-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de abril de 1998


ARTIGO

Um nome

por FÁTIMA QUINTAS*

Nasceu no dia de Natal e por isso se chamou Jesuína. Não gostava do nome, mas tinha que se conformar. A homenagem era justa e a família, muito religiosa, depositou inúmeras esperanças na menina que vinha ao mundo numa época tão bonita. O pai ainda reagiu, procurando explicações racionais para uma escolha por ele vista com uma certa precipitação; a mãe não aceitou qualquer dos argumentos e selou com honras de profeta o seu destino. Assim, a história começou: pelo nome.

Os primeiros aniversários foram comemorados com o rigor das festas infantis. Bolas coloridas, doces com merengues, velinhas a apagar... O insistente ritual de enfeitar paralelamente o oratório com frescas flores, água benta, presépios artesanais, velas acesas, remetia ao sacrossanto tempo natalino e não lhe agradava. Até aos três anos, Jesuína entendia pouco o mimetismo litúrgico que perpassava a data do seu nascimento. Depois, as correlações começaram a incomodar. Perguntou-se muitas vezes: A quem se homenageava?

Jesuína era uma garota igual às outras, animava-se em discotecas, estudava o suficiente para ser aprovada, não tinha ambições profissionais, optara ainda menina por ser odontologista. A irmã, Célia, estava na Faculdade cursando Administração: o irmão, Arlindo, fazia o segundo grau e alimentava a idéia de ser médico. É bem verdade que a mãe lhe incutia a vocação, Arlindo não se mostrava entusiasmado com os estudos, o que lhe apetecia era tocar guitarra num conjunto de jovens que se reunia à noite para ensaiar.

Caçula, embora sem regalias de filha mimada, Jesuína carregava o desconforto do nome. Tentara insistentemente adaptar-se ao epíteto traçado, mas as reações surgiam sem que ela as controlasse. As razões se avolumavam num inconsciente desprevenido. A mãe cobrava-lhe um comportamento rígido, diferente do de Célia, e o mínimo pormenor a constrangia à guisa de analogias que lhe traziam sofrimento. Distante de qualquer raciocínio lógico, repudiava as condutas seráficas, e as falsas perfeições a incomodavam numa demonstração claríssima de rejeição aos virtuosismos da pobre, ingênua e imaculada manjedoura. Já não sabia mais o que fizesse. Sua atitude referendava um descompasso emocional. Ela o sabia. Como proceder? Foi quando tentou se auto-apelidar: Zuzu. Soava melodioso. Enganar-se, todavia, simbolizava o pior dos caminhos. Não daria certo. Ao final de tantas filigranas, os outros acabavam por indagar com pinceladas maliciosas, pensava, o seu verdadeiro nome. E o disfarce logo era apanhado. Não lhe saía do juízo a escolha infeliz - Jesuína.

No colégio, todos a conheciam por Zuzu e a sonoridade dos fonemas a consolava. A hora da chamada em classe lhe trazia arrepios; não podia evitar a fatalidade. Recolhia-se envergonhada, baixava a cabeça e acreditava ser a mais estigmatizada das criaturas. Um dia, o professor de português adoeceu, faltou algumas semanas, acabou pedindo substituição. O novo titular, um homem bonito de seus 27 anos, empolgou a turma. Alto, risonho, têmperas precocemente encanecidas, corpo atlético, fazia suspirar a ala feminina. Encantadas com o visual de um Apolo, as garotas começaram a se produzir, a arrumar os cabelos com esmeros especiais, a pintar os lábios de batom vermelho-escarlate, a realçar a pele com blush rosado... O exercício da sedução se instalava sofregamente.

A aula começava às nove e dez. A classe esperava o novato professor com ansiedade. O respeito se traduzia na atenção que povoava os olhos de cada uma. Após a saudação formal e um tanto nervoso, João Carlos iniciou a clássica chamada, procurando descontrair-se ao tempo em que tentava identificar as alunas. De repente, parou e disse emocionado:

"Jesuína era o nome da minha avó. É um belo nome e me traz maravilhosas recordações. Hoje, não esperava reavivar o passado. Que bom que você se chama Jesuína. Prazer em conhecê-la".

* Fátima Quintas é antropóloga

 
 

 

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