EXPOSIÇÃO
Dia-a-dia
transformado em um domingo de
festapor DIANA MOURA
BARBOSA
O artista
plástico Joelson comemora, hoje,
os dez anos de sua primeira
individual com uma exposição na
Galeria Vicente do Rego Monteiro,
na Fundaj. Depois de ter feito
mostras de desenho, pintura e
instalações, o artista decidiu
privilegiar as telas, mas sem
deixar de lado a instalação com
objetos de cerâmica, que também
fazem parte do evento de hoje. As
peças serão usadas para compor
um tipo de altar, que reverencia
uma das telas da mostra.
Batizado de
Paisagem Embaixo da Xícara, o
atual trabalho de Joelson fala
das grandes e das pequenas coisas
do cotidiano. O artista revela
que o título, bem sugestivo,
surgiu porque ele tem o hábito
de refletir sobre a pintura
conversando e tomando café com
os amigos. Sua mesa, então,
tornou-se suporte de estudos,
reunião com outros pintores, de
conversas, de amadurecimento. É
desse material corriqueiro que
surgem as telas de Joelson, nas
quais o dia-a-dia é transformado
em domingo de festa.
Paisagem
Embaixo da Xícara é um exemplo
do que tempo pode fazer por um
pintor. Ou, ao contrário, do que
um artista pode fazer pelo tempo.
A duração de suas obras carrega
algo de eternidade. Não que as
pinturas estejam imunes a ação
temporal, mas elas trazem algo de
um passado coletivo que parece
querer ficar para sempre. Suas
imagens se cristalizam no
presente e comunicam que estarão
ali a todo momento.
Talvez, esse
caráter perpétuo seja um
elemento da temática escolhida
por Joelson. Dos 10 quadros da
mostra, a maioria traz desenhos
de santos ou igrejas. Essas
imagens evocam, naturalmente,
todo um passado artístico e
religioso difícil de ignorar. É
preciso muita coragem de um
pintor para se lançar nesse
universo. Mas Joelson faz isso
com naturalidade, sem muita
pretensão. As santas retratadas
por ele ligam-se mais à
estética das esculturas do que
da pintura - estão sempre de
pé, imóveis, como imagens de um
altar. "Gosto da forma, da
estética das imagens. Gostos dos
olhares piedosos dos retratos das
santas", explica o artista.
Além das
figuras sacras, Joelson também
apresenta telas com torres de
igrejas. Mas, diferente dos
templos imponentes e rígidos,
ele preferiu mostrar torres pouco
delineadas, sem o traço
milimétrico, pertinentes a uma
religiosidade livre, sem muitas
amarras. Junto às torres e
imagens, o artista coloca vários
desenhos, traços, símbolos.
São informações que completam
o significado da tela. "Meus
quadros também são uma espécie
de diário, onde registro coisas
do dia-a-dia. Algumas peças são
segredos, códigos que só eu
conheço. Outras são mais
universais, mais
compreensíveis", comenta.
Todos esses
elementos vão surgindo nos
quadros espontaneamente. Joelson
explica que, às vezes, até
utiliza alguns desenhos que fez
em 1995 como ponto de partida,
mas a tela surge mesmo à medida
que vai trabalhando. "Gosto
do artista engenheiro, que
trabalha, que move pedras. Não
gosto do artista que só faz
pose. Quando eu era criança,
ficava encantado com as
histórias sobre Leonardo da
Vinci, que era escultor, pintor,
cientista, inventor. Acho que é
porque tenho muita energia para
gastar, estou sempre mexendo em
alguma coisa", reflete
Joelson. Essa inquietude está
presente na sua exposição, na
profusão de detalhes que ele
focaliza. Para compensar, sua
cartela de cores não é muito
extensa. Azul da Prússia, Azul
Turquesa, Amarelo Nápoles, Verde
Veronesse, Terra de Siena
Queimada. Sempre uma associação
de cores e lugares que faz
Joelson "viajar" quando
pinta. Por isso, Paisagem Embaixo
da Xícara nos lembra sempre um
lugar para ser descoberto, esse
gostinho eterno de que nunca se
pode conhecer tudo.
Serviço
Paisagem
Embaixo da Xícara, exposição
de Joelson Galeria Vicente do
Rego Monteiro (Fundaj - Rua
Henrique Dias, 609, Derby. Fone:
424.3266) Abertura: hoje, às 20h
Visitação: de terça a sábado