-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

PROFISSÃO
Tradição foi iniciada há cerca de 30 anos

por LEILA NÚBIA CUNHA

A "exportação" de garçons de Frei Miguelinho para o Recife parece ter se iniciado há pouco mais de 30 anos. Ninguém sabe, ao certo, quando e como tudo começou, mas foi nessa época que chegou à capital José Caboclo da Silva, então com 17 anos, para trabalhar no restaurante do irmão. O Cantina Star, no bairro da Boa Vista, é tido como um dos primeiros a empregar gente da cidade. Daí em diante, cada novo empregado passava a indicar um conterrâneo, vítima da falta de alternativa de trabalho na terra onde nasceu. Por outro lado, a tendência alimenta-se pelo desejo dos proprietários das grandes capitais em contratar gente "verde" no ramo, de preferência, vinda do interior.

Ainda trabalhando no Cantina Star, "Zé Caboclo" admite ser impossível dizer quantos já vieram de Frei Miguelinho para trabalhar no Recife. Seja como garçom, empregado da copa ou, até mesmo, à frente do negócio. "Quase todos os restaurantes daqui têm gente de lá. Eu mesmo chamei uns 15", afirma. Casado e com três filhos, ele costuma ir à terra natal visitar a mãe e diz-se satisfeito com a profissão.

Outros três que também não têm do que reclamar estão no Restaurante Ilha de Kos, na Boa Vista, que emprega 10 conterrâneos. Edmilson Arruda, 35, por exemplo, está no Recife desde 1977. "Lá não tem opção de trabalho e as pessoas vão vindo, sempre por indicação de um colega que chegou antes. Conheço mais de trinta que vieram assim", diz.

Há 13 anos no mesmo restaurante, Cícero Moura, 33, também conhece uns 25 conterrâneos em restaurantes recifenses. Um dos que indicou para trabalhar com ele no Ilha de Kos é José dos Santos, 37, recém-chegado de São Paulo, após se desencantar com o custo de vida. "Passei 17 anos no sul, no ramo de transporte de máquinas, e hoje trabalho na copa. Estou de olho em duas vagas para chamar dois irmãos, que estão desempregados em Frei", conta.

Exemplos de profissionais que começaram na cozinha, passando de auxiliar a garçom e hoje são donos de restaurantes na capital também não faltam. Um deles é Severino Inácio de Lucena que, ao lado do irmão, José Inácio, administram os Ilha da Kosta I e II, ambos em Boa Viagem, e, mais duas lanchonetes, neste bairro e no Recife Antigo. Eles dão preferência ao pessoal que veio de Frei, na hora que aparece vaga. "Queremos pessoas sem experiência, para aprender no dia a dia".


 

 

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