ESTUDO
Como
o som envolve o cérebro e a
imaginaçãoAgência Globo
O sentido da
audição tem 300 milhões de
anos, mas a música complexa é
muito mais recente, com cerca de
três mil anos. O fascínio
produzido pelos sons envolve
áreas como ciência, psicologia
e filosofia e, como mostra Robert
Jourdain nas 425 páginas do
livro Música, cérebro e êxtase
(Editora Objetiva), captura de
maneira diversa a imaginação de
cada ser humano.
Neste livro,
ele acompanha a evolução da
música desde seus primórdios e
examina a maneira como o cérebro
processa as hierarquias de som.
Além disso, conta a história de
personagens fascinantes, como
Mozart, que começou a tocar
cravo aos 3 anos, e Ravel, que
aos 58 anos tornou-se vítima de
amusia, uma doença rara em que
acontece a perda - decorrente de
lesão cerebral - de uma ou mais
habilidades musicais.
Pacientes com
essa doença não podem se
beneficiar muito com um
tratamento baseado em vozes ou
instrumentos, mas no caso de
problemas como o mal de Parkinson
e o autismo usa-se a música como
terapia auxiliar poderosa. Os
sons são capazes de evocar
reações estimulantes. "A
música nos tira de nossos
hábitos mentais congelados e faz
nossas mentes se movimentarem
como habitualmente não são
capazes", explica o
pianista.
Várias
experiências científicas
confirmam o poder terapêutico da
música. Pacientes que acabam de
ouvir Mozart se saem melhor em
alguns tipos de testes de
raciocínio que os que não
ouviram música alguma ou ouviram
música popular simples. O
neurologista Oliver Sacks fala de
um paciente gravemente retardado,
que só era capaz de desempenhar
tarefas complexas se ouvisse
música. Isso acontece porque,
para esse tipo de indivíduo, a
música organiza o cérebro de
uma forma que a experiência
comum, caótica, não consegue
fazer.
Outra paciente
de Sacks, com mal de Parkinson,
testemunhou o imenso poder da
música sobre ela, comparando o
seu movimento ao movimento da
própria vida. Obviamente, a
música não repara os neurônios
defeituosos que causaram a
doença, mas ajuda o
parkinsoniano a vencer seus
sintomas ao transportar o
cérebro para um nível de
integração acima do normal.
Na ABBR, os
grupos de vítimas de acidente
vascular cerebral confirmam a
teoria do poder da música. Como
no caso do engenheiro A.R., os
pacientes das sessões de
musicoterapia se animam quando a
profissional toca ao piano alguma
canção que os marcou na
juventude. A partir daí,
procuram atiçar a memória,
articulando com crescente
eficiência frases que remetem a
um período anterior à doença.
Isso pode não ser a cura, diz
Paula, mas é um salto importante
na qualidade de vida.
"Mas, a
música só pode ajudar um
paciente com Parkinson se for de
um tipo que corresponda ao seu
gosto", afirma Jourdain.
Segundo o pianista, é
importante, também, que o
paciente seja musicalmente
sensível e esteja na
disposição de espírito certa,
para ser dominado pela música. E
a música tem de ser exatamente
do tipo certo. Ritmo percussivo
agudo pode fazer um paciente
entrar em espasmos, como uma
marionete, e canto monótono
revela-se fraco demais para
trazer benefício".
Jourdain vai
além na comparação entre tipo
de música e comportamento. Em
anos recentes, conta ele, donos
de lojas descobriram que
transmitir música clássica para
a rua afasta traficantes de
drogas. E Mozart tem sido tocado
em shopping centers europeus para
expulsar adolescentes ociosos.