- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

SAÚDE II
Nas sessões, paciente desenvolve lado social, psicológico e físico

Não são só os problemas físicos que a musicoterapia ajuda a minorar. Autistas e psicóticos também se beneficiam dela, como atesta o psiquiatra Carlos Augusto de Araújo Jorge, diretor da Fundação Municipal Lar Escola Francisco de Paula (Funlar), da Secretaria Municipal Desenvolvimento Social do Rio de Janeiro, onde há atualmente 115 alunos de musicoterapia. São crianças e adolescentes com diversas doenças, entre elas a síndrome de Down, o autismo e a paralisia cerebral, que provocam atraso de desenvolvimento motor e de linguagem.

Araújo Jorge relata o caso de um cliente de 13 anos, psicótico e agressivo, que só aceitou sair do carro do pai e entrar no consultório médico depois de uma abordagem pouco ortodoxa da musicoterapeuta.

"A profissional passou meses indo até o carro, levando consigo um instrumento de percussão, atabaque ou tamborim. Quando o garoto conseguiu enfim tocar o instrumento, estabelecendo uma relação com ela, pôde sair para o consultório. A música como instrumento terapêutico não é a mesma coisa que a música habitual. Usa-se a música para estabelecer uma relação de confiança com o paciente, abrindo uma canal de comunicação para, a partir daí, estabelecer relações mais saudáveis".

O trabalho da terapia se dá através de atividades cuidadosamente estruturadas, com objetivos que não incluem o desenvolvimento estético. Segundo a musicoterapeuta Mônica Isidoro da Silva, da Funlar, o canto, os instrumentos ouvidos e tocados, a composição e a dança ao som da música não pretendem desenvolver o talento musical. O objetivo é fazer com que o desenvolvimento musical melhore o funcionamento social, psicológico e fisico.

"O som é a primeira relação com o mundo, desde o ventre materno. Abre canais de comunicação que facilitam o tratamento. Além de atingir os movimentos mais primitivos, a música atua como elemento ordenador, que organiza a pessoa internamente", afirma Araújo Jorge.

Paula Carvalho, presidente da Associação de Musicoterapia do Rio de Janeiro, que congrega 350 profissionais, lembra que a musicoterapia é um curso da área biomédica. Quem faz vestibular para o curso, no Conservatório Brasileiro de Música, deve saber tocar um instrumento. O coordenador do curso, Marco Antônio Carvalho, explicou que os alunos, além de aprenderem violão, teclado e flauta, têm aulas como psicologia e anatomia.

A maioria dos musicoterapeutas faz questão de acentuar as origens técnicas do seu trabalho, reconhecido pela primeira vez nos EUA na década de 50. Mas, há quem aposte no lado místico da terapia, caso do musicoterapeuta Thomaz Lima, que usa o pseudônimo de Homem de Bem e já gravou sete CDs com mantras indianos. Agora, ele está lançando Himalaia, um CD instrumental, que dura uma hora e promete levar ao relaxamento. "O CD foi cuidadosamente planejado para provocar um resultado. Procuro abrir para as pessoas caminhos não verbais que levem-nas a expressar suas características positivas".


     

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