ALENTEJO
Cidades-museus
evocam o passadoNo Alentejo é assim: as
pessoas pisam em pedras gastas
pelas rodas das bigas romanas;
caminham por corredores onde já
foram decididas batalhas que
mudariam o rumo da história;
apóiam-se em paredes decoradas
com pinturas do século 16 ou
rodapés em azulejo do século
18; dormem em aposentos onde
sonharam, amaram, conceberam e
morreram poderosos reis e
rainhas. São cidades muito
antigas, construídas sobre ou a
partir de ruínas de outras
cidades ainda mais antigas,
ocupadas por diversos povos, e,
conseqüentemente, com muitas e
valiosíssimas passagens
históricas para lembrar.
Muitas delas
estão registradas na eclética
arquitetura da região, em que
traços romanos misturam-se a
desenhos góticos e manuelinos,
termo criado no século 19 para
designar a ruptura artística
portuguesa no gótico tardio, na
virada do século 15 para o 16 -
época das grandes navegações e
do encontro com novas culturas;
da presença da Côrte no
Alentejo, trazendo, com ela,
artistas e arquitetos que
produziram belíssimos exemplares
da arquitetura monumental.
Muitos deles
estão na cidade-museu que é
Évora, uma das maiores do
Alentejo, com 45 mil habitantes
(51 mil, contando-se as vilas nos
arredores). Ninguém melhor do
que o escritor português José
Saramago para descrevê-la:
"Em Évora há, sim, uma
atmosfera que não se encontra em
outro qualquer lugar; Évora tem,
sim, uma presença constante de
História nas suas ruas e
praças, em cada pedra ou sombra;
Évora logrou, sim, defender o
lugar do passado sem retirar
espaço do presente."
Isso posto, o
que ver? Muito. Entre os diversos
monumentos de Évora sobressai-se
a Catedral Santa Maria, que
começou a ser construída no
século 12 e só foi concluída
no século 14, passando pelos
estilos românico e gótico (que
foi tão utilizado no Alentejo a
ponto de se falar em gótico
alentejano). Entre as relíquias
que lá vivem, está o mais
antigo órgão de Portugal e um
dos mais antigos do mundo,
datando do século 16 - ainda
hoje utilizado em concertos
realizados na catedral.
Por toda a
parte, há raridades como essa,
não só em igrejas e palacetes,
mas em casas particulares, que
revelam, aqui e ali, criações
de alto valor artístico e
arquitetônico, incorporadas ao
dia-a-dia dos alentejanos.
Há que se
reconhecer, no entanto, que
algumas obras são mais difíceis
de encontrar a esmo, como a
Capela de Ossos da Igreja de São
Francisco. Foi feita entre os
séculos 16 e 17, com cinco mil
ossos, retirados das valas
existentes na parte externa da
Igreja, onde eram enterradas as
pessoas que não pertenciam ao
clero e à nobreza. Na porta de
entrada, os frades franciscanos
colocaram uma inscrição que
fala por elas: "Nós ossos
que aqui estamos, pelos vossos
esperamos". Dá arrepios.
A idéia era
fazer um santuário para
meditação sobre a
transitoriedade da vida. Há mais
três desse tipo em Portugal,
sendo esta capela de Évora a
maior do mundo no seu
"gênero decorativo",
como explica o guia. O resultado:
é no mínimo estranho ver ossos
de seres humanos como nós
reduzidos a peças decorativas,
que termina sendo o que acontece
atualmente. Uma experiência que
não se deve descartar, no
entanto.
É passeando
por monumentos como esses que
conhece-se um pouco mais sobre a
história de armaduras e espadas
da região. A imponente Catedral
da Sé é testemunho dos
julgamentos e condenações
comandadas pela Inquisição. Foi
fundada em 1186 sobre uma
mesquita árabe que até hoje a
suporta. A fachada combina
traços romanos e góticos, no
sincretismo que bem caracteriza
Évora e o Alentejo como um todo.
Vale ressaltar
que os arabescos mouros podem ter
ficado nas construções
alentejanas (resultado dos 450
anos em que eles habitaram a
cidade), mas os próprios foram
banidos para sempre de Évora, em
1165, pelo cavaleiro salteador
Giraldo, o Sem-Pavor, que virou
nome de praça, a principal da
cidade.
Outro
personagem, mais ilustre, ganhou
notoriedade não só em Portugal,
como além-mar. Vasco da Gama
morou uns tempos na cidade e sua
casa é, hoje, habitada por
jesuítas. Agradabilíssima, é
uma daquelas que, por trás de
discretas fachadas, guardam
poéticos pátios internos e
pinturas antigas (estas, do
século 16).
Envolvido por
esse clima passado/presente, o
visitante tem a opção de
hospedar-se em antigos castelos,
mosteiros e conventos reformados
e transformados em tradicionais
pousadas, distribuídas por todo
Portugal. No Alentejo
encontram-se várias e Évora
não foge à regra.