MÚSICA
Cidade
Negra está bem curtido e melhorpor MARCELO PEREIRA
Enviado especial
RIO DE
JANEIRO - Eles são quatro
caras legais, bem família, que
saíram da violenta Baixada
Fluminense para conquistar o
público de todas as camadas
sociais com seu reggae, antes
mais voltado para as raízes
(roots) e agora flertando com as
novas tendências do pop,
aderindo aos som elaborado com o
sampler e aos scratches. A
mensagem de contestação perdeu
um pouco dos tons fortes, mas
ganhou em lirismo. A ideologia
positiva dos rastafaris ainda
permanece em cada letra, com
menos chavões. Eles são Da Gama
(guitarra), Bino Farias (baixo),
Lazão (bateria) e Toni Garrido
(vocal) e formam a banda Cidade
Negra, que chega ao quinto disco
mostrando maturidade. Uma
maturidade que se reflete no
título novo trabalho - Quanto
Mais Curtido Melhor, que já sai
do forno da Sony com 300 mil
cópias vendidas.
Quanto Mais
Curtido Melhor foi apresentado à
imprensa na segunda-feira à
tarde, em coletiva no Sheraton.
Nada de ostentação, que o
mercado fonográfico está
abalado com a onda da pirataria.
Estima-se que 20% das vendas seja
hoje de CD piratas. O título do
disco reflete o processo de
criação da banda. Se o
anterior, O Erê, falava sobre as
crianças brasileiras, dessa vez
o mote foi a curtição da
amizade cada vez maior que há
entre os músicos e também o
amadurecimento que estão
atingindo em suas carreiras. É
também uma volta ao estilo de
compor do início da banda, há
12 anos, quando o vocalista ainda
era Bernardo. "A maior parte
das músicas foi feita na casa do
Lazão. A gente se reunia e
pegava o violão, ficava tocando
e compondo, esmerilhando as
canções. Somente depois é que
fomos para o estúdio ensaiar e
definir o formato das
músicas", explica Toni
Garrido, que entrou para a Cidade
Negra a partir do terceiro disco.
Nesse novo
trabalho, a banda se preocupou
mais com o lirismo da letras (Já
Foi, Ponto de Mutação, Os
Anjos, A Estrada) sem abandonar o
teor de crítica e a mensagem
positiva do reggae (Voltando Pra
Casa, O Vacilão, A Cor do Sol,
Rio Pro Mar, País da Fantasia e
na regravação de Barracos da
Cidade - de Gilberto Gil).
"Falamos de várias coisas
que já havíamos abordado mas de
maneira diferente. A gente sentia
uma necessidade buscar mais a
poesia", diz Garrido.
"Falamos também da questão
social, passando as mensagens dos
grandes líderes, e sobre a
necessidade de estarmos unidos, a
questão da unidade humana",
complementa Da Gama.
Esse disco
também marca uma procura mais
acentuada da banda em incorporar
elementos eletrônicos. "É
um caminho que não começou
agora, mas que está mais
curtido, amadurecido. Nós
ouvimos sons que vem de todo
mundo, coisas que ouvimos na
estrada e que Lazão coloca nas
músicas", diz Garrido. Sem
desviar muito do reggae mais
tradicional e pop, Cidade Negra
incrementa suas composições com
a mãozinha de amigos em
scratches (com o DJ Cleyston),
talk box Dado Villa-Lobos),
samplers (Liminha) efeitos de
teclados (Alex Meirelles e Jean
Pierre Magaye), para falar de
alguns. O resultado é bom e
bastante pop, a essência de todo
o trabalho da banda.
O desafio da
Cidade Negra é justamente passar
toda essa nova bossa eletrônica
para o show. "No nosso
conceito, show é show e disco é
disco. As situações em que se
houve um e outro são
diferentes", diz Toni
Garrido. "A energia é
diferente. As pessoas querem
dançar e curtir mais do que
ouvir os efeitos",
complementa Lazão. "Mas
estamos começando a procurar ser
mais fiel ao disco", adianta
o vocalista. "Estamos
pensando em usar coisas
pré-gravadas. Estamos usando
isso nos ensaios", revela Da
Gama.
Embora o disco
seja um momento de curtição dos
quatro músicos, a banda não
cogitou em se autoproduzir,
preferindo continuar contando com
o quinto Cidade Negra - o
produtor Liminha. "Esse
disco foi feito com muita
tranqülidade. Liminha mexeu
muito pouco com a estrutura das
músicas. Ele concordou com tudo.
O grande barato é a gente
confiar nele e ele confiar na
gente", diz Garrido.
"Nossa relação não chegou
sequer no amadurecimento. Temos
muito ainda para fazer
juntos".
A curtição do
novo trabalho não ficou restrita
ao quarteto e ao comando de
Liminha. Outro parceiro constante
e presente em Quanto Mais Curtido
Melhor é o letrista Bernardo
Vilhena (A Cor do Sol e Os
Anjos). Cidade Negra apresenta
também o novo parceiro: o peter
pan Marcos Valle, um mito pop
carioca (em Rio Pro Mar). Outra
novidade do disco é uma letra da
nova safra do também sempre
jovem cinquentão Lulu Santos (em
Sábado a Noite). Da Baixada
Fluminense, foram buscar o
versátil sambista e reggaeiro
Serginho Miriti (que compôs
Voltando Pra Casa).
Para fazer este
novo trabalho, os quatro músicos
da Cidade Negra tiveram que dar
uma parada de dez meses nos
shows, chegando a suspender
alguns compromissos agendados. A
segunda apresentação deles
nesse período foi no VIII
Festival de Inverno de Garanhuns,
há 12 dias. O novo show será
lançado no Olympia, em São
Paulo (dias 30 e 31 de outubro),
seguindo depois para
Metropolitan, no Rio de Janeiro
(dias 13 e 14 de novembro).
Antes, Cidade Negra cumpre uma
turnê européia, participando de
vários festivais de verão na
Alemanha, França, Suíça,
Itália, Portugal e Espanha.
OUTROS
PLANOS - Outro disco da
Cidade Negra estava previsto para
sair esse ano, reunindo versões
remixadas por Nelson Meirelles
(produtor dos dois primeiros
trabalho da banda), Liminha
(óbvio), Mad Professor, DJ
Elroy, entre outros. Mas por
conta de Quanto Mais Curtido
Melhor, esse brinde aos fãs
ficou para meados de 99. Outra
novidade é o selo Reggae Brasil,
que Da Gama está montando para
produzir as bandas regueiras da
BF - Bantus, Central do Brasil,
Negril, Cabeça de Negro, entre
outras, que vêm se apresentando
desde ontem no Rio Rock Café.
"Quero dar maior
visibilidade no mercado para essa
galera. Muita gente começou com
a gente há 12 anos e ainda não
conseguiu sua oportunidade. Eu
quero resgatar essas
bandas", diz o guitarrista.
"O
vocalista Toni Garrido, por sua
vez, aguarda com ansiedade a
estréia da versão de Cacá
Diégues para Orfeu do Carnaval,
baseado no poema de Vinicius de
Moraes. "Eu contei com toda
a compreensão dos meus amigos da
banda. O filme tem muito a ver
com o que Cidade Negra fala em
suas músicas. Retrata a
realidade de quem mora no Brasil
nas favelas. Consegui fazer as
filmagens sem atrapalhar os
compromissos da banda. Isso
também foi muito importante,
porque Cidade Negra foi quem
transformou nossas vidas",
reconhece Garrido, que fez o
teste com mais de 100 atores
negros. E em tom de brincadeira,
encerrando a entrevista, dispara:
"Cacá Diegues descobriu um
grande talento". É esperar
a estréia em março de 99 para
conferir. Enquanto isso, curta,
sem compromisso, Quanto Mais
Curtido Melhor. É legal, não
tem contra-indicação.