- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 30 de julho de 1998

ALENTEJO II
Cidades guardam poéticos cenários e curiosos costumes

Tão típicos quanto belas varandas onde "um ferreiro fez renda", como diz Miguel Torga, são os varais que as vestem. Não tem aldeia, vila ou cidade alentejana (aliás, portuguesa em geral, a exemplo da própria Lisboa) em que não dancem pendurados de uma sacada a outra, e encarreguem-se de contar, eles também, um pouco da história dessa região.

Já fazem parte da singular paisagem daquelas cidadezinhas, entremeadas de curvilíneas ruas de paralelepípedos, com o branco das casas quebrado pelo azul ou amarelo das molduras das portas e janelas, e pelo multicolorido dos vasos de flores que moram nos parapeitos.

Aqui e ali, um aqueduto romano, uma das antigas portas que davam acesso às cidades fortificadas ou um castelo ainda inteiro. Não falta, é claro, a praça central, e, em torno, as igrejas e casas seculares, onde estilos e histórias se fundem.

O cenário não é uma particularidade de Évora (descrita na matéria ao lado). As cidadezinhas alentejanas têm uma certa uniformidade e são bem parecidas a um primeiro olhar. Não se deve achar, no entanto, que quem viu uma viu todas. Cada vila guarda peculiaridades que os que tiverem tempo terão prazer em descobrir. Além de Évora, há vários pontos interessantes para se visitar, incluindo não só as cidades do interior, mas também do litoral. O ideal é ter uma noção do que é a região e, a partir daí, montar um roteiro consistente com a ajuda de um bom guia.

Um aspecto a se considerar são as curiosidades relacionadas a cada lugar. Em Beja, por exemplo, as passagens históricas desenroladas naquele território ficam em segundo plano quando entra em cena a trajetória de Soror Mariana Alcoforado, que viveu na cidade entre 1640 e 1723. A religiosa morava no Convento da Conceição, onde foi escrivã e vigária, e, dizem, apaixonou-se por um cavaleiro, chamado Chamilly.

Publicadas em Paris, em 1669, as chamadas Lettres Portugaises foram divulgadas como sendo cartas escritas por Mariana, em francês, para o seu amado. Fizeram sucesso e tiveram várias traduções para o português. Alguns historiadores duvidam da sua autoria, mas a história atravessou os mares e todos querem conhecer o convento onde ela morava.

As histórias que desenrolam-se dentro da História também são atração em Portalegre, cidade desde 1550, com belas casas dos séculos 17 e 18 e algumas construções ainda mais antigas (dos séculos 13 e 14). São prédios que deixam ver a passagem dos árabes pela região, mas não de forma tão curiosa como nas conversas sobre os hábitos e costumes locais, em que se percebe o perfil machista da sociedade alentejana, segundo nosso guia, uma herança árabe. Até bem pouco, para se ter uma idéia, não se via mulheres nas típicas tabernas da região.

Em Castelo de Vide, por sua vez, há uma sinagoga onde os árabes judeus dividiam os fiéis em duas salas, uma para homens, outra para mulheres, separadas por uma cortina. Elas podiam ouvir, mas não assistir às orações feitas por eles.

Aliás, conhecer o Alentejo significa percorrer as judiarias (áreas onde moravam os judeus) existentes em várias cidades. A sinagoga de Castelo de Vide é a mais antiga de Portugal, mas hoje não há mais uma comunidade judaica na cidade. A partir de meados do século 16, os judeus tiveram de deixar o local ou se converter em cristãos novos, por conta da Inquisição. Ainda vêem-se, no entanto, as casas onde moraram, da segunda metade do século 14 à primeira do século 16, com suas portas em ogiva e recortes na pedra onde guardavam seus escritos sagrados (as muzujas).

Em Marvão, a presença moura também é fortemente sentida, só que em pé de igualdade com a dos romanos, que deixaram, naquele território, uma de suas cidades, cujas ruínas foram desenterradas recentemente por arqueólogos - veja matéria na página 3. As ruínas podem ser vistas do alto de Marvão, uma das mais poéticas cidadezinhas da região, encravada numa colina de onde "vê-se quase a terra toda", como diz Saramago. Uma coisa é certa, a vista alcança, pelo menos, até a Espanha (fronteira a uns 90 quilômetros).

Toda cercada por muralhas, Marvão traduz bem aquela imagem das sacadas trabalhadas em ferro iluminadas por vasinhos de flores e varais. Há apenas 200 habitantes e as poucas casas (a maioria do século 16) são disputadas por quem pretende passar temporadas na região e descobrir, a partir dali, o Alentejo, para onde o poeta português Miguel Torga, se pudesse, obrigaria todos os habitantes do seu país a fazer quarentena, apaixonando-se pela região que "documenta inteiramente a gênese do que somos, o que temos de lusitanos, de latinos, de árabes e de cristãos".


     

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