-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 05 de abril de 1998

PERSONAGEM
Um ermitão com alma de ecologista

por CLÁUDIA PARENTE
Especial para o JC

EXU - Em todo o Sertão talvez não haja outro homem igual a Augusto Belchior da Silva, o Augusto "Brechó". Aos 87 anos de idade, 15 filhos e netos "a perder de vista", ele vive como um ermitão e quase ao ar livre na imensidão verde que é a Chapada do Araripe. O velho rastreador com alma de ecologista rude, transformou-se em uma figura lendária em toda a região, pela profunda compreensão dos hábitos dos animais e respeito à natureza.

Augusto "Brechó" - o nome surgiu da dificuldade das pessoas do seu tempo em pronunciar a forma original - começou a ficar famoso há mais de 50 anos, quando tornou-se público o fato de que ele conseguia identificar qualquer animal pelo rastro. A partir daí, os pedidos de ajuda para capturar animais fujões ou roubados tornaram-se constantes. Augusto nunca se negou, nunca cobrou pelos serviços, e sempre teve êxito. Desde então é uma lenda, convertido também em conselheiro de um povo e símbolo da sapiência sertaneja.

A história mais conhecida na região e que melhor traduz a habilidade de Augusto é o caso da burra de Santana do Cariri, quando colaborou com a polícia do Ceará, para encontrar um ladrão com um animal roubado. "Um certo dia, quando eu ia da serra para a feira da cidade, vi o rastro de um animal que não pertencia a mim, nem aos vizinhos", conta Augusto. Mais adiante, o rastreador encontrou um sargento da polícia, que veio de Santana, à procura de um animal que tinha sido roubado nesta cidade. "O sargento me pediu ajuda para encontrar o animal. Voltei para casa, preveni meus alforges (levou como matimentos, queijo e rapadura) e segui com ele", conta.

Acompanhando os rastros, Augusto chegou até a cidade, onde havia dois obstáculos que podiam frustrar sua missão: a grande quantidade de animais, circulando no dia da feira e o calçamento de pedras, que não guardava impressões. "Percebi que o animal tinha ido embora, posto que o cunhado do dono, que acompanhava a diligência, não conseguiu identificá-lo entre os demais. Astuto, Augusto rastreou todas as saídas da cidade, até reencontrar as marcas do animal. Seis quilômetros depois, a burra foi encontrada e o ladrão, preso. Ao todo foram mais de 40 Km no encalço do animal. Mas, como alguém pode distinguir animais, aparentemente, quase idênticos? "Ler se aprende com um professor. O resto, é o mundo que ensina", responde, explicando que dedicou a vida inteira a observar a natureza.

SOLIDÃO - Vivendo sozinho há 24 anos num "rancho" no meio do mato - uma filha vai lá diariamente preparar-lhe a comida -, a menos de três quilômetros da casa onde morava com a mulher e os filhos, Augusto não parece ser um homem de posses. Mas possui terra e gado que seriam suficientes para lhe proporcionar uma vida mais confortável se isso fizesse alguma diferença para ele. O "rancho", que a exemplo das casas de João de Barro só tem uma porta, possui apenas dois cômodos - sala e despensa -, não tem água nem luz e a decoração resume-se a um bando de espingardas velhas, encostadas em canto da parede, um chapéu de couro, um couro de carneiro curtido, algumas redes e um tronco de árvore que ele acende sempre que quer fazer café.

Augusto não tem sequer um rádio, mas demonstra interesse surpreendente por questões fora do seu universo. "Como estão as Malvinas? Os ingleses ainda estão lá? E Cuba?", pergunta. Como seu Augusto pode saber dessas coisas? "Essas árvores me contam tudo", diz enigmático. Ele também discute temas como invasão de terras e tem opinião formada sobre o assunto. "Quem ofende aos outros, ofende a si próprio", diz referindo-se aos sem-terra. Apesar de reconhecer a responsabilidade do poder público por retardar a reforma agrária, faz questão de salientar que "o governo também não pode obrigar preguiçoso a trabalhar", diz com a autoridade de quem sempre trabalhou na terra e que sabe fazê-la produzir como poucos.

"Sempre que arranco um pé de mandioca, planto quatro no lugar", diz Augusto, lembrando que o que colhe é dele e de quem precisar. Basta pedir. "Augusto só vende alguma coisa, se tiver muito aperreado", diz dona Ana Ventura, a esposa, que mora separado. Ela conta que há muitos anos uma chuva forte derrubou duas imensas árvores de cedro, madeira de alto valor comercial. "Apareceram pessoas querendo comprar a madeira, mas Augusto poibiu que eu vendesse ou que fizesse qualquer coisa com elas". Até hoje, as árvores podem ser vistas, apodrecendo na frente da casa de Dona Ana.

Mas o que pode levar um homem a viver na mais completa reclusão? "Na cidade, as pessoas olham muito para o que não devem. De que diabos vale uma língua que fala sem prestar atenção ao que diz?", diz taxativo. Augusto hoje tem poucas pretensões. "Quem quer mais que o que convém perde o que quer e o que tem". Mas, antes de morrer, quer construir um "ranchinho" para abrigar São Francisco, "um homem que não viveu ao gosto dos pais, mas ao gosto da natureza", e visitá-lo todo final de tarde. Depois de morto, só mais um apelo: ser enterrado perto do primeiro rancho, derrubado pela chuva, onde viveu durante 22 anos, sob a pitombeira frondosa, rodeado das inúmeras árvores que plantou. Se fosse para colocar uma epígrafe na sua lápide, certamente seria a frase que usou para definir o estilo de vida que escolheu para si: "O que comi, logrei; o que dei, guardei; o que deixei, não sei".

 
 

 

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