- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de agosto de 1998

Importa cumprir a lei

Ao entrar em vigor o novo Código Brasileiro de Trânsito (CBT), uma onda de civilidade derramou-se pelo país. Quem sofria e se impacientava com a lei da selva aqui implantada alegrou-se por poder finalmente seguir regras que valem para todos (inclusive para as assim chamadas viaturas oficiais). Os infratores sistemáticos e convictos se assustaram com o rombo que poderia castigar seus bolsos, pois são tementes a multas e a uma fiscalização ostensiva. Acontece que o novo código estabelece multas firmes, como ocorre em todos os países civilizados, mas as polícias de trânsito, ao menos aqui em nosso Estado, são invisíveis nos pontos mais problemáticos das cidades.

De início, no fervor cívico dos primeiros dias do CBT, guardas se multiplicaram em pontos críticos, orientando, indicando opções, multando os renitentes. Faixas de pedestres de repente eram tratadas com todo o respeito. Cruzamentos não eram truculentamente fechados. A perigosa, alucinada, troca constante de faixa de rolamento, em grande velocidade e sem sinalizar, diminuiu sensivelmente. Sinais verdes, vermelhos e amarelos de repente começaram a valer, ou melhor, a ser respeitados. Por pouco tempo, o recifense pôde sentir-se como se estivesse em Paris, Londres, Washington. Não durou muito o incipiente comportamento civilizado. A fiscalização voltou, aos poucos, à ineficácia de antes.

Os guardas preferem cumprir sua quota de penalidades passeando pelas vias centrais em busca de quem está irregularmente estacionado; ou pelas zonas azuis (que em nada prejudicam o trânsito, pelo contrário) à cata de quem ultrapassou por alguns minutos o tempo de utilização desses estacionamentos. Enquanto isso, nos bairros e subúrbios longe do centro, jamantas, carretas e veículos menores estacionam impunemente em movimentadas avenidas; as faixas em que é permitido desenvolver maior velocidade são obstruídas por veículos pesados e lentos etc. O Detran, que tanto propagandeia seus `bons serviços' à população, não consegue fazer dessa propaganda realidade. A sinalização é péssima e freqüentemente invisível. A sincronização de sinais para a chamada onda verde e sua regulagem para adaptar-se ao fluxo do trânsito, já comuns há décadas em outras cidades brasileiras, são ignoradas aqui. Falta de verba? E a arrecadação das multas, taxas etc., fora sua dotação orçamentária?

Ao notar que a aplicação do novo código em Pernambuco não era para valer, nossos intrépidos motoristas voltaram a fazer suas próprias leis e ao salve-se-quem-puder, responsável por tantos engarrafamentos, aborrecimentos, desnecessário stress, acidentes, desastres, mortes. Até o bom costume, que começava a se difundir, de não dirigir depois de ingerir bebida alcoólica já foi esquecido. O pior é que o permissivo clima pré-eleitoral já faz com que setores do governo federal prometam rever o CBT, no capítulo das multas, antes das eleições de outubro. Uma medida provisória, como sói acontecer, diminuiria seus valores, demagogicamente considerados por demais elevados para um país pobre.

Se o infrator não pode pagar multas porque é pobre deveria ser mais cuidadoso e, ao menos, deveria respeitar a lei para não ter problemas. Mas o raciocínio dos nossos políticos é geralmente mais curto, sobretudo em tempo de eleições. Felizmente, o ministro da Justiça, Renan Calheiros, conseguiu adiar a discussão do tema. A sensível queda no incrível número de acidentes e mortes em nossas estradas e vias urbanas não impressiona nem comove o tipo de político que topa tudo por voto. É possível até que algum corte no valor das novas multas não chegue e animar os infratores convictos, pois os orçamentos estão apertados. Mesmo quando o valor das multas era bem menor do que atualmente, o mais empedernido motorista ficava razoável ao ver um raro guarda.

A discussão dessa questão está com sinais trocados. Em vez de lamentar mutilações, perdas de vidas e de bens, fica-se preocupado com o `pobre motorista' que vai ter que desembolsar, digamos, R$ 800, ou perder sua habilitação. É a nossa cultura (melhor, incultura) de que a lei não é para ser levada muito a sério; existe até lei para valer e lei para não valer. Seria demais exigir que o motorista respeite bens e vidas alheias, pedestres, ciclistas, motoqueiros?; que ele socorra suas eventuais vítimas? O que importa, em ano de eleições ou não, é que o recifense (e todo brasileiro) se conscientize para cumprir a lei; e que as autoridades façam cumprir a lei.

 
 

 

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes