- - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 05 de agosto de 1998

ARTIGO
Empreendedorismo cívico (2)

por JOSÉ CARLOS CAVALCANTI*

Um artigo publicado no dia 30/07/98 neste jornal comentávamos que nos EUA, e principalmente no Texas, o conceito de empreendedorismo cívico (ato ou atividade em que empresários inovadores se dispõem a assumir riscos visando tanto o bem-estar de sua comunidade, como grandes lucros de longo prazo e grande notoriedade pública) vem tendo larga aceitação, e tem representado um estímulo ao crescimento do mercado de capital de risco americano.

Na realidade, o empreendedorismo cívico está se alastrando muito além dos EUA e tem contribuído para o avanço do capital de risco em outros países da OECD (o chamado Clube dos Ricos). Mas qual é a origem do avanço deste mecanismo de financiamento nos países da OECD? Em primeiro lugar, nas economias baseadas em conhecimento o crescimento econômico, bem como a criação de empregos, dependem fortemente de inovações de sucesso, o que significa que os resultados de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) devem ser transformados efetivamente em bens comerciáveis. O acesso ao financiamento é visto, então, como um fator chave no processo das inovações.

O capital de risco, como um tipo específico de financiamento que tem se desenvolvido para fundear projetos de alto-risco, desempenha um papel nesta conexão. capital de risco é crucial para o processo inovativo. Por uma variedade de razões é difícil para grandes corporações "abraçarem" projetos inovativos de alto risco. Tais projetos têm maior chance de sucesso se eles são desenvolvidos por pequenas empresas de base tecnológica (technology based firms).

O que tem acontecido nos países da OECD é que capitalistas de risco (estimulados por empreendedores cívicos) têm desejado, e estão aptos a, através de seus próprios instrumentos, investir em tais projetos inovativos de alto risco. Isto é confirmado pela evidência de que revoluções tecnológicas, que têm resultado na transformação de diversas indústrias, têm sido lideradas por venture capital/backed firms (empresas financiadas por capital de risco).

O que é também surpreendente nos países da OECD é o papel do governo no investimento de capital de risco. Além do setor privado (que é bastante expressivo, e, de acordo com a OECD, já representa um mercado de US$ 100 bilhões em todo o mundo), os governos daqueles países estão investindo US$ 3 bilhões em financiamento de risco por ano em pequenas empresas de base tecnológica.

Por quê, então não se investir em empresas de base tecnológica como as do Softex, uma fundação que vem proporcionando a expertise necessária aos jovens empresários da área de informática a produzirem inovações tecnológicas em software? Essa expertise é necessária, mas não suficiente. Estas empresas, que já têm demonstrado seu potencial, precisam de financiamento para competirem num mercado cada vez mais competitivo. Cadê, então, nossos empreendedores cívicos?

* José Carlos Cavalcanti é professor do Depto. de Economia da UFPE.
E-mail:
jcc@decon.ufpe.br


     

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