ALENTEJO II
Cidades
guardam poéticos cenários e
curiosos costumesTão típicos quanto
belas varandas onde "um
ferreiro fez renda", como
diz Miguel Torga, são os varais
que as vestem. Não tem aldeia,
vila ou cidade alentejana
(aliás, portuguesa em geral, a
exemplo da própria Lisboa) em
que não dancem pendurados de uma
sacada a outra, e encarreguem-se
de contar, eles também, um pouco
da história dessa região.
Já fazem parte
da singular paisagem daquelas
cidadezinhas, entremeadas de
curvilíneas ruas de
paralelepípedos, com o branco
das casas quebrado pelo azul ou
amarelo das molduras das portas e
janelas, e pelo multicolorido dos
vasos de flores que moram nos
parapeitos.
Aqui e ali, um
aqueduto romano, uma das antigas
portas que davam acesso às
cidades fortificadas ou um
castelo ainda inteiro. Não
falta, é claro, a praça
central, e, em torno, as igrejas
e casas seculares, onde estilos e
histórias se fundem.
O cenário não
é uma particularidade de Évora
(descrita na matéria ao lado).
As cidadezinhas alentejanas têm
uma certa uniformidade e são bem
parecidas a um primeiro olhar.
Não se deve achar, no entanto,
que quem viu uma viu todas. Cada
vila guarda peculiaridades que os
que tiverem tempo terão prazer
em descobrir. Além de Évora,
há vários pontos interessantes
para se visitar, incluindo não
só as cidades do interior, mas
também do litoral. O ideal é
ter uma noção do que é a
região e, a partir daí, montar
um roteiro consistente com a
ajuda de um bom guia.
Um aspecto a se
considerar são as curiosidades
relacionadas a cada lugar. Em
Beja, por exemplo, as passagens
históricas desenroladas naquele
território ficam em segundo
plano quando entra em cena a
trajetória de Soror Mariana
Alcoforado, que viveu na cidade
entre 1640 e 1723. A religiosa
morava no Convento da
Conceição, onde foi escrivã e
vigária, e, dizem, apaixonou-se
por um cavaleiro, chamado
Chamilly.
Publicadas em
Paris, em 1669, as chamadas
Lettres Portugaises foram
divulgadas como sendo cartas
escritas por Mariana, em
francês, para o seu amado.
Fizeram sucesso e tiveram várias
traduções para o português.
Alguns historiadores duvidam da
sua autoria, mas a história
atravessou os mares e todos
querem conhecer o convento onde
ela morava.
As histórias
que desenrolam-se dentro da
História também são atração
em Portalegre, cidade desde 1550,
com belas casas dos séculos 17 e
18 e algumas construções ainda
mais antigas (dos séculos 13 e
14). São prédios que deixam ver
a passagem dos árabes pela
região, mas não de forma tão
curiosa como nas conversas sobre
os hábitos e costumes locais, em
que se percebe o perfil machista
da sociedade alentejana, segundo
nosso guia, uma herança árabe.
Até bem pouco, para se ter uma
idéia, não se via mulheres nas
típicas tabernas da região.
Em Castelo de
Vide, por sua vez, há uma
sinagoga onde os árabes judeus
dividiam os fiéis em duas salas,
uma para homens, outra para
mulheres, separadas por uma
cortina. Elas podiam ouvir, mas
não assistir às orações
feitas por eles.
Aliás,
conhecer o Alentejo significa
percorrer as judiarias (áreas
onde moravam os judeus)
existentes em várias cidades. A
sinagoga de Castelo de Vide é a
mais antiga de Portugal, mas hoje
não há mais uma comunidade
judaica na cidade. A partir de
meados do século 16, os judeus
tiveram de deixar o local ou se
converter em cristãos novos, por
conta da Inquisição. Ainda
vêem-se, no entanto, as casas
onde moraram, da segunda metade
do século 14 à primeira do
século 16, com suas portas em
ogiva e recortes na pedra onde
guardavam seus escritos sagrados
(as muzujas).
Em Marvão, a
presença moura também é
fortemente sentida, só que em
pé de igualdade com a dos
romanos, que deixaram, naquele
território, uma de suas cidades,
cujas ruínas foram desenterradas
recentemente por arqueólogos -
veja matéria na página 3. As
ruínas podem ser vistas do alto
de Marvão, uma das mais
poéticas cidadezinhas da
região, encravada numa colina de
onde "vê-se quase a terra
toda", como diz Saramago.
Uma coisa é certa, a vista
alcança, pelo menos, até a
Espanha (fronteira a uns 90
quilômetros).
Toda cercada
por muralhas, Marvão traduz bem
aquela imagem das sacadas
trabalhadas em ferro iluminadas
por vasinhos de flores e varais.
Há apenas 200 habitantes e as
poucas casas (a maioria do
século 16) são disputadas por
quem pretende passar temporadas
na região e descobrir, a partir
dali, o Alentejo, para onde o
poeta português Miguel Torga, se
pudesse, obrigaria todos os
habitantes do seu país a fazer
quarentena, apaixonando-se pela
região que "documenta
inteiramente a gênese do que
somos, o que temos de lusitanos,
de latinos, de árabes e de
cristãos".