- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de agosto de 1998

MÚSICA
Cidade Negra está bem curtido e melhor

por MARCELO PEREIRA
Enviado especial

RIO DE JANEIRO - Eles são quatro caras legais, bem família, que saíram da violenta Baixada Fluminense para conquistar o público de todas as camadas sociais com seu reggae, antes mais voltado para as raízes (roots) e agora flertando com as novas tendências do pop, aderindo aos som elaborado com o sampler e aos scratches. A mensagem de contestação perdeu um pouco dos tons fortes, mas ganhou em lirismo. A ideologia positiva dos rastafaris ainda permanece em cada letra, com menos chavões. Eles são Da Gama (guitarra), Bino Farias (baixo), Lazão (bateria) e Toni Garrido (vocal) e formam a banda Cidade Negra, que chega ao quinto disco mostrando maturidade. Uma maturidade que se reflete no título novo trabalho - Quanto Mais Curtido Melhor, que já sai do forno da Sony com 300 mil cópias vendidas.

Quanto Mais Curtido Melhor foi apresentado à imprensa na segunda-feira à tarde, em coletiva no Sheraton. Nada de ostentação, que o mercado fonográfico está abalado com a onda da pirataria. Estima-se que 20% das vendas seja hoje de CD piratas. O título do disco reflete o processo de criação da banda. Se o anterior, O Erê, falava sobre as crianças brasileiras, dessa vez o mote foi a curtição da amizade cada vez maior que há entre os músicos e também o amadurecimento que estão atingindo em suas carreiras. É também uma volta ao estilo de compor do início da banda, há 12 anos, quando o vocalista ainda era Bernardo. "A maior parte das músicas foi feita na casa do Lazão. A gente se reunia e pegava o violão, ficava tocando e compondo, esmerilhando as canções. Somente depois é que fomos para o estúdio ensaiar e definir o formato das músicas", explica Toni Garrido, que entrou para a Cidade Negra a partir do terceiro disco.

Nesse novo trabalho, a banda se preocupou mais com o lirismo da letras (Já Foi, Ponto de Mutação, Os Anjos, A Estrada) sem abandonar o teor de crítica e a mensagem positiva do reggae (Voltando Pra Casa, O Vacilão, A Cor do Sol, Rio Pro Mar, País da Fantasia e na regravação de Barracos da Cidade - de Gilberto Gil). "Falamos de várias coisas que já havíamos abordado mas de maneira diferente. A gente sentia uma necessidade buscar mais a poesia", diz Garrido. "Falamos também da questão social, passando as mensagens dos grandes líderes, e sobre a necessidade de estarmos unidos, a questão da unidade humana", complementa Da Gama.

Esse disco também marca uma procura mais acentuada da banda em incorporar elementos eletrônicos. "É um caminho que não começou agora, mas que está mais curtido, amadurecido. Nós ouvimos sons que vem de todo mundo, coisas que ouvimos na estrada e que Lazão coloca nas músicas", diz Garrido. Sem desviar muito do reggae mais tradicional e pop, Cidade Negra incrementa suas composições com a mãozinha de amigos em scratches (com o DJ Cleyston), talk box Dado Villa-Lobos), samplers (Liminha) efeitos de teclados (Alex Meirelles e Jean Pierre Magaye), para falar de alguns. O resultado é bom e bastante pop, a essência de todo o trabalho da banda.

O desafio da Cidade Negra é justamente passar toda essa nova bossa eletrônica para o show. "No nosso conceito, show é show e disco é disco. As situações em que se houve um e outro são diferentes", diz Toni Garrido. "A energia é diferente. As pessoas querem dançar e curtir mais do que ouvir os efeitos", complementa Lazão. "Mas estamos começando a procurar ser mais fiel ao disco", adianta o vocalista. "Estamos pensando em usar coisas pré-gravadas. Estamos usando isso nos ensaios", revela Da Gama.

Embora o disco seja um momento de curtição dos quatro músicos, a banda não cogitou em se autoproduzir, preferindo continuar contando com o quinto Cidade Negra - o produtor Liminha. "Esse disco foi feito com muita tranqülidade. Liminha mexeu muito pouco com a estrutura das músicas. Ele concordou com tudo. O grande barato é a gente confiar nele e ele confiar na gente", diz Garrido. "Nossa relação não chegou sequer no amadurecimento. Temos muito ainda para fazer juntos".

A curtição do novo trabalho não ficou restrita ao quarteto e ao comando de Liminha. Outro parceiro constante e presente em Quanto Mais Curtido Melhor é o letrista Bernardo Vilhena (A Cor do Sol e Os Anjos). Cidade Negra apresenta também o novo parceiro: o peter pan Marcos Valle, um mito pop carioca (em Rio Pro Mar). Outra novidade do disco é uma letra da nova safra do também sempre jovem cinquentão Lulu Santos (em Sábado a Noite). Da Baixada Fluminense, foram buscar o versátil sambista e reggaeiro Serginho Miriti (que compôs Voltando Pra Casa).

Para fazer este novo trabalho, os quatro músicos da Cidade Negra tiveram que dar uma parada de dez meses nos shows, chegando a suspender alguns compromissos agendados. A segunda apresentação deles nesse período foi no VIII Festival de Inverno de Garanhuns, há 12 dias. O novo show será lançado no Olympia, em São Paulo (dias 30 e 31 de outubro), seguindo depois para Metropolitan, no Rio de Janeiro (dias 13 e 14 de novembro). Antes, Cidade Negra cumpre uma turnê européia, participando de vários festivais de verão na Alemanha, França, Suíça, Itália, Portugal e Espanha.

OUTROS PLANOS - Outro disco da Cidade Negra estava previsto para sair esse ano, reunindo versões remixadas por Nelson Meirelles (produtor dos dois primeiros trabalho da banda), Liminha (óbvio), Mad Professor, DJ Elroy, entre outros. Mas por conta de Quanto Mais Curtido Melhor, esse brinde aos fãs ficou para meados de 99. Outra novidade é o selo Reggae Brasil, que Da Gama está montando para produzir as bandas regueiras da BF - Bantus, Central do Brasil, Negril, Cabeça de Negro, entre outras, que vêm se apresentando desde ontem no Rio Rock Café. "Quero dar maior visibilidade no mercado para essa galera. Muita gente começou com a gente há 12 anos e ainda não conseguiu sua oportunidade. Eu quero resgatar essas bandas", diz o guitarrista.

"O vocalista Toni Garrido, por sua vez, aguarda com ansiedade a estréia da versão de Cacá Diégues para Orfeu do Carnaval, baseado no poema de Vinicius de Moraes. "Eu contei com toda a compreensão dos meus amigos da banda. O filme tem muito a ver com o que Cidade Negra fala em suas músicas. Retrata a realidade de quem mora no Brasil nas favelas. Consegui fazer as filmagens sem atrapalhar os compromissos da banda. Isso também foi muito importante, porque Cidade Negra foi quem transformou nossas vidas", reconhece Garrido, que fez o teste com mais de 100 atores negros. E em tom de brincadeira, encerrando a entrevista, dispara: "Cacá Diegues descobriu um grande talento". É esperar a estréia em março de 99 para conferir. Enquanto isso, curta, sem compromisso, Quanto Mais Curtido Melhor. É legal, não tem contra-indicação.


     

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