- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

ESTUDO
Como o som envolve o cérebro e a imaginação

Agência Globo

O sentido da audição tem 300 milhões de anos, mas a música complexa é muito mais recente, com cerca de três mil anos. O fascínio produzido pelos sons envolve áreas como ciência, psicologia e filosofia e, como mostra Robert Jourdain nas 425 páginas do livro Música, cérebro e êxtase (Editora Objetiva), captura de maneira diversa a imaginação de cada ser humano.

Neste livro, ele acompanha a evolução da música desde seus primórdios e examina a maneira como o cérebro processa as hierarquias de som. Além disso, conta a história de personagens fascinantes, como Mozart, que começou a tocar cravo aos 3 anos, e Ravel, que aos 58 anos tornou-se vítima de amusia, uma doença rara em que acontece a perda - decorrente de lesão cerebral - de uma ou mais habilidades musicais.

Pacientes com essa doença não podem se beneficiar muito com um tratamento baseado em vozes ou instrumentos, mas no caso de problemas como o mal de Parkinson e o autismo usa-se a música como terapia auxiliar poderosa. Os sons são capazes de evocar reações estimulantes. "A música nos tira de nossos hábitos mentais congelados e faz nossas mentes se movimentarem como habitualmente não são capazes", explica o pianista.

Várias experiências científicas confirmam o poder terapêutico da música. Pacientes que acabam de ouvir Mozart se saem melhor em alguns tipos de testes de raciocínio que os que não ouviram música alguma ou ouviram música popular simples. O neurologista Oliver Sacks fala de um paciente gravemente retardado, que só era capaz de desempenhar tarefas complexas se ouvisse música. Isso acontece porque, para esse tipo de indivíduo, a música organiza o cérebro de uma forma que a experiência comum, caótica, não consegue fazer.

Outra paciente de Sacks, com mal de Parkinson, testemunhou o imenso poder da música sobre ela, comparando o seu movimento ao movimento da própria vida. Obviamente, a música não repara os neurônios defeituosos que causaram a doença, mas ajuda o parkinsoniano a vencer seus sintomas ao transportar o cérebro para um nível de integração acima do normal.

Na ABBR, os grupos de vítimas de acidente vascular cerebral confirmam a teoria do poder da música. Como no caso do engenheiro A.R., os pacientes das sessões de musicoterapia se animam quando a profissional toca ao piano alguma canção que os marcou na juventude. A partir daí, procuram atiçar a memória, articulando com crescente eficiência frases que remetem a um período anterior à doença. Isso pode não ser a cura, diz Paula, mas é um salto importante na qualidade de vida.

"Mas, a música só pode ajudar um paciente com Parkinson se for de um tipo que corresponda ao seu gosto", afirma Jourdain. Segundo o pianista, é importante, também, que o paciente seja musicalmente sensível e esteja na disposição de espírito certa, para ser dominado pela música. E a música tem de ser exatamente do tipo certo. Ritmo percussivo agudo pode fazer um paciente entrar em espasmos, como uma marionete, e canto monótono revela-se fraco demais para trazer benefício".

Jourdain vai além na comparação entre tipo de música e comportamento. Em anos recentes, conta ele, donos de lojas descobriram que transmitir música clássica para a rua afasta traficantes de drogas. E Mozart tem sido tocado em shopping centers europeus para expulsar adolescentes ociosos.


     

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