- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 03 de maio de 1998

RELACIONAMENTO
A difícil arte de amar

por LENEIDE DUARTE
Agência Globo

Poucos amores resistem à distância prolongada. Também são poucos os que passam ilesos pelo teste da convivência por 24 horas, em casa e no trabalho. Mas, para confirmar a regra há sempre as exceções. Algumas delas estão nesta reportagem, em depoimentos de casais que garantem que a convivência intensiva pode trazer só benefícios para a relação. Mesmo sendo difícil conviver durante 24 horas, pondo à prova, o tempo todo, a tolerância, a maturidade e a compreensão.

"Alguma pessoas conseguem fazer isso muito bem. Mas é preciso saber lidar com aspectos da vida profissional que não devem ser levados para a vida afetiva", diz o psicoterapeuta Paulo Lemos, autor de Educação afetiva (Editora Lemos). Ele explica que há amigos que não são do casal, mas apenas de um cônjuge e que deve haver limites para as atuações sociais, profissionais e para a vida afetiva.

Na agitada vida que levam, Claudia Raia, de 31 anos, e Edson Celulari, de 40 anos, procuram estar juntos o maior tempo possível. E ainda não se cansaram. Agora, que estão há três semanas gravando a próxima novela das 20h, Torre de Babel, eles podem viver "grudados" como Cláudia confessa que gosta de viver com o marido, desde que começaram a namorar, em 91, quando faziam a novela Deus nos acuda.

"Há um mês estamos juntos 24 horas. Somos grandes amigos, nos damos muito bem, nos divertimos juntos e levamos este prazer para o trabalho, porque gostamos desse grude", diz Claudia, que conheceu o marido em 87, na novela Sassaricando.

Edson diz que viver juntos 24 horas exige paciência, atenção e generosidade. Apesar de falar longe da mulher, Edson também usa a palavra "grude" para definir a relação que têm. "No dia-a-dia adoramos estar juntos e isso dá qualidade à convivência. Mas, no trabalho, só opinamos quando o outro pede", conta Edson.

Para Lemos, não é apenas no casal que um excesso de proximidade pode gerar conflitos. Dificuldades também podem surgir quando filhos trabalham com os pais. Ele afirma que, muitas vezes, estilos pessoais de se colocar no mundo não permitem uma convivência extremamente intensa. Se há choques anteriores, mais convivência vai gerar mais choques.

Hélia Correia, terapeuta de casais e de família, no Rio de Janeiro, concorda que pode haver problemas nesse tipo de relação. "A maioria dos casais, nesses casos, começa a misturar relação emocional com a profissional, entra num jogo de competição e poder. É preciso muito equilíbrio para manter a relação sem deixar que se crie esse clima". Para Hélia, mesmo na relação conjugal mais madura existe uma disputa. "O ser humano entra em competição para ver quem é melhor".

Tem quem discorde, como o médico radiologista Luiz Fernando Boisson, de 50 anos, e sua mulher, a médica Myrta Felix Boisson, de 32 anos, que se dizem muito felizes com a convivência "intensiva". Casado pela segunda vez, Boisson só vê vantagens na relação deles, que trabalham juntos numa clínica radiológica. "A gratificação que a medicina nos dá no dia-a-dia nos motiva muito. Estudamos juntos, viajamos para congressos e todo nosso trabalho só reforça os laços do casamento, porque lutamos pelos mesmos objetivos".

Myrta, que é a radiologista da apresentadora Xuxa, acrescenta que eles trocam informações sobre casos interessantes que viram durante o dia. "Enquanto muitas mulheres querem um carro novo ou uma jóia no fim do ano, eu queria um aparelho de ultra-sonografia tridimensional mais moderno que custa US$ 300 mil. Fiquei felicíssima quando o Luiz Fernando me disse que havia comprado o aparelho. Era tudo que queríamos", diz Myrta.


     

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