MERCADO DE TRABALHO VI
"Vai faltar gente para
preencher vagas"por ROBERTA RÊGO
roberta@jc.com.br
Uma evolução
rápida como a que ocorre com a
tecnologia não poderia ser
levada adiante por um quadro
imutável de profissionais. Nesse
mercado, algumas funções
surgiram, outras morreram. Outras
não chegaram a tanto, mas seu
valor de mercado ficou instável
como uma ação na bolsa de
valores. É o caso dos antes bem
cotadíssimos digitadores, que
hoje sofrem séria ameaça de
extinção. "A automação,
a leitura ótica e o código de
barras acabaram com a necessidade
de existir esse
profissional", explica José
Antônio Monteiro de Queiroz,
professor do Departamento de
Informática (DI) da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE).
Ele vai mais
longe. Diz que ainda há espaço
para analistas de sistemas e
programadores, mas elas não
devem ser encaradas como
atividades-fim. "Eu
recomendaria a uma pessoa que
buscasse uma formação assim,
mas como um passo para alcançar
outro objetivo", reflete.
Mas nem tudo é pessimismo.
Dentro de alguns anos, faltará
gente para preencher todas as
vagas que o mercado de
informática vai exigir. A
previsão é de Cláudio Marinho,
diretor do Centro de Tecnologia
de Software para Exportação do
Recife (Softex Recife).
"Não digo isso apenas sob a
ótica do otimismo. Me baseio em
informações concretas",
decreta.
Para Marinho, a
Internet é a área que
representa o maior número de
mudanças no futuro. De acordo
com ele, desde que a rede mundial
de computadores surgiu,
começaram a aparecer novas
empresas e profissões.
"Fazendo uma conta rápida,
identificamos no Estado 40
provedores públicos, ligados ao
Instituto de Tecnologia de
Pernambuco (Itep), e 23
comerciais", relata. Marinho
acrescenta que cada provedor
desses envolve, pelo menos, cinco
pessoas em sua manutenção.
"São 600 novos empregos
gerados nos últimos anos",
conclui.
Boa parte
dessas vagas estão sendo
ocupadas pelos webdesigners,
profissionais responsáveis pelo
visual e execução de um site. A
função deles nasceu em meados
de 1993 e, apesar de ainda não
ser registrada pelo Ministério
do Trabalho, deve permanecer bem
cotada durante os próximos anos.
Para se tornar um designer
especializado em WWW, o único
caminho oficial disponível é o
curso de Desenho
Industrial/Programação Visual
da UFPE, considerado um dos
melhores do País. "Na
Internet, tudo é sedução. Sem
um bom designer, a página não
tem futuro", apregoa Fred
Siqueira, webdesigner do Centro
de Sistemas Avançados do Recife
(Cesar) e do Projeto Gênesis,
ambos ligados à UFPE. Calcular a
quantidade desses profissionais
atuando no mercado é quase
impossível, já que não há
sindicatos ou organizações do
gênero. Eles não revelam o
valor do trabalho, mas não
cobram menos de mil reais por uma
home page simples.
Marinho
acredita que o processo de
mudanças está apenas
começando. "Ainda vão
surgir muito mais profissões. A
Internet de hoje é completamente
diferente da que teremos daqui a
dez anos", ressalta. Para
ele, entre as atividades que não
conseguirão formar pessoal a
contento estão, além do
webdesigner, o desenvolvedor de
software e o administrador de
bancos de dados.
Mas o mercado
já está indo muito bem,
obrigado. No ano passado, o
Softex detectou que, das 300
empresas da área de software e
prestação de serviços de
informática, 222 tiveram algum
faturamento. "Considerando
uma média de dez pessoas por
empresa, temos 3.000 pessoas
diretamente vinculadas com
informática no Estado",
calcula. E o melhor é que boa
parte dessas pessoas já superou
as dificuldades iniciais de
implementação de uma empresa e
já consegue até registrar algum
lucro.
No reino da
tecnologia, as voltas que o mundo
dá geram situações
extremanente irônicas. É como o
que está acontecendo agora com
os programadores que dominavam
linguagens antigas, como o Cobol.
Se algum deles estava pensando em
pendurar as chuteiras, foi como
ganhar um prêmio milionário.
A proximidade
do ano 2000 trouxe consigo um
gigantesco bug: os computadores -
salvo os Macintoshes e os modelos
mais recentes de PC - não vão
conseguir entender que o ano 00
significa 2000, e não 1000.
Conclusão: pane geral em bancos,
lares, empresas e qualquer tipo
de instituição que use micros.
Ou não. É exatamente aí que
entram em cena os especialistas
em Cobol. Só eles serão capazes
de alterar a programação e
reverter o terrível quadro. Ou
seja: estão bem cotadíssimos no
mercado outra vez!