais exigia que Nassau cobrasse as dívidas e impostos dos luso-brasileiros. O clima ficou insustentável, obrigando Nassau a deixar o Brasil em 1644. Após a sua retirada, houve a Insurreição Pernambucana (1645\46), movimento coletivo de rebeldia contra os holandeses.

Os holandeses não desistem do Brasil. Invadem Pernambuco em 1630, seis anos após serem derrotados na Bahia. A esquadra aportou em Pau Amarelo e se dirigiu para Olinda e Recife, encontrando resistência. Esta invasão, pode ser chamada de guerra, pois durou 24 anos, causando atos de heroismo, traição, crueldade e vitórias.

Pernambuco foi decisivo para expulsar definitivamente os holandeses do Brasil. Nas Batalhas dos Guararapes, derrotaram os invasores, respectivamente em 1648 e 1649. Os invasores capitularam em 1654 e reconhecram a soberania portuguesa em 1661, pelo Tratado de Paz de Haia.

RIVALIDADE Sendo o Recife, em 1709, vila, queria libertar-se de Olinda. Os comerciantes chamados de mascates, provocaram uma das fases mais polêmicas da história pernambucana. Ela caracterizou-se por ser uma luta de classes entre a nobreza de Olinda e a burguesia do Recife. Desta rivalidade surgiram outras rebeliões: as Revoluções de 1817 e 1824.

A primeira aconteceu às vésperas da independência do Brasil, inspirada na Revolução Francesa, com o objetivo de tirar dos portugueses o controle do comércio. Foi a maior revolta nordestina da época. A seguinte, de 1824, teve o nome de Confederação do Equador, tendo na figura de Frei Caneca um dos líderes que acabou sendo executado. A Confederação era também um movimento republicano e separatista do Nordeste, ligado à independência. Desta vez, Pernambuco contou com a adesão da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

Mais uma vez, os pernambucanos demonstraram pioneirismo e liderança nos movimentos libertários. A campanha abolicionista começou praticamente aqui. Uma associação secreta funcionava no bairro da Capunga. Era o Clube do Cupim. Os componentes ajudavam a fuga dos escravos.

NOSSO SÉCULO Na Revolução de 1930, que derrubou o presidente Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder, Pernambuco contribuiu com a sua parcela. Resistiu e acabou sendo centro das agitações na região. A Paraíba mantinha um movimento de rebeldia contra o governo, mas o assassinato do presidente paraibano João Pessoa, no Recife, fez a cidade ser mais um foco de "guerra". O Jornal do Commercio sofreu invasão, quebra-quebra e empastelamento. O presidente deixou o cargo e o país penetrou na terceira fase da República.

Com o advento do Estado Novo, em 1937, o governo de Pernambuco ficou com o sertanejo Agamenon Magalhães na qualidade de interventor. Realizou um governo centralizador. Preocupado com a moradia da classe pobre nos casebres, criou a Liga Social Contra os Mocambos, construindo vilas populares. Magalhães, voltou a ser governador em 1950 pelo voto direto.

Os anos 50 foram agitados em todo País. As idéias do presidente Getúlio Vargas contribuíram para uma efervecência operária. O Partido Trabalhista ficou forte. Em Pernambuco a região açucareira enfrentou uma nova situação. Os produtores rendeiros eram expulsos dos "sítios", passando a existir uma reação que deu origem às Ligas Camponesas. Era a vez da Revolução de 64. O então governador Miguel Arraes é deposto e exilado, para voltar ao país após a redemocratização e ser eleito por mais duas vezes para o cargo.


     

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