ABRIL PRO ROCK II
Querosene
Jacaré esquenta primeira noitepor ANA BRAGA
Seis bandas em
cena, um DJ e muito som madrugada
a dentro. A animação tomou
conta do primeiro dia do Abril
Pro Rock, certo? Não. O que
muita gente apostou ser o
"aperitivo" do
festival, terminou sendo um
banquete de pratos mornos e pouco
temperados.
Antes mesmo do
APR 98 começar, o ex-líder
estudantil da UNE Gildo Neves
simulou um protesto a favor da
meia entrada para o festival e se
deu mal. O rapaz foi rapidinho
engolido pela Polícia, que levou
o agitador para longe dali.
Enquanto isso os cambistas se
digladiavam, tentando vender os
ingressos que boiaram - o
público não chegou a lotar meio
pavilhão - apesar do preço mais
acessível (R$ 10,00).
Coube a
Edmilson do Pífano e sua banda
faziam um convite aos
recém-chegados, para levantar a
poeira, no autêntico forró
pé-de-serra. Daí poucos casais
se formaram, fazendo uma prévia
do que pode acontecer neste São
João. Nesse pique, também vem
Cascabulho, que contou com uma
canja do guitarrista Paulo
Rafael. A banda usou e abusou do
pandeiro, da alfaia e do
cavaquinho, fazendo o povo
arriscar alguns passos no
forrozão de Jackson do Pandeiro,
no coco sincopado do caruaruense
Jacinto Silva e em composições
próprias. Nessa embolada, o
samba também teve vez com a
música O Vendedor de Amendoim e
a participação especial da
Galeria do Ritmo, campeã do
Carnaval 98, que desceu do palco
e foi para o meio do pessoal, com
porta-bandeira e tudo mais.
As meninas do
Comadre Fulorzinha nunca foram
tão maduras no palco quanto na
sexta-feira. Ignorando, com boa
vontade, o reincidente problema
de microfonia, que aconteceu em
pelos menos três shows, o grupo
mostrou um quê de frescor, de
promessa, comprovado pela
participação do público, que,
àquela hora (quase 23h),
começava a tomar corpo. Logo na
primeira música, Anjicos,
composta por Chico Science e
Lúcio Maia para a trilha de O
Baile Perfumado, as comadres
mostraram que afinação é a
delas. Sem erro, foi assim até o
final da apresentação, quando
rolou um tema instrumental do
espetáculo Parabelum, de José
Miguel Wisnik e Tom Zé, para o
Grupo Corpo.
MAIS
GÁS - O melhor momento
da noite estava por vir.
Querosene Jacaré entrou no palco
para incendiar a galera, passando
a limpo as músicas de Você Não
Sabe da Missa Um Terço, o CD de
estréia que chega esta semana
às lojas, pela Paradoxx. Logo
nos primeiros acordes da banda se
formou uma roda de pogo,
incentivada pelo vocalista
Ortinho, que vestia um modelito
mulambo-fashion. O público teve
que agüentar a microfonia do
som, que por pouco não prejudica
QJ. Entre os melhores momentos do
show foi a cover de Tô Doidão,
de Reginaldo Rossi e a
instrumental O Coice da Jumenta.
Do
mulambo-fashion de Ortinho para
uma meia-calça arrastão preta.
No palco dois, a louríssima
Luciano Pestano começou a sua
apresentação com problemas
técnicos, entradas equivocadas
mas com uma boa presença.
Aliás, que presença! Os homens
não tiraram os olhos da cantora
de voz áspera, que chegou como
um peixe fora d'água no
festival, com suas composições
mais para blues, country, folk e
MPB, num show que não foi lá
essa Brastemp, mas interessante
por ser um trabalho diferente.
No intervalo,
os produtores do Abril Pro Rock
anunciaram oficialmente o
cancelamento do show do Suicidal
Tendencies (a banda alegou
problemas pessoais) e da
apresentação do DJ TC Islam.
Em número,
quem conseguiu melhor público
foi o mesmo o Skank. Era uma hora
da manhã quando Samuel Rosa -
uma de suas
"indefectíveis"
camisas de time de futebol - e
banda começaram a tocar.
Flashback da carreira não
faltou. Era como se o grupo
estivesse parado no tempo,
sobrevivendo só com hits como
Garota Nacional, Poconé e Tão
Seu. Ah, para não dizer que não
houve surpresas, uma lâmpada
caiu de um refletor do pavilhão
e atingiu um estudante, que
recebeu os primeiros socorros na
ambulância do Corpo de
Bombeiros.
Do ska para os
passa-discos de Soul Slinger. Uma
passagem difícil, que espantou
muita gente. Mas quantidade nem
sempre é qualidade. O DJ soube
levar, por pelo menos uma hora,
os poucos que resistiram à
maratona, com muito tecno,
jungle, drum'n'bass e scratchs
com Oasis, Selma do Coco e Chico
Science, em altíssimo som. A
idéia da rave foi legal, mas
deve ser revista, para um
público que não tem o costume
para tal.