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ARTIGO
Um nome
por FÁTIMA
QUINTAS*
Nasceu no dia
de Natal e por isso se chamou
Jesuína. Não gostava do nome,
mas tinha que se conformar. A
homenagem era justa e a família,
muito religiosa, depositou
inúmeras esperanças na menina
que vinha ao mundo numa época
tão bonita. O pai ainda reagiu,
procurando explicações
racionais para uma escolha por
ele vista com uma certa
precipitação; a mãe não
aceitou qualquer dos argumentos e
selou com honras de profeta o seu
destino. Assim, a história
começou: pelo nome.
Os primeiros
aniversários foram comemorados
com o rigor das festas infantis.
Bolas coloridas, doces com
merengues, velinhas a apagar... O
insistente ritual de enfeitar
paralelamente o oratório com
frescas flores, água benta,
presépios artesanais, velas
acesas, remetia ao sacrossanto
tempo natalino e não lhe
agradava. Até aos três anos,
Jesuína entendia pouco o
mimetismo litúrgico que
perpassava a data do seu
nascimento. Depois, as
correlações começaram a
incomodar. Perguntou-se muitas
vezes: A quem se homenageava?
Jesuína era
uma garota igual às outras,
animava-se em discotecas,
estudava o suficiente para ser
aprovada, não tinha ambições
profissionais, optara ainda
menina por ser odontologista. A
irmã, Célia, estava na
Faculdade cursando
Administração: o irmão,
Arlindo, fazia o segundo grau e
alimentava a idéia de ser
médico. É bem verdade que a
mãe lhe incutia a vocação,
Arlindo não se mostrava
entusiasmado com os estudos, o
que lhe apetecia era tocar
guitarra num conjunto de jovens
que se reunia à noite para
ensaiar.
Caçula, embora
sem regalias de filha mimada,
Jesuína carregava o desconforto
do nome. Tentara insistentemente
adaptar-se ao epíteto traçado,
mas as reações surgiam sem que
ela as controlasse. As razões se
avolumavam num inconsciente
desprevenido. A mãe cobrava-lhe
um comportamento rígido,
diferente do de Célia, e o
mínimo pormenor a constrangia à
guisa de analogias que lhe
traziam sofrimento. Distante de
qualquer raciocínio lógico,
repudiava as condutas seráficas,
e as falsas perfeições a
incomodavam numa demonstração
claríssima de rejeição aos
virtuosismos da pobre, ingênua e
imaculada manjedoura. Já não
sabia mais o que fizesse. Sua
atitude referendava um
descompasso emocional. Ela o
sabia. Como proceder? Foi quando
tentou se auto-apelidar: Zuzu.
Soava melodioso. Enganar-se,
todavia, simbolizava o pior dos
caminhos. Não daria certo. Ao
final de tantas filigranas, os
outros acabavam por indagar com
pinceladas maliciosas, pensava, o
seu verdadeiro nome. E o disfarce
logo era apanhado. Não lhe saía
do juízo a escolha infeliz -
Jesuína.
No colégio,
todos a conheciam por Zuzu e a
sonoridade dos fonemas a
consolava. A hora da chamada em
classe lhe trazia arrepios; não
podia evitar a fatalidade.
Recolhia-se envergonhada, baixava
a cabeça e acreditava ser a mais
estigmatizada das criaturas. Um
dia, o professor de português
adoeceu, faltou algumas semanas,
acabou pedindo substituição. O
novo titular, um homem bonito de
seus 27 anos, empolgou a turma.
Alto, risonho, têmperas
precocemente encanecidas, corpo
atlético, fazia suspirar a ala
feminina. Encantadas com o visual
de um Apolo, as garotas
começaram a se produzir, a
arrumar os cabelos com esmeros
especiais, a pintar os lábios de
batom vermelho-escarlate, a
realçar a pele com blush
rosado... O exercício da
sedução se instalava
sofregamente.
A aula
começava às nove e dez. A
classe esperava o novato
professor com ansiedade. O
respeito se traduzia na atenção
que povoava os olhos de cada uma.
Após a saudação formal e um
tanto nervoso, João Carlos
iniciou a clássica chamada,
procurando descontrair-se ao
tempo em que tentava identificar
as alunas. De repente, parou e
disse emocionado:
"Jesuína
era o nome da minha avó. É um
belo nome e me traz maravilhosas
recordações. Hoje, não
esperava reavivar o passado. Que
bom que você se chama Jesuína.
Prazer em conhecê-la".
* Fátima
Quintas é antropóloga
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