-- - -- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de agosto de 1998


ARTIGO

Água racionada

por JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA*

Novamente é necessário racionar água na Região Metropolitana do Recife, o que não é surpresa para ninguém, desde que há cerca de um ano já se previa a ocorrência de uma nova estiagem. Há um ano atrás, os reservatórios de água que garantem o abastecimento do Grande Recife já estavam com níveis bastante reduzidos de estoque, portanto, o racionamento seria apenas uma questão de tempo. Se surpresa existe, é de que não tenha vindo antes.

Anuncia-se que os reservatórios têm hoje apenas 20% da sua capacidade de armazenagem, um limite muito perigoso, especialmente considerando que as chuvas que estão caindo atualmente não têm sido suficientes para repor a quantidade utilizada de água, mesmo com o racionamento, e que só teremos praticamente mais um mês de chuvas. Depois virá o nosso "verão", ótimo para as praias e para o turismo, mas muito preocupante em termos do saneamento básico. Só voltaremos a ver chuvas mais pesadas provavelmente a partir de abril do próximo ano, logo, teremos pelo menos oito meses à frente plenos de suspense quanto ao abastecimento d'água e, certamente, com ampliação do racionamento.

A população já está acostumada com esse tipo de problema, tanto que não ocorreram grandes protestos a partir da notícia. Rapidamente, cada família procura se organizar da melhor maneira para enfrentar a situação, providenciando meios de armazenagem doméstica de água, em baldes, panelas, garrafas de refrigerante ou o que houver. A procura por caixas d'água e outros tipos de reservatórios logo aumentou. Da mesma forma, as empresas especializadas em furar poços artesianos devem estar assoberbadas de novas encomendas. Logo virão as campanhas que tentam incutir na população a noção da necessidade de redução dos desperdícios de um bem tão precioso que é a água potável. De alguma forma, todos esperam sobreviver ao período crítico, até que as chuvas do próximo ano possam aumentar a disponibilidade dos reservatórios e afastar o perigo de escassez total.

Tudo isso são medidas emergenciais, necessárias para enfrentar uma crise, mas também nos lembram de que já enfrentamos a mesma emergência no passado e o faremos outras vezes no futuro, a menos que se consiga dar uma solução mais adequada para este antigo problema.

Não se pode dizer que a Compesa esteja alheia ao que está acontecendo. Temos visto continuamente obras de conservação da rede de distribuição para diminuir as perdas de água, reparos e melhorias em todo o sistema, mas, são apenas paliativos, vez que o problema de base permanece: a estrutura hoje existente é insuficiente para assegurar um nível adequado de abastecimento à população.

A barragem de Pirapama, que resolveria a situação, continua pela metade, sem perspectivas de conclusão, por falta de recursos ou de prioridade. Deverá ser novamente muito lembrada nos próximos meses e esperemos que o racionamento possa pelo menos ajudar a viabilizar o apressamento das obras.

Enquanto isso não ocorre, continuam prevalecendo as soluções individuais, como os inúmeros poços artesianos abertos pelos edifícios e por empresas, numa quantidade tão grande que já chega a preocupar porque ameaça comprometer o lençol de águas subterrâneas da RMR. Se não se resolve a questão de forma global, prevalece a idéia do "cada um por si", mas não é uma situação desejável.

*João Carlos Paes Mendonça é presidente do Grupo Bompreço e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação

 
 

 

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