ABRIL PRO ROCK
Devotos
do Ódio faz honras da casapor MARCELO PEREIRA
Um exército de
roqueiros da pesada invadiu a
segunda noite na sexta edição
do Abril Pro Rock para uma
celebração à sua maneira - com
rodas de pogo, chutes e
cotovelada. A pauleira comeu
solta, mas na maior paz, sem
brigas ou incidentes. Vestindo
T-shirts com o nome da banda
estampado, os fãs da
norte-americana Suicidal
Tendencies tiveram que se
conformar, depois do cancelamento
de última hora da vinda da banda
ao Brasil, com os shows heróicos
da Devotos do Ódio e da Ratos de
Porão. O guitarrista Mike Muir
mandou um fax alegando problema
no vôo da Vasp e o agravamento
do estado de saúde da mãe de um
dos integrantes. O público ficou
decepcionado, mas não chiou e
aguentou firme as quase nove
horas de batalha.
Coube à
Devotos do Ódio a
responsabilidade de fechar a
noite que seria da Suicidal
Tendencies. E Canibal, Neilton e
Cello Brown souberam literalmente
levantar a bandeira de
Pernambuco, sacudindo a platéia
espalhada nos amplos pavilhões
do Centro de Convenções, como
se fossem soldados vindos da
Guerra da Bósnia. Com a pegada
forte de sempre e Neilton se
superando a cada show, a banda
atacou com seus sucessos - Dia
Morto, Tenho Pressa, Futuro
Inseguro, etc. - repetindo a
performance do Mangue em
Movimento em São Paulo,
incluindo a participação de
Clemente, do Inocentes, em El
Salvador. Em clima apoteótico,
encerrou a noite com Punk Rock
Hard Core.
A barulheira
começou cedo no Centro de
Convenções. Não foi logo com a
Lacertae (SE), que abriu o
programa de sábado com uma
proposta maluca: um duo de
guitarra e bateria. Agradou a
alguns. Foi com Baba Cósmica que
a zoeira começou. Os meninos
cresceram, agoram tocam hardcore
e até direitinho. Ninguém sabe
o que serão quando ficarem
adultos. Depois veio Acabou La
Tequila, para mostrar que o ska
é só um pretexto e uma moda
passageira. Aproveitou e pegou
carona em Querosene Jacaré, com
uma cover de Tô Doidão. O
primeiro bom show foi o do
Squaws, um rap-funk vigoroso e
usa climas psicodélicos (Não
Sou Eu) e bases meio Prodigy (nas
instrumentais Caboman, Heave).
Suas letras são ataques
virulentos contra - advinhem... -
a Polícia (Tiroteio e Vacilão
Fica fora).
Funk Fuckers
foram ao Abril Pro Rock para
fazer mídia e média. Fora do
palco, distribuíram camisinha.
Em cena, a banda solta o verbo
para falar de sexo, sexo e sexo e
faz uma zoada chata,
ininteligível. Mal comparando,
um Planet Hemp piorado. Polux
não é tão barulhenta, mas
também não acrescenta nada a
ninguém. É hora de ir passear
no Mercado Pop e esperar a
podreira de João Gordo. O pesado
vocalista transferiu a energia
dos 23 Kg perdidos num spa para o
palco e para a platéia na sua
despedida do Brasil (vai fazer
uma turnê na Europa).
Para ser
franco, um dos melhores shows foi
justamente o menos barulhento de
todos - o do gaúcho Wander
Wildner, que faz um brega-rock
clássico, bossal, de melodias
tiradas dos anos 70, em Amado
Batista, Odair José e outros
tais. Com uma banda competente e
contando com a participação de
amigos, entre eles do nerd
Júpiter Maçã, Wander fez o que
quis e terminou seduzindo o
público, a princípio
desconfiado, com suas baladas
sangrentas - A Empregada, A
Freira Desalmada, Maverikão. Na
platéia, André Balaio e
Humberto Francis estavam em
êxtase e foram presenteados com
um cover de Eu Queria Morar em
Beverly Hills.
Dia com menor
participação pernambucana no
Abril Pro Rock, as bandas da
manguetown não fizeram feio. Se
Devotos do Ódio substituiu com
dignidade Suicidal Tendencies,
DMP e Os Fulanos e a novata Sheik
Tosado deram conta do recado, com
shows corretos.