SAÚDE
III
A
música pode combater e aliviar a
dorpor SÉRGIO ROBERTO
LIMA
Há um ano e
meio, o pneumologista Paulo
Barreto Campelo, do Hospital
Oswaldo Cruz, teve um paciente
bastante curioso. Era um senhor
de seus 70 anos que estava
tratando um problema pulmonar e
sempre recebia o médico pela
manhã tocando uma gaita.
"Ele dizia que isso o
ajudava a passar o tempo e
esquecer o problema", lembra
Campelo.
Foi assim que o
especialista criou o projeto
Música é vida, uma parceria
entre a Universidade de
Pernambuco, administradora do
Oswaldo Cruz, e o Conservatório
Pernambuco de Música. Todas as
quartas-feiras, estudantes e
professores do Conservatório
fazem recitais para pacientes
vítimas de câncer, doenças
pulmonares, cardíacas e
infecto-contagiosas nos
ambulatórios, enfermarias,
jardins e, até, na UTI do
hospital.
Os médicos e
pacientes aceitaram tão bem o
projeto que o pneumologista
decidiu levá-lo para os
pacientes soropositivos do
Hospital Correia Picanço, onde
ele também trabalha. Paulo
Barreto, que toca amadoramente
bateria e percussão, faz
questão de frisar que o projeto
não é musicoterapia.
"Pretendemos diminuir o
sofrimento das pessoas através
da música e hoje está
comprovado que ela estimula os
mecanismos de defesa do organismo
a enfrentar os sofrimentos
físicos e
psicossomáticos", explica o
médico.
SINAIS -
Os resultados do projeto podem se
refletir em números dentro de um
ou dois anos, quando será feito
um levantamento para detectar se
houve, por exemplo, uma redução
do tempo de permanência
hospitalar e do número de
medicamentos, como analgésicos e
calmantes. Mas, os primeiros
sinais de que o programa está
dando certo já são vistos nos
dias seguintes às
apresentações. "Os
familiares dos pacientes me param
nos corredores perguntando se
não dá para fazer uma
apresentação extra", diz
Campelo.
A satisfação
dos próprios doentes é outra
confirmação de que o projeto
Música é Vida está cumprindo o
objetivo de fazer com que a dor e
o sofrimento sejam esquecidos por
alguns instantes. Foi assim esta
semana, quando os alunos do
Conservatório Edson Costa e
Dilton Monteiro levaram os
acordes do sax e do violão para
as 23 crianças e jovens com
câncer do Hospital Oswaldo Cruz.
PÚBLICO
ASSÍDUO - O projeto tem até
público assíduo. Ewerton
Guedes, de 9 anos, recebeu alta
na terça-feira (31) depois de se
recuperar de um linfoma, mas não
deixou de ir ao hospital no dia
seguinte para assistir ao
recital. "Quando ele não
estava aqui, pedia para vir só
para ouvir a apresentação dos
músicos", conta a mãe
dele, a dona de casa Bernadete
Guedes.
O benefício da
música para aliviar o sofrimento
parece ser algo tão óbvio para
algumas pessoas que às vezes é
adotado sem perceber. Ana
Cláudia Melo, mãe de Marcelo,
de 4 anos, portador de um tumor
no cérebro, leva um walkman para
o filho ouvir enquanto está no
hospital. "Eu geralmente
coloco músicas infantis ou
relaxantes. Ele não reage porque
o caso dele é grave, mas acho
que isso traz algum bem-estar
para ele", revela.
Já Wagner
Melo, 16 anos, portador de um
linfoma, recebeu de uma das
médicas do setor de oncologia
pediátrica do Oswaldo Cruz um
violão e alguns manuais
ensinando a tocar o instrumento.
Três dias depois, ele já havia
aprendido a dedilhar quatro
notas. "Às vezes me doem as
costas e eu tenho de parar, mas
os dez minutos que eu passo
tocando já me ajudam a passar o
tempo", diz o rapaz.
Os recitais
acabam sendo uma experiência
diferente para os músicos. O
saxofonista Edson Costa, que
nunca havia tocado no projeto,
aprovou a experiência. "É
gratificante ver uma criança
não perceber a injeção que
está levando e sorrir com a
música", revela. "Topo
vir outras vezes", completa
o colega violonista, Dilton
Moraes.