MAMÍFERO
MARINHO
Casal
de peixes-bois ganha companheiroMARIANA LACERDA
Enviada Especial
MAMANGUAPE, PB -
Um peixe-boi que vivia livre no
mar entrou no cativeiro natural
do casal de mamíferos Folia e
Xuxu, no braço de maré do Rio
Mamanguape, 80 quilômetros ao
norte de João Pessoa.
Pesquisadores do Centro
Peixe-Boi\Ibama foram
surpreendidos com o visitante na
manhã de segunda-feira (30),
quando deram conta de que Folia e
Xuxu estavam em companhia de um
outro peixe-boi. A captura
espontânea de um exemplar da
natureza da espécie Trichechus
manatus, ameaçada de extinção,
representa a oportunidade de
pesquisadores do projeto
observarem de perto seu
comportamento, monitorarem o seu
deslocamento após de solto,
além de realizarem exames que
possam indicar o manejo correto
dos animais que estão em Barra
de Mamanguape ou mesmo nos
oceanários do centro em
Itamaracá.
A primeira
hipótese dos técnicos do
projeto para que um peixe-boi
nativo tenha procurado a
companhia de Folia e Xuxu - em
cativeiro natural desde dezembro
de 96 - foi a de que Folia
estivesse em seu período de cio,
atraindo assim o sirênio. O
inesperado aconteceu quando
Aparecido, nome dado ao
visitante, passou a ser chamado
de Aparecida (ou, simplesmente,
Cida), assim que foi constatado o
sexo do animal.
A coordenadora
da Base de Proteção e Pesquisa
do Peixe-Boi de Barra de
Mamanguape, a oceanógrafa
Danielle Paludo, acredita que
Cida podia estar se sentindo
solitária, sendo atraída pela
vocalização do casal preso no
viveiro. Ela deve permanecer por
mais duas semanas na companhia de
Folia e Xuxu, tempo necessário
para que seja providenciado o
rádio transmissor que será
amarrado ao seu corpo,
possibilitando o seu
monitoramento do animal.
A visita
inesperada de Cida obrigou os
funcionários do centro a
realizarem uma revisão imediata
na cerca do viveiro. O peixe-boi
entrou no local durante a maré
mais alta do ano, na madrugada de
segunda-feira, que atingiu 2,7
metros. Cida pode ter passado por
uma falha na segunda rede de
proteção do cercado, ou mesmo
por entre as raízes do mangue.
Ela apresenta alguns ferimentos
no rosto, que já estão
cicatrizando.
Cida está
interagindo com Folia e Xuxu e
não sinaliza vontade de deixar o
cercado, com 1.650 metros
quadrados. Uma das primeiras
observações quanto ao
comportamento do peixe-boi de
vida livre foi a diferença entre
sua vocalização e aquela dos
animais mantidos em cativeiro.
Através de um hidrofone,
Danielle Paludo pôde constatar
que Cida, Folia e Xuxu estão se
comunicando. "Mesmo com a
diferença na linguagem, notamos
que existem perguntas e
respostas", diz.
Aparecida pesa
287 quilos e tem o comprimento
total de 2,64 metros. Xuxu e
Folia, com nove e seis anos,
estão medindo 2,65 e 2,77 metros
e pesando 331 e 359 quilos,
respectivamente. Os três animais
foram capturados na manhã de
terça-feira (31), para que as
medidas de comprimento e peso
pudessem ser feitas. Comparando,
ainda, o tamanho da vulva de
Aparecida com a de Marbela,
mamífero marinho de quatro anos
que vive no oceanário de
Itamaracá, pesquisadores puderam
estimar que Aparecida tem idade
entre dois a quatro anos.
Outra surpresa
foi o comportamento de Aparecida
no momento de sua captura.
Enquanto Folia e Xuxu se
mostraram arredios, Cida deixou
que os técnicos tomassem todas
as medidas, sem sequer se mover.
Esse tipo de comportamento, de
acordo com Danielle, já foi
observado por pesquisadores do
projeto Mamirauá, com
peixes-bois da Amazônia
(Trichechus inunguis).
"Talvez seja um mecanismo de
defesa", salienta.
Danielle
acredita que o fato de Aparecida
praticamente não ter se mexido
durante a captura - ao contrário
dos animais de cativeiro, que já
conhecem o procedimento - se deve
ao processo de estresse extremo
vivenciado pelo animal.
"Creio que ela nunca esteve
tão próxima de humanos. Imagine
sendo capturada por eles".