PROFISSÃO II
Garçom,
produto exportação no Agreste por GIOVANA MESQUITA
Da Sucursal de Caruaru
FREI
MIGUELINHO - Quem chega, pela
primeira vez, a esta cidade (no
Agreste Setentrional, a 155
quilômetros do Recife) e percebe
seu clima pacato, com cadeiras
nas calçadas, crianças na
praça e uma igreja secular, nem
de longe imagina que ela tenha um
produto "exportado"
para todos os cantos do país.
Frei Miguelinho é considerada a
terra dos garçons, embora seja
difícil encontrar algum morando
lá, onde existem somente dois
restaurantes. A maioria deles
consegue emprego nas grandes
cidades, sobretudo no Recife, em
São Paulo e Caruaru, só
voltando para lá aposentado.
Qual a chave para ser admitido
nos restaurantes? Amizade. Um
leva o outro que, por sua vez,
leva o outro, enquanto o
município vai consolidando a
fama no estado.
Um dos
primeiros a deixar a cidade para
seguir o ofício foi Hildo
Hipólito Moura, 45 anos, 20 dos
quais como garçom. "Em 68,
quando comecei na profissão, era
um privilégio ser garçom",
conta. Com a profissão, Hildo
acumulou dinheiro e hoje é dono
do próprio negócio. Numa das
ruas principais do município ele
abriu o Bar Central. É lá que,
com a esposa, serve pratos
regionais, como sarapatel, mão
de vaca e tripa assada. Tudo
acompanhado por uma boa cachaça.
A clientela é
fiel. "No sábado, o bar
fica tão cheio que tenho que
colocar as mesas no meio da
rua", garante. Mas como toda
cidade do interior que se preza,
o movimento nunca ultrapassa às
23h. Os dias da semana costumam
ser tranqüilos, quando predomina
o bate-papo ligeiro nos finais de
tarde. Afinal, o ex-garçom é
conhecido por todos. É comum, as
pessoas passarem pelo bar
Central, darem uma paradinha para
jogar conversa fora com "Seu
Hildo".
Mesmo tendo
deixado a profissão há quatro
anos, ele não esquece do que
considera os dez mandamentos do
garçom. O primeiro é a boa
educação. Em seguida,
discrição absoluta, sigilo
sobre tudo o que vê e
atendimento impecável. Cabelos
curtos, unhas limpas, barba
feita, dentes perfeitos e roupa
limpíssima também fazem parte
da listagem. "O garçom
também não deve usar perfume
forte nem relógio",
aconselha.
HONESTIDADE -
Chamado, carinhosamente, de
"Zé Bochecha", José
Severino de Moura, 32 anos, é um
dos poucos que se mantém na
profissão sem ter precisado sair
de Frei Miguelinho. Ele trabalha
em restaurantes desde os 15 e
garante que desempenha todas as
funções necessárias.
"Cozinho, lavo, cuido do
almoxarifado e atendo",
assegura. Atualmente, trabalha na
Churrascaria Banho de Bica, que
divide os clientes que chegam à
cidade com a Reta Finalsão.
"Bochecha",
como grande parte dos garçons do
local, nunca fez curso
preparatório, tendo que aprender
no dia a dia. "Todos nós
começamos lavando pratos",
confessa. Vaidoso, José Moura
diz que os garçons de sua cidade
são muito procurados porque são
honestos e atendem muito bem.
"Quando trabalhei no Recife,
a turma que fazia curso no Sebrae
e freqüentava o restaurante, só
queria ser atendida por
mim", relembra ele, com
satisfação.
Com jeito calmo
e fala mansa, José Moura afirma
que adora sua profissão e
garante que nunca houve nada que
o tenha motivado a procurar outro
emprego. Nem mesmo os clientes
inconvenientes, que não têm bom
senso. "O que mais me
aborrece é um cliente embriagado
que, depois de umas doses, se
nega a pagar, dizendo que nada
consumiu", confidencia.