- - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 02 de agosto de 1998

SAÚDE
Veja como os hormônios podem mudar a nossa vida

por HELIETE VAITSMAN
Agência Globo

Não basta viver muito, é preciso viver melhor. À medida que cresce o número de pessoas que chegam aos 50 anos em plena forma e esperando viver outros 30, cresce também a obsessão pela saúde e pelo rejuvenescimento. Palavras como estrogênio, progesterona, testosterona, DHEA e hormônio de crescimento, antes restritas aos consultórios, entraram no vocabulário cotidiano da geração que os americanos chamam de baby boomers, nascidos após a Segunda Guerra e primeiros beneficiários da sociedade de consumo.

Foi nessa geração que se firmou a noção de que o envelhecimento é, entre outras coisas, uma deficiência hormonal a ser adiada, ou pelo menos amenizada, artificialmente. Pílulas, adesivos, pomadas e injeções hormonais fazem parte, atualmente, das farmácias domésticas. Assim, quando a produção de estrogênio pelos ovários cessa com a chegada da menopausa, a solução pode ser substituir o hormônio em falta por uma substância química que exerça as suas funções. Com isso, combatem-se igualmente sintomas imediatos e incômodos - como a irritação e as ondas de calor - e os riscos a longo prazo da falta de estrogênio - a exemplo da osteoporose e das doenças cardíacas.

O primeiro passo dessa revolução hormonal, ainda em andamento, aconteceu em 1966, quando o ginecologista americano Robert Wilson defendeu, no livro Feminine Forever, o uso do estrogênio modificado na pós-menopausa. Mais tarde, a reposição hormonal passou a incluir a progesterona, ao ficar comprovado que o estrogênio sozinho aumentava os riscos de câncer uterino e de mama. Na década de 90, o novo must parecem ser as drogas que imitam a ação do estrogênio, embora com outros componentes químicos.

Tanto o estrogênio quanto a progesterona são produzidos pelos ovários e integram a categoria dos chamados hormônios sexuais, motivo de um número crescente de pesquisas. Outro hormônio sexual, predominantemente masculino mas também presente na mulher, é a testosterona. É graças a ela que a mulher procura o homem, tornando-se mais segura, de acordo com a médica e terapeuta sexual Theresa Crenshaw, autora do livro A alquimia do amor e do tesão, recém-lançado no Brasil pela Editora Record.

Para Theresa, é certo que os hormônios sexuais e seus precursores - como a DHEA e a pregnenolona - determinam quem, quando e com que freqüência o ser humano ama. "A testosterona pode ser fonte de confusão para ambos os sexos", explica. "Ela impele a pessoa para a masturbação, por um lado, promovendo um impulso sexual agressivo. Por outro lado, motiva os dois sexos para a caçada. Às vezes, um dos impulsos leva a melhor por causa da atuação de outros hormônios e da presença ou não de um parceiro disponível", ressalta a terapeuta.

REPOSIÇÃO - Segundo pesquisas recentes, a reposição com a testosterona pode devolver a libido, a massa muscular e até as funções cognitivas em declínio nos homens maiores de 50 que apresentam quedas das taxas do hormônio. No Brasil, essa reposição já está disponível em forma de injeções, tomadas a cada 20 dias. Mas elas só podem ser recomendadas depois de uma dosagem laboratorial do hormônio, adverte o endocrinologista Amélio Godoy de Mattos, do Instituto Estadual de Endocrinologia e Diabetes do Rio de Janeiro.

"O nível da testosterona livre, assim chamada porque age diretamente sobre órgãos e tecidos, varia de um homem para outro. Com isso, também varia a dosagem do hormônio a ser reposto", explica o médico. "Em geral, a tendência é que a testosterona caia 1,2% ao ano a partir dos 40 anos, o que produz a diminuição da libido e também do desempenho sexual", revela.

Ao contrário das mulheres, que deixam de ficar menstruadas, os homens não mostram sinais externos de que o organismo passou a fabricar menos hormônios e entrou na andropausa (a menopausa masculina). "Todo homem na andropausa deveria submeter-se a avaliações hormonais periódicas. Além da testosterona, também reduzem-se, com a idade, os níveis de outros hormônios masculinos, como a a androstenediona, o androstenediol e a dehidroepiandrosterona, conhecida pela sigla DHEA", diz Mattos.

Nos Estados Unidos, implantes de testosterona estão sendo usados inclusive por mulheres na pós-menopausa, para melhorar a libido. Cada implante atua por um período de seis meses. Mas existe um senão: os maiores estudos clínicos com mulheres e testosterona avaliaram apenas as que haviam entrado na menopausa em conseqüência da retirada cirúrgica dos ovários. A retirada é um choque hormonal que difere bastante da menopausa natural.

COLESTEROL - Os estrogênios, os androgênios, a progesterona e outros membros da família dos hormônios sexuais, também chamados de esteróides, têm uma raiz comum, uma molécula "ancestral" que atua como precursora. Esta molécula é nada mais nada menos que o nosso velho conhecido colesterol. Vilão cujo excesso é responsável pelo aumento das doenças cardiovasculares, o colesterol é, ao mesmo tempo, uma substância vital para o funcionamento do corpo humano, chamada precursora pelos médicos. Sem ele, os hormônios esteróides não seriam produzidos.

"Sem colesterol, não há pronegnolona, estrogênio ou testosterona. Por isso, embora o fígado produza a maior parte do colesterol de que necessita o organismo, é comum que pessoas que se submetem a dietas extremamente pobres em gordura acabem com desequilíbrio hormonal", afirma o médico americano Jonathan Wright, autor do best seller Natural hormone replacement for women over 45 (A reposição hormonal natural para mulheres maiores de 45 anos).

Para produzir os hormônios, o organismo precisa de uma série de nutrientes, que agem com a ajuda de enzimas. Há alimentos que favorecem a produção do estrogênio. Entre eles, estão os produtos à base de soja, como o tofu e o misso, que contêm substâncias chamadas fitoestrógenos, isto é, estrógenos de origem vegetal. Acredita-se que as mulheres asiáticas sofrem muito menos com os sintomas da menopausa por causa do alto nível de soja existente na sua dieta.

Várias pesquisas que apontam para a importância de outro hormônio, a DHEA, mostram que sua produção no organismo é favorecida por um tubérculo mexicano muito parecido com o inhame, o yam. A planta, usada no México como remédio para a tensão pré-menstrual, parece regular as flutuações hormonais que causam sintomas como ressecamento vaginal. Cápsulas de extrato de yam são vendidas no Rio por farmácias de manipulação, mas não devem ser consumidas sem receita médica.

Outros fatores parecem influenciar a DHEA. Num estudo americano, os níveis de DHEA foram medidos em 252 homens e 74 mulheres, praticantes regulares de meditação transcendental, e comparados a grupos que não praticavam a meditação. Conclusão: os níveis de DHEA eram mais altos nas mulheres de todas as idades que meditavam, mas só nos homens acima dos 40 anos. O comportamento competitivo e o estresse crônico aparentemente diminuem os níveis de DHEA.

O hormônio de crescimento, a ocitocina e a prolactina também têm efeitos sobre a atividade sexual. A prolactina, por exemplo, se eleva quando a mulher amamenta e reduz o desejo sexual. O desejo também se reduz quando diminui, a partir dos 40 anos, a produção de hormônio de crescimento.

A vontade de repor hormônios em baixa, no entanto, nem sempre deve ser transformada em prática. Como adverte o professor de farmacologia Miguel Lemos Neto, um risco do hormônio de crescimento sintético é fazer crescer os ossos do queixo, da face e também dos dedos, no chamado efeito Stallone.


     

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