- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 30 de abril de 1998

CAPRI IV
Nos rochedos, grutas cheias de mistérios

O balé colossal e constante a que os continentes vêm sendo submetidos há milhões de anos é responsável por coisas assombrosas, como o vulcão Vesúvio, na baía de Nápoles. Mas os movimentos tectônicos também criaram estruturas magníficas. Uma delas é a própria ilha de Capri, um pedaço do continente que se desprendeu e andou cerca de cinco quilômetros no Mar Tirreno. As obras mais belas, no entanto, são as diversas grutas da ilha, que receberam o retoque final do vaivém do mar e se tornaram cartão-postal do local.

São várias escavações feitas nas costas rochosas da ilha e que chegaram, inclusive, a servir de moradia em eras pré-históricas. É o caso da Gruta de Matermania, onde foram encontrados objetos utilizados por nossos ancestrais. Vestígios mais recentes de culto à divindade Mitra, na era greco-romana, explicam a origem do nome da gruta.

As grutas poderiam ser usadas, também, para abrigo da população, que se protegia durante a Idade Média contra a invasão de piratas. A Gruta de Castiglione, a maior de todas, por exemplo, abrigou até 1.500 pessoas. Pode não significar muita coisa hoje, quando se sabe que Capri conta com 12 mil habitantes, mas, na época da invasão dos sarracenos, ela serviu de esconderijo para quase todos os habitantes da ilha.

É a Gruta Azul, no entanto, a mais badalada de todas. Segundo historiadores, foi o imperador romano Tibério o primeiro a fazer dali um local conhecido em Capri. Contam os habitantes que a gruta era o local preferido por ele para nadar, na opinião de alguns, ou para promover orgias seguidas de infanticídio, dizem outros.

O certo é que, com a morte de Tibério, em 37 d.C., a Gruta Azul foi esquecida pelos ilhéus, que a cercaram de mistério e lendas. Até 1826, quando dois turistas alemães bisbilhoteiros resolveram desmistificá-la. Depois disso, virou ponto de visita obrigatória na ilha, mas ainda hoje é comum encontrar quem se refira à ela como local de reuniões de bruxas e criaturas marinhas fabulosas.

DE ONDE VEM A FAMA - O azul vem de um capricho da natureza ao esculpir a gruta. Uma cavidade submarina estrategicamente empurrada para abaixo da abertura principal pelos movimentos tectônicos permitem a entrada da luz do sol. O resultado é que, sobretudo pela manhã, tem-se a impressão de que há um holofote submerso. Combinado com o tom natural da água, o resultado é um azul impossível que sobe do mar e ilumina toda a gruta.

O local é famoso mundialmente e atrai boa parte dos turistas que vão a Capri. Por isso, a dica é evitar visitá-la nas vésperas de datas festivas, a não ser que se queira ficar horas esperando um dos barcos na Marina Grande, que levam uma multidão até a entrada da gruta. Além disso, nesses dias, o lugar é invadido por tantos barcos ao mesmo tempo que é difícil ver completamente o jogo de luz.

A entrada mesmo na Gruta Azul só pode ser feita em barcos a remo, que comportam no máximo cinco pessoas, e é uma aventura à parte. A primeira impressão é de que vai ser impossível passar por uma abertura tão apertada que, quando uma onda passa, ela quase desaparece debaixo d'água. A destreza dos barqueiros faz com que se avance justamente nesse momento em que a água sobe, pois o barco é puxado pela onda da frente ao mesmo tempo em que é empurrado pela que vem em seguida.

Passado o susto da entrada, prepare-se para outro. Desta vez, de incredulidade com o que está vendo. Só aí se entende porque o imperador romano não se preocupou em desfazer sua fama de infanticida e correr o risco de ver a gruta repleta de gente, querendo saber porque aquele era um local tão especial. (S.R.L.)


     

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