-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

PROFISSÃO II
Garçom, produto exportação no Agreste

por GIOVANA MESQUITA
Da Sucursal de Caruaru

FREI MIGUELINHO - Quem chega, pela primeira vez, a esta cidade (no Agreste Setentrional, a 155 quilômetros do Recife) e percebe seu clima pacato, com cadeiras nas calçadas, crianças na praça e uma igreja secular, nem de longe imagina que ela tenha um produto "exportado" para todos os cantos do país. Frei Miguelinho é considerada a terra dos garçons, embora seja difícil encontrar algum morando lá, onde existem somente dois restaurantes. A maioria deles consegue emprego nas grandes cidades, sobretudo no Recife, em São Paulo e Caruaru, só voltando para lá aposentado. Qual a chave para ser admitido nos restaurantes? Amizade. Um leva o outro que, por sua vez, leva o outro, enquanto o município vai consolidando a fama no estado.

Um dos primeiros a deixar a cidade para seguir o ofício foi Hildo Hipólito Moura, 45 anos, 20 dos quais como garçom. "Em 68, quando comecei na profissão, era um privilégio ser garçom", conta. Com a profissão, Hildo acumulou dinheiro e hoje é dono do próprio negócio. Numa das ruas principais do município ele abriu o Bar Central. É lá que, com a esposa, serve pratos regionais, como sarapatel, mão de vaca e tripa assada. Tudo acompanhado por uma boa cachaça.

A clientela é fiel. "No sábado, o bar fica tão cheio que tenho que colocar as mesas no meio da rua", garante. Mas como toda cidade do interior que se preza, o movimento nunca ultrapassa às 23h. Os dias da semana costumam ser tranqüilos, quando predomina o bate-papo ligeiro nos finais de tarde. Afinal, o ex-garçom é conhecido por todos. É comum, as pessoas passarem pelo bar Central, darem uma paradinha para jogar conversa fora com "Seu Hildo".

Mesmo tendo deixado a profissão há quatro anos, ele não esquece do que considera os dez mandamentos do garçom. O primeiro é a boa educação. Em seguida, discrição absoluta, sigilo sobre tudo o que vê e atendimento impecável. Cabelos curtos, unhas limpas, barba feita, dentes perfeitos e roupa limpíssima também fazem parte da listagem. "O garçom também não deve usar perfume forte nem relógio", aconselha.

HONESTIDADE - Chamado, carinhosamente, de "Zé Bochecha", José Severino de Moura, 32 anos, é um dos poucos que se mantém na profissão sem ter precisado sair de Frei Miguelinho. Ele trabalha em restaurantes desde os 15 e garante que desempenha todas as funções necessárias. "Cozinho, lavo, cuido do almoxarifado e atendo", assegura. Atualmente, trabalha na Churrascaria Banho de Bica, que divide os clientes que chegam à cidade com a Reta Finalsão.

"Bochecha", como grande parte dos garçons do local, nunca fez curso preparatório, tendo que aprender no dia a dia. "Todos nós começamos lavando pratos", confessa. Vaidoso, José Moura diz que os garçons de sua cidade são muito procurados porque são honestos e atendem muito bem. "Quando trabalhei no Recife, a turma que fazia curso no Sebrae e freqüentava o restaurante, só queria ser atendida por mim", relembra ele, com satisfação.

Com jeito calmo e fala mansa, José Moura afirma que adora sua profissão e garante que nunca houve nada que o tenha motivado a procurar outro emprego. Nem mesmo os clientes inconvenientes, que não têm bom senso. "O que mais me aborrece é um cliente embriagado que, depois de umas doses, se nega a pagar, dizendo que nada consumiu", confidencia.


 

 

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