- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de abril de 1998

ABRIL PRO ROCK

Devotos do Ódio faz honras da casa

por MARCELO PEREIRA

Um exército de roqueiros da pesada invadiu a segunda noite na sexta edição do Abril Pro Rock para uma celebração à sua maneira - com rodas de pogo, chutes e cotovelada. A pauleira comeu solta, mas na maior paz, sem brigas ou incidentes. Vestindo T-shirts com o nome da banda estampado, os fãs da norte-americana Suicidal Tendencies tiveram que se conformar, depois do cancelamento de última hora da vinda da banda ao Brasil, com os shows heróicos da Devotos do Ódio e da Ratos de Porão. O guitarrista Mike Muir mandou um fax alegando problema no vôo da Vasp e o agravamento do estado de saúde da mãe de um dos integrantes. O público ficou decepcionado, mas não chiou e aguentou firme as quase nove horas de batalha.

Coube à Devotos do Ódio a responsabilidade de fechar a noite que seria da Suicidal Tendencies. E Canibal, Neilton e Cello Brown souberam literalmente levantar a bandeira de Pernambuco, sacudindo a platéia espalhada nos amplos pavilhões do Centro de Convenções, como se fossem soldados vindos da Guerra da Bósnia. Com a pegada forte de sempre e Neilton se superando a cada show, a banda atacou com seus sucessos - Dia Morto, Tenho Pressa, Futuro Inseguro, etc. - repetindo a performance do Mangue em Movimento em São Paulo, incluindo a participação de Clemente, do Inocentes, em El Salvador. Em clima apoteótico, encerrou a noite com Punk Rock Hard Core.

A barulheira começou cedo no Centro de Convenções. Não foi logo com a Lacertae (SE), que abriu o programa de sábado com uma proposta maluca: um duo de guitarra e bateria. Agradou a alguns. Foi com Baba Cósmica que a zoeira começou. Os meninos cresceram, agoram tocam hardcore e até direitinho. Ninguém sabe o que serão quando ficarem adultos. Depois veio Acabou La Tequila, para mostrar que o ska é só um pretexto e uma moda passageira. Aproveitou e pegou carona em Querosene Jacaré, com uma cover de Tô Doidão. O primeiro bom show foi o do Squaws, um rap-funk vigoroso e usa climas psicodélicos (Não Sou Eu) e bases meio Prodigy (nas instrumentais Caboman, Heave). Suas letras são ataques virulentos contra - advinhem... - a Polícia (Tiroteio e Vacilão Fica fora).

Funk Fuckers foram ao Abril Pro Rock para fazer mídia e média. Fora do palco, distribuíram camisinha. Em cena, a banda solta o verbo para falar de sexo, sexo e sexo e faz uma zoada chata, ininteligível. Mal comparando, um Planet Hemp piorado. Polux não é tão barulhenta, mas também não acrescenta nada a ninguém. É hora de ir passear no Mercado Pop e esperar a podreira de João Gordo. O pesado vocalista transferiu a energia dos 23 Kg perdidos num spa para o palco e para a platéia na sua despedida do Brasil (vai fazer uma turnê na Europa).

Para ser franco, um dos melhores shows foi justamente o menos barulhento de todos - o do gaúcho Wander Wildner, que faz um brega-rock clássico, bossal, de melodias tiradas dos anos 70, em Amado Batista, Odair José e outros tais. Com uma banda competente e contando com a participação de amigos, entre eles do nerd Júpiter Maçã, Wander fez o que quis e terminou seduzindo o público, a princípio desconfiado, com suas baladas sangrentas - A Empregada, A Freira Desalmada, Maverikão. Na platéia, André Balaio e Humberto Francis estavam em êxtase e foram presenteados com um cover de Eu Queria Morar em Beverly Hills.

Dia com menor participação pernambucana no Abril Pro Rock, as bandas da manguetown não fizeram feio. Se Devotos do Ódio substituiu com dignidade Suicidal Tendencies, DMP e Os Fulanos e a novata Sheik Tosado deram conta do recado, com shows corretos.


     

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