- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

SAÚDE
Quando a música é sinônimo de cura

por HELIETE VAITSMAN
Agência Globo

Fã de Caetano Veloso e Marisa Monte, Isabela Rezende, de 19 anos, vivia cantando debaixo do chuveiro mas tinha vergonha de soltar a voz em público. Mal conseguia perguntar o preço de uma peça de roupa na loja favorita. Depois de dois anos de aulas de cantoterapia, a timidez foi embora, sua vida deu uma guinada e ela se prepara para estudar comunicação. "Agora, eu canto em público e perdi a vergonha de conversar e de dizer o que sinto. Aguardo ansiosa as aulas semanais e sinto saudades nas férias".

Além de ajudar os tímidos, a cantoterapia, criada há 15 anos pela carioca Sonia Jopper, professora de violão e ex-solista de coral do Colégio Sion, vai mais longe. Pela tranqüila casa amarela da Gávea, no Rio de Janeiro, passam de políticos que precisam aprender a respirar melhor, para melhor falar em público, a hipertensos enviados por cardiologistas. Os exercícios vocais, aliados à consciência corporal, reduzem a pressão arterial, ao mesmo tempo que aumentam a auto-estima.

O aumento da auto-estima também faz parte dos resultados positivos conseguidos pela musicoterapeuta Paula Maria Ribeiro Carvalho, uma das seis profissionais que trabalham, na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), com adultos e crianças com problemas tão diversos como acidente vascular cerebral, artrite reumatóide infantil e paraplegia. Segundo Paula, a percepção adquirida nas sessões pode ser a diferença entre o desânimo e a recuperação do equilíbrio ameaçado pela doença.

"Uma pessoa que trabalhava e de repente tem um acidente vascular encefálico, por exemplo, passa a viver como doente. Quando chega à instituição para se tratar, com metade do corpo paralisado, é levada a trabalhar as partes do corpo que foram afetadas. Ou seja, reforça a visão que tem de si própria como doente, esquecendo o lado saudável. O objetivo da musicoterapia é justamente recuperar este lado", diz ela.

No caso do engenheiro A. R., de 64 anos, cuja fala e movimentos ficaram prejudicados depois de um acidente vascular cerebral, um momento da musicoterapia foi essencial: ao ouvir uma canção ao piano, ele lembrou que a escutara várias vezes em companhia da primeira mulher. Foi o primeiro sinal de que começava a recuperar parte de sua memória, e com ela a capacidade de expressar emoções.

Esta capacidade é hoje uma das características de Selma Soares Marques, de 10 anos, que desde os 4 anos sofre de artrite reumatóide, doença degenerativa ainda sem cura conhecida. Ela chegou à ABBR, há dois anos, incapaz de manifestar um desejo ou reclamar. Agora, adora tocar pandeiro, participa ativamente das aulas, conversa e ri com os colegas.

A maioria das crianças que faz musicoterapia na ABBR teve paralisia cerebral ou meningite. As dificuldades de movimento devem-se a problemas no tônus muscular, que os profissionais procuram recuperar aos poucos. "Nosso objetivo é não deixar avançar a deformidade. Com o estímulo da música, a criança que tem dificuldade de abrir a mão vai querer fazê-lo para tocar o violão ou o tambor. Não há imposições. A vontade própria é importante".

Invadido por uma bala perdida que o deixou paraplégico, há dois anos e meio, o menino G., de 6 anos, começou o tratamento na ABBR bastante revoltado. Todas as músicas que criava tinham letras de final infeliz, com animais que morriam estraçalhados. As atuais já têm figuras humanas e ele diz que adora compor, sonhando com o dia em que será cantor.

Selma e G. poderiam continuar a se beneficiar da musicoterapia por muito tempo. Mas, ambos enfrentam um risco: na ABBR, que recebe apenas R$ 2 do Sistema Único de Saúde por cada sessão de meia hora de tratamento, há sempre novas crianças na fila porque há poucos profissionais para atender a todos.


     

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