- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

SAÚDE III
A música pode combater e aliviar a dor

por SÉRGIO ROBERTO LIMA

Há um ano e meio, o pneumologista Paulo Barreto Campelo, do Hospital Oswaldo Cruz, teve um paciente bastante curioso. Era um senhor de seus 70 anos que estava tratando um problema pulmonar e sempre recebia o médico pela manhã tocando uma gaita. "Ele dizia que isso o ajudava a passar o tempo e esquecer o problema", lembra Campelo.

Foi assim que o especialista criou o projeto Música é vida, uma parceria entre a Universidade de Pernambuco, administradora do Oswaldo Cruz, e o Conservatório Pernambuco de Música. Todas as quartas-feiras, estudantes e professores do Conservatório fazem recitais para pacientes vítimas de câncer, doenças pulmonares, cardíacas e infecto-contagiosas nos ambulatórios, enfermarias, jardins e, até, na UTI do hospital.

Os médicos e pacientes aceitaram tão bem o projeto que o pneumologista decidiu levá-lo para os pacientes soropositivos do Hospital Correia Picanço, onde ele também trabalha. Paulo Barreto, que toca amadoramente bateria e percussão, faz questão de frisar que o projeto não é musicoterapia. "Pretendemos diminuir o sofrimento das pessoas através da música e hoje está comprovado que ela estimula os mecanismos de defesa do organismo a enfrentar os sofrimentos físicos e psicossomáticos", explica o médico.

SINAIS - Os resultados do projeto podem se refletir em números dentro de um ou dois anos, quando será feito um levantamento para detectar se houve, por exemplo, uma redução do tempo de permanência hospitalar e do número de medicamentos, como analgésicos e calmantes. Mas, os primeiros sinais de que o programa está dando certo já são vistos nos dias seguintes às apresentações. "Os familiares dos pacientes me param nos corredores perguntando se não dá para fazer uma apresentação extra", diz Campelo.

A satisfação dos próprios doentes é outra confirmação de que o projeto Música é Vida está cumprindo o objetivo de fazer com que a dor e o sofrimento sejam esquecidos por alguns instantes. Foi assim esta semana, quando os alunos do Conservatório Edson Costa e Dilton Monteiro levaram os acordes do sax e do violão para as 23 crianças e jovens com câncer do Hospital Oswaldo Cruz.

PÚBLICO ASSÍDUO - O projeto tem até público assíduo. Ewerton Guedes, de 9 anos, recebeu alta na terça-feira (31) depois de se recuperar de um linfoma, mas não deixou de ir ao hospital no dia seguinte para assistir ao recital. "Quando ele não estava aqui, pedia para vir só para ouvir a apresentação dos músicos", conta a mãe dele, a dona de casa Bernadete Guedes.

O benefício da música para aliviar o sofrimento parece ser algo tão óbvio para algumas pessoas que às vezes é adotado sem perceber. Ana Cláudia Melo, mãe de Marcelo, de 4 anos, portador de um tumor no cérebro, leva um walkman para o filho ouvir enquanto está no hospital. "Eu geralmente coloco músicas infantis ou relaxantes. Ele não reage porque o caso dele é grave, mas acho que isso traz algum bem-estar para ele", revela.

Já Wagner Melo, 16 anos, portador de um linfoma, recebeu de uma das médicas do setor de oncologia pediátrica do Oswaldo Cruz um violão e alguns manuais ensinando a tocar o instrumento. Três dias depois, ele já havia aprendido a dedilhar quatro notas. "Às vezes me doem as costas e eu tenho de parar, mas os dez minutos que eu passo tocando já me ajudam a passar o tempo", diz o rapaz.

Os recitais acabam sendo uma experiência diferente para os músicos. O saxofonista Edson Costa, que nunca havia tocado no projeto, aprovou a experiência. "É gratificante ver uma criança não perceber a injeção que está levando e sorrir com a música", revela. "Topo vir outras vezes", completa o colega violonista, Dilton Moraes.


     

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