- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

PUBLICAÇÃO
Anorexia e bulimia atingem 1% da população mundial

Agência Globo

A anorexia nervosa e a bulimia atingem um número cada vez maior de jovens e podem até levar à morte. Segundo especialistas do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (Ambulim), 0,5% a 1% da população mundial sofre de transtornos alimentares e alguns estudos revelam que o percentual de bulimia nervosa chega a 20% em escolas secundárias americanas, inglesas e alemãs. Para esclarecer esses distúrbios, médicos, psiquiatras e psicanalistas do Ambulim escreveram o livro Anorexia e bulimia - O que são? Como ajudar? (Artes Médi) para orientar os pais a respeito do assunto.

Geralmente a anorexia nervosa ocorre em adolescentes do sexo feminino após a puberdade e se caracteriza por uma acentuada perda de peso auto-induzida. A jovem tem medo intenso de engordar e forte desejo de emagrecer. Uma das conseqüências deste transtorno alimentar é a ausência de menstruação por mais de três meses.

"Nas jovens que desenvolvem anorexia nervosa, observamos que o julgamento de sua imagem corporal está alterado, fazendo-a sentir-se com as formas maiores do que são na realidade", diz o médico Táki Athanássios Cordás, chefe de enfermaria do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP e coordenador geral do Ambulim.

Cerca de 50% das jovens com anorexia nervosa induzem o vômito após uma refeição, com o objetivo de tentar forçar o emagrecimento. A recusa em manter o peso mínimo para a idade e a altura é um dos principais critérios para o diagnóstico da anorexia.

Quando a perda de peso se torna acentuada, começam a aparecer problemas como pele seca, intolerância ao frio, queda de cabelo, diminuição do ritmo do coração (bradicardia), pressão baixa e inchaço. "Depressão, desânimo, irritabilidade e até tentativas de suicídio são os sintomas emocionais mais freqüentes nos casos mais graves", acrescenta o médico.

Já a bulimia tem maior incidência em mulheres entre 20 e 30 anos. Como a anorexia, a bulimia nervosa tem causas complexas, relacionadas a fatores fisiológicos, psicológicos e socioculturais. Os problemas físicos da bulimia são conseqüência do vômitos freqüentes e do abuso de laxantes e diuréticos.

As queixas mais comuns são dor de garganta ou de estômago, fraqueza, desmaios, diarréia, prisão de ventre, alterações menstruais e câimbras devido à deficiência de nutrientes como cálcio e potássio. Nos casos mais graves podem ocorrer alterações cardiovasculares.

Psicólogos e psicanalistas do Ambulim explicam que fazer dietas não é suficiente para desenvolver um transtorno alimentar. Nestes casos há fatores mais importantes, incluindo predisposição genética e psicológica, além de influências sociais. Especialistas do Hospital das Clínicas revelam que o tratamento deve ser baseado na educação alimentar, uso de medicamentos, terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia individual e orientação familiar.

PERFEIÇÃO - No caso da anorexia nervosa e da bulimia, mesmo quando o peso e reestabelecido e a jovem volta a se alimentar normalmente, podem ocorrer recaídas. Por isso recomenda-se o acompanhamento psicológico mesmo após o desaparecimento dos sintomas. Muitas vezes as famílias nas quais um de seus membros sofre de anorexia nervosa têm uma estrutura familiar com características comuns.

Geralmente são famílias preocupadas em se ajustar demais ao modelo social, no qual o ideal é pais e filhos perfeitos, tendo como guia para a realização desse desejo as convenções sociais mais rígidas. Esse perfeccionismo exagerado dos pais leva freqüentemente a um hipercontrole dos filhos, o que muitas vezes resulta na sua infantilização. O tratamento dos dois problemas é, a príncipio, ambulatorial, mas às vezes é preciso que haja internação.


     

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