SAÚDE
Veja
como os hormônios podem mudar a
nossa vidapor HELIETE VAITSMAN
Agência Globo
Não basta
viver muito, é preciso viver
melhor. À medida que cresce o
número de pessoas que chegam aos
50 anos em plena forma e
esperando viver outros 30, cresce
também a obsessão pela saúde e
pelo rejuvenescimento. Palavras
como estrogênio, progesterona,
testosterona, DHEA e hormônio de
crescimento, antes restritas aos
consultórios, entraram no
vocabulário cotidiano da
geração que os americanos
chamam de baby boomers, nascidos
após a Segunda Guerra e
primeiros beneficiários da
sociedade de consumo.
Foi nessa
geração que se firmou a noção
de que o envelhecimento é, entre
outras coisas, uma deficiência
hormonal a ser adiada, ou pelo
menos amenizada, artificialmente.
Pílulas, adesivos, pomadas e
injeções hormonais fazem parte,
atualmente, das farmácias
domésticas. Assim, quando a
produção de estrogênio pelos
ovários cessa com a chegada da
menopausa, a solução pode ser
substituir o hormônio em falta
por uma substância química que
exerça as suas funções. Com
isso, combatem-se igualmente
sintomas imediatos e incômodos -
como a irritação e as ondas de
calor - e os riscos a longo prazo
da falta de estrogênio - a
exemplo da osteoporose e das
doenças cardíacas.
O primeiro
passo dessa revolução hormonal,
ainda em andamento, aconteceu em
1966, quando o ginecologista
americano Robert Wilson defendeu,
no livro Feminine Forever, o uso
do estrogênio modificado na
pós-menopausa. Mais tarde, a
reposição hormonal passou a
incluir a progesterona, ao ficar
comprovado que o estrogênio
sozinho aumentava os riscos de
câncer uterino e de mama. Na
década de 90, o novo must
parecem ser as drogas que imitam
a ação do estrogênio, embora
com outros componentes químicos.
Tanto o
estrogênio quanto a progesterona
são produzidos pelos ovários e
integram a categoria dos chamados
hormônios sexuais, motivo de um
número crescente de pesquisas.
Outro hormônio sexual,
predominantemente masculino mas
também presente na mulher, é a
testosterona. É graças a ela
que a mulher procura o homem,
tornando-se mais segura, de
acordo com a médica e terapeuta
sexual Theresa Crenshaw, autora
do livro A alquimia do amor e do
tesão, recém-lançado no Brasil
pela Editora Record.
Para Theresa,
é certo que os hormônios
sexuais e seus precursores - como
a DHEA e a pregnenolona -
determinam quem, quando e com que
freqüência o ser humano ama.
"A testosterona pode ser
fonte de confusão para ambos os
sexos", explica. "Ela
impele a pessoa para a
masturbação, por um lado,
promovendo um impulso sexual
agressivo. Por outro lado, motiva
os dois sexos para a caçada. Às
vezes, um dos impulsos leva a
melhor por causa da atuação de
outros hormônios e da presença
ou não de um parceiro
disponível", ressalta a
terapeuta.
REPOSIÇÃO -
Segundo pesquisas recentes, a
reposição com a testosterona
pode devolver a libido, a massa
muscular e até as funções
cognitivas em declínio nos
homens maiores de 50 que
apresentam quedas das taxas do
hormônio. No Brasil, essa
reposição já está disponível
em forma de injeções, tomadas a
cada 20 dias. Mas elas só podem
ser recomendadas depois de uma
dosagem laboratorial do
hormônio, adverte o
endocrinologista Amélio Godoy de
Mattos, do Instituto Estadual de
Endocrinologia e Diabetes do Rio
de Janeiro.
"O nível
da testosterona livre, assim
chamada porque age diretamente
sobre órgãos e tecidos, varia
de um homem para outro. Com isso,
também varia a dosagem do
hormônio a ser reposto",
explica o médico. "Em
geral, a tendência é que a
testosterona caia 1,2% ao ano a
partir dos 40 anos, o que produz
a diminuição da libido e
também do desempenho
sexual", revela.
Ao contrário
das mulheres, que deixam de ficar
menstruadas, os homens não
mostram sinais externos de que o
organismo passou a fabricar menos
hormônios e entrou na andropausa
(a menopausa masculina).
"Todo homem na andropausa
deveria submeter-se a
avaliações hormonais
periódicas. Além da
testosterona, também reduzem-se,
com a idade, os níveis de outros
hormônios masculinos, como a a
androstenediona, o androstenediol
e a dehidroepiandrosterona,
conhecida pela sigla DHEA",
diz Mattos.
Nos Estados
Unidos, implantes de testosterona
estão sendo usados inclusive por
mulheres na pós-menopausa, para
melhorar a libido. Cada implante
atua por um período de seis
meses. Mas existe um senão: os
maiores estudos clínicos com
mulheres e testosterona avaliaram
apenas as que haviam entrado na
menopausa em conseqüência da
retirada cirúrgica dos ovários.
A retirada é um choque hormonal
que difere bastante da menopausa
natural.
COLESTEROL -
Os estrogênios, os androgênios,
a progesterona e outros membros
da família dos hormônios
sexuais, também chamados de
esteróides, têm uma raiz comum,
uma molécula
"ancestral" que atua
como precursora. Esta molécula
é nada mais nada menos que o
nosso velho conhecido colesterol.
Vilão cujo excesso é
responsável pelo aumento das
doenças cardiovasculares, o
colesterol é, ao mesmo tempo,
uma substância vital para o
funcionamento do corpo humano,
chamada precursora pelos
médicos. Sem ele, os hormônios
esteróides não seriam
produzidos.
"Sem
colesterol, não há
pronegnolona, estrogênio ou
testosterona. Por isso, embora o
fígado produza a maior parte do
colesterol de que necessita o
organismo, é comum que pessoas
que se submetem a dietas
extremamente pobres em gordura
acabem com desequilíbrio
hormonal", afirma o médico
americano Jonathan Wright, autor
do best seller Natural hormone
replacement for women over 45 (A
reposição hormonal natural para
mulheres maiores de 45 anos).
Para produzir
os hormônios, o organismo
precisa de uma série de
nutrientes, que agem com a ajuda
de enzimas. Há alimentos que
favorecem a produção do
estrogênio. Entre eles, estão
os produtos à base de soja, como
o tofu e o misso, que contêm
substâncias chamadas
fitoestrógenos, isto é,
estrógenos de origem vegetal.
Acredita-se que as mulheres
asiáticas sofrem muito menos com
os sintomas da menopausa por
causa do alto nível de soja
existente na sua dieta.
Várias
pesquisas que apontam para a
importância de outro hormônio,
a DHEA, mostram que sua
produção no organismo é
favorecida por um tubérculo
mexicano muito parecido com o
inhame, o yam. A planta, usada no
México como remédio para a
tensão pré-menstrual, parece
regular as flutuações hormonais
que causam sintomas como
ressecamento vaginal. Cápsulas
de extrato de yam são vendidas
no Rio por farmácias de
manipulação, mas não devem ser
consumidas sem receita médica.
Outros fatores
parecem influenciar a DHEA. Num
estudo americano, os níveis de
DHEA foram medidos em 252 homens
e 74 mulheres, praticantes
regulares de meditação
transcendental, e comparados a
grupos que não praticavam a
meditação. Conclusão: os
níveis de DHEA eram mais altos
nas mulheres de todas as idades
que meditavam, mas só nos homens
acima dos 40 anos. O
comportamento competitivo e o
estresse crônico aparentemente
diminuem os níveis de DHEA.
O hormônio de
crescimento, a ocitocina e a
prolactina também têm efeitos
sobre a atividade sexual. A
prolactina, por exemplo, se eleva
quando a mulher amamenta e reduz
o desejo sexual. O desejo também
se reduz quando diminui, a partir
dos 40 anos, a produção de
hormônio de crescimento.
A vontade de
repor hormônios em baixa, no
entanto, nem sempre deve ser
transformada em prática. Como
adverte o professor de
farmacologia Miguel Lemos Neto,
um risco do hormônio de
crescimento sintético é fazer
crescer os ossos do queixo, da
face e também dos dedos, no
chamado efeito Stallone.