- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 30 de julho de 1998

ALENTEJO
Cidades-museus evocam o passado

No Alentejo é assim: as pessoas pisam em pedras gastas pelas rodas das bigas romanas; caminham por corredores onde já foram decididas batalhas que mudariam o rumo da história; apóiam-se em paredes decoradas com pinturas do século 16 ou rodapés em azulejo do século 18; dormem em aposentos onde sonharam, amaram, conceberam e morreram poderosos reis e rainhas. São cidades muito antigas, construídas sobre ou a partir de ruínas de outras cidades ainda mais antigas, ocupadas por diversos povos, e, conseqüentemente, com muitas e valiosíssimas passagens históricas para lembrar.

Muitas delas estão registradas na eclética arquitetura da região, em que traços romanos misturam-se a desenhos góticos e manuelinos, termo criado no século 19 para designar a ruptura artística portuguesa no gótico tardio, na virada do século 15 para o 16 - época das grandes navegações e do encontro com novas culturas; da presença da Côrte no Alentejo, trazendo, com ela, artistas e arquitetos que produziram belíssimos exemplares da arquitetura monumental.

Muitos deles estão na cidade-museu que é Évora, uma das maiores do Alentejo, com 45 mil habitantes (51 mil, contando-se as vilas nos arredores). Ninguém melhor do que o escritor português José Saramago para descrevê-la: "Em Évora há, sim, uma atmosfera que não se encontra em outro qualquer lugar; Évora tem, sim, uma presença constante de História nas suas ruas e praças, em cada pedra ou sombra; Évora logrou, sim, defender o lugar do passado sem retirar espaço do presente."

Isso posto, o que ver? Muito. Entre os diversos monumentos de Évora sobressai-se a Catedral Santa Maria, que começou a ser construída no século 12 e só foi concluída no século 14, passando pelos estilos românico e gótico (que foi tão utilizado no Alentejo a ponto de se falar em gótico alentejano). Entre as relíquias que lá vivem, está o mais antigo órgão de Portugal e um dos mais antigos do mundo, datando do século 16 - ainda hoje utilizado em concertos realizados na catedral.

Por toda a parte, há raridades como essa, não só em igrejas e palacetes, mas em casas particulares, que revelam, aqui e ali, criações de alto valor artístico e arquitetônico, incorporadas ao dia-a-dia dos alentejanos.

Há que se reconhecer, no entanto, que algumas obras são mais difíceis de encontrar a esmo, como a Capela de Ossos da Igreja de São Francisco. Foi feita entre os séculos 16 e 17, com cinco mil ossos, retirados das valas existentes na parte externa da Igreja, onde eram enterradas as pessoas que não pertenciam ao clero e à nobreza. Na porta de entrada, os frades franciscanos colocaram uma inscrição que fala por elas: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos". Dá arrepios.

A idéia era fazer um santuário para meditação sobre a transitoriedade da vida. Há mais três desse tipo em Portugal, sendo esta capela de Évora a maior do mundo no seu "gênero decorativo", como explica o guia. O resultado: é no mínimo estranho ver ossos de seres humanos como nós reduzidos a peças decorativas, que termina sendo o que acontece atualmente. Uma experiência que não se deve descartar, no entanto.

É passeando por monumentos como esses que conhece-se um pouco mais sobre a história de armaduras e espadas da região. A imponente Catedral da Sé é testemunho dos julgamentos e condenações comandadas pela Inquisição. Foi fundada em 1186 sobre uma mesquita árabe que até hoje a suporta. A fachada combina traços romanos e góticos, no sincretismo que bem caracteriza Évora e o Alentejo como um todo.

Vale ressaltar que os arabescos mouros podem ter ficado nas construções alentejanas (resultado dos 450 anos em que eles habitaram a cidade), mas os próprios foram banidos para sempre de Évora, em 1165, pelo cavaleiro salteador Giraldo, o Sem-Pavor, que virou nome de praça, a principal da cidade.

Outro personagem, mais ilustre, ganhou notoriedade não só em Portugal, como além-mar. Vasco da Gama morou uns tempos na cidade e sua casa é, hoje, habitada por jesuítas. Agradabilíssima, é uma daquelas que, por trás de discretas fachadas, guardam poéticos pátios internos e pinturas antigas (estas, do século 16).

Envolvido por esse clima passado/presente, o visitante tem a opção de hospedar-se em antigos castelos, mosteiros e conventos reformados e transformados em tradicionais pousadas, distribuídas por todo Portugal. No Alentejo encontram-se várias e Évora não foge à regra.


     

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