ENTREVISTA/Roque de Brito Alves
"Violência
no Brasil é de final de
semana"Quando o advogado
Roque de Brito Alves se formou em
direito, em 1955, a violência
não era tema tão presente no
dia-a-dia da sociedade. Os crimes
mais comuns eram pequenos furtos
e a notícia de um homicídio era
assunto para vários dias de
conversa. Com a bagagem de 43
anos de advocacia, o professor de
Direito Penal viaja, domingo,
para o Instituto Max Plank, na
Alemanha, para proferir uma
conferência sobre criminalidade
no Brasil. Ele vai mostrar que a
violência é um fenômeno global
e provar que o Brasil é um país
onde a maioria dos crimes é
praticada nos finais de semana,
por pessoas sem ficha policial.
Jornal
do Commercio - Quais são os
principais pontos da
criminalidade contemporânea
brasileira abordados em sua
palestra?
Roque
de Brito - A violência
no Brasil é praticada com mais
intensidade nos finais de semana.
Os crimes são motivados, na
maioria das vezes, por drogas,
festividades e, até mesmo, o
calor, que tira as pessoas de
casa e deixa todos mais
impacientes. Além disso, posso
destacar o aumento da violência
partindo do cidadão comum, sem
antecedentes criminais que mata
ou agride por motivos banais.
JC - O
que está causando a entrada do
cidadão comum na criminalidade?
RB -
O desemprego, a desestruturação
da educação, da saúde, a
degradação dos valores morais.
São as chamadas causas sociais.
Elas são a verdadeira raiz da
violência e deviam ser
combatidas em sua origem.
JC -
Então não adianta aparelhar a
polícia para frear a violência?
RB -
Dar condições à polícia é
melhorar o aparelho repressor,
mas isso não vai acabar com a
criminalidade, precisamos atacar
as origens sociais do problema. A
polícia como instituição deve
existir e ter as melhores
condições possíveis para atuar
nos casos em que não adianta
prevenir.
JC -
Como o sr. explica casos extremos
de violência em sociedades onde
educação e desemprego não são
problema, como nos Estados Unidos
e Inglaterra?
RB -
A sociedade é criminógena por
natureza. A criminalidade nestes
países são fruto da sociedade
capitalista de consumo, onde o
próximo é visto como
competidor, ou inimigo em
potencial.
JC -
Existe algum país que tenha uma
organização social que não
permita a entrada da violência?
RB -
Nações como a Suíça,
Escandinávia, Holanda são
marcadas por índices de
homicídios próximos do zero.
Nestes locais, registram-se muito
mais casos de crimes contra a
própria vida. Os indivíduos já
possuem tudo o que precisam
(moradia, emprego, saúde) e, sem
horizontes para almejar, decidem
abdicar da vida.
JC -
Qual o fator global que mais
influencia a criminalidade?
RB -
As drogas. Segundo a ONU, a
indústria do tráfico lucrou no
ano passado, 500 bilhões de
dólares e com tanto poder
corrompe pessoas em todo mundo.
No nosso estado não é
diferente. Fica difícil resgatar
um jovem do mundo das drogas,
onde o dinheiro é fácil, e
torná-lo um cidadão que vai ter
que sobreviver com R$ 120,00 por
mês.
JC - O
que se pode fazer a respeito aqui
no Brasil?
RB -
Conscientizar. Abrir novos
caminhos para a juventude
aprender a trilhar seu caminho se
preocupando com os valores
éticos, ao invés de se importar
apenas com sexo, poder e
dinheiro.
JC -
Quais são as falhas do Código
Penal Brasileiro?
RB -
Nossa legislação é boa. O que
falta no Brasil é estrutura para
o sistema. Com o aparelho
carcerário falido e superlotado
não se pode esperar muito em
termos de recuperação.
JC - A
instituição da pena de morte
poderia ser uma saída para
reprimir a violência?
RB -
Os estados dos EUA onde existe a
pena de morte são os que
registram os crimes mais
escabrosos. Aqui no Brasil só
seriam condenados a morte os
três P's (pretos, pobres e
prostitutas).
Jornal
do Commercio - É a primeira vez
que o sr. profere uma
conferência fora do país?
Roque
de Brito - Não. Será a
oitava vez que vou à Europa
falar sobre temas ligadas à
criminalidade e ao Direito Penal.
Minha conferência será
realizada no Instituto Max
Planck, de Freiburg, na Alemanha,
um dos mais importantes do mundo.