CAPRI IV
Nos
rochedos, grutas cheias de
mistériosO balé colossal e
constante a que os continentes
vêm sendo submetidos há
milhões de anos é responsável
por coisas assombrosas, como o
vulcão Vesúvio, na baía de
Nápoles. Mas os movimentos
tectônicos também criaram
estruturas magníficas. Uma delas
é a própria ilha de Capri, um
pedaço do continente que se
desprendeu e andou cerca de cinco
quilômetros no Mar Tirreno. As
obras mais belas, no entanto,
são as diversas grutas da ilha,
que receberam o retoque final do
vaivém do mar e se tornaram
cartão-postal do local.
São várias
escavações feitas nas costas
rochosas da ilha e que chegaram,
inclusive, a servir de moradia em
eras pré-históricas. É o caso
da Gruta de Matermania, onde
foram encontrados objetos
utilizados por nossos ancestrais.
Vestígios mais recentes de culto
à divindade Mitra, na era
greco-romana, explicam a origem
do nome da gruta.
As grutas
poderiam ser usadas, também,
para abrigo da população, que
se protegia durante a Idade
Média contra a invasão de
piratas. A Gruta de Castiglione,
a maior de todas, por exemplo,
abrigou até 1.500 pessoas. Pode
não significar muita coisa hoje,
quando se sabe que Capri conta
com 12 mil habitantes, mas, na
época da invasão dos
sarracenos, ela serviu de
esconderijo para quase todos os
habitantes da ilha.
É a Gruta
Azul, no entanto, a mais badalada
de todas. Segundo historiadores,
foi o imperador romano Tibério o
primeiro a fazer dali um local
conhecido em Capri. Contam os
habitantes que a gruta era o
local preferido por ele para
nadar, na opinião de alguns, ou
para promover orgias seguidas de
infanticídio, dizem outros.
O certo é que,
com a morte de Tibério, em 37
d.C., a Gruta Azul foi esquecida
pelos ilhéus, que a cercaram de
mistério e lendas. Até 1826,
quando dois turistas alemães
bisbilhoteiros resolveram
desmistificá-la. Depois disso,
virou ponto de visita
obrigatória na ilha, mas ainda
hoje é comum encontrar quem se
refira à ela como local de
reuniões de bruxas e criaturas
marinhas fabulosas.
DE ONDE VEM
A FAMA - O azul vem de um
capricho da natureza ao esculpir
a gruta. Uma cavidade submarina
estrategicamente empurrada para
abaixo da abertura principal
pelos movimentos tectônicos
permitem a entrada da luz do sol.
O resultado é que, sobretudo
pela manhã, tem-se a impressão
de que há um holofote submerso.
Combinado com o tom natural da
água, o resultado é um azul
impossível que sobe do mar e
ilumina toda a gruta.
O local é
famoso mundialmente e atrai boa
parte dos turistas que vão a
Capri. Por isso, a dica é evitar
visitá-la nas vésperas de datas
festivas, a não ser que se
queira ficar horas esperando um
dos barcos na Marina Grande, que
levam uma multidão até a
entrada da gruta. Além disso,
nesses dias, o lugar é invadido
por tantos barcos ao mesmo tempo
que é difícil ver completamente
o jogo de luz.
A entrada mesmo
na Gruta Azul só pode ser feita
em barcos a remo, que comportam
no máximo cinco pessoas, e é
uma aventura à parte. A primeira
impressão é de que vai ser
impossível passar por uma
abertura tão apertada que,
quando uma onda passa, ela quase
desaparece debaixo d'água. A
destreza dos barqueiros faz com
que se avance justamente nesse
momento em que a água sobe, pois
o barco é puxado pela onda da
frente ao mesmo tempo em que é
empurrado pela que vem em
seguida.
Passado o susto
da entrada, prepare-se para
outro. Desta vez, de
incredulidade com o que está
vendo. Só aí se entende porque
o imperador romano não se
preocupou em desfazer sua fama de
infanticida e correr o risco de
ver a gruta repleta de gente,
querendo saber porque aquele era
um local tão especial. (S.R.L.)