PERSONAGEM
Um
ermitão com alma de ecologistapor CLÁUDIA PARENTE
Especial para o JC
EXU - Em todo o
Sertão talvez não haja outro
homem igual a Augusto Belchior da
Silva, o Augusto
"Brechó". Aos 87 anos
de idade, 15 filhos e netos
"a perder de vista",
ele vive como um ermitão e quase
ao ar livre na imensidão verde
que é a Chapada do Araripe. O
velho rastreador com alma de
ecologista rude, transformou-se
em uma figura lendária em toda a
região, pela profunda
compreensão dos hábitos dos
animais e respeito à natureza.
Augusto
"Brechó" - o nome
surgiu da dificuldade das pessoas
do seu tempo em pronunciar a
forma original - começou a ficar
famoso há mais de 50 anos,
quando tornou-se público o fato
de que ele conseguia identificar
qualquer animal pelo rastro. A
partir daí, os pedidos de ajuda
para capturar animais fujões ou
roubados tornaram-se constantes.
Augusto nunca se negou, nunca
cobrou pelos serviços, e sempre
teve êxito. Desde então é uma
lenda, convertido também em
conselheiro de um povo e símbolo
da sapiência sertaneja.
A história
mais conhecida na região e que
melhor traduz a habilidade de
Augusto é o caso da burra de
Santana do Cariri, quando
colaborou com a polícia do
Ceará, para encontrar um ladrão
com um animal roubado. "Um
certo dia, quando eu ia da serra
para a feira da cidade, vi o
rastro de um animal que não
pertencia a mim, nem aos
vizinhos", conta Augusto.
Mais adiante, o rastreador
encontrou um sargento da
polícia, que veio de Santana, à
procura de um animal que tinha
sido roubado nesta cidade.
"O sargento me pediu ajuda
para encontrar o animal. Voltei
para casa, preveni meus alforges
(levou como matimentos, queijo e
rapadura) e segui com ele",
conta.
Acompanhando os
rastros, Augusto chegou até a
cidade, onde havia dois
obstáculos que podiam frustrar
sua missão: a grande quantidade
de animais, circulando no dia da
feira e o calçamento de pedras,
que não guardava impressões.
"Percebi que o animal tinha
ido embora, posto que o cunhado
do dono, que acompanhava a
diligência, não conseguiu
identificá-lo entre os demais.
Astuto, Augusto rastreou todas as
saídas da cidade, até
reencontrar as marcas do animal.
Seis quilômetros depois, a burra
foi encontrada e o ladrão,
preso. Ao todo foram mais de 40
Km no encalço do animal. Mas,
como alguém pode distinguir
animais, aparentemente, quase
idênticos? "Ler se aprende
com um professor. O resto, é o
mundo que ensina", responde,
explicando que dedicou a vida
inteira a observar a natureza.
SOLIDÃO -
Vivendo sozinho há 24 anos num
"rancho" no meio do
mato - uma filha vai lá
diariamente preparar-lhe a comida
-, a menos de três quilômetros
da casa onde morava com a mulher
e os filhos, Augusto não parece
ser um homem de posses. Mas
possui terra e gado que seriam
suficientes para lhe proporcionar
uma vida mais confortável se
isso fizesse alguma diferença
para ele. O "rancho",
que a exemplo das casas de João
de Barro só tem uma porta,
possui apenas dois cômodos -
sala e despensa -, não tem água
nem luz e a decoração resume-se
a um bando de espingardas velhas,
encostadas em canto da parede, um
chapéu de couro, um couro de
carneiro curtido, algumas redes e
um tronco de árvore que ele
acende sempre que quer fazer
café.
Augusto não
tem sequer um rádio, mas
demonstra interesse surpreendente
por questões fora do seu
universo. "Como estão as
Malvinas? Os ingleses ainda
estão lá? E Cuba?",
pergunta. Como seu Augusto pode
saber dessas coisas? "Essas
árvores me contam tudo",
diz enigmático. Ele também
discute temas como invasão de
terras e tem opinião formada
sobre o assunto. "Quem
ofende aos outros, ofende a si
próprio", diz referindo-se
aos sem-terra. Apesar de
reconhecer a responsabilidade do
poder público por retardar a
reforma agrária, faz questão de
salientar que "o governo
também não pode obrigar
preguiçoso a trabalhar",
diz com a autoridade de quem
sempre trabalhou na terra e que
sabe fazê-la produzir como
poucos.
"Sempre
que arranco um pé de mandioca,
planto quatro no lugar", diz
Augusto, lembrando que o que
colhe é dele e de quem precisar.
Basta pedir. "Augusto só
vende alguma coisa, se tiver
muito aperreado", diz dona
Ana Ventura, a esposa, que mora
separado. Ela conta que há
muitos anos uma chuva forte
derrubou duas imensas árvores de
cedro, madeira de alto valor
comercial. "Apareceram
pessoas querendo comprar a
madeira, mas Augusto poibiu que
eu vendesse ou que fizesse
qualquer coisa com elas".
Até hoje, as árvores podem ser
vistas, apodrecendo na frente da
casa de Dona Ana.
Mas o que pode
levar um homem a viver na mais
completa reclusão? "Na
cidade, as pessoas olham muito
para o que não devem. De que
diabos vale uma língua que fala
sem prestar atenção ao que
diz?", diz taxativo. Augusto
hoje tem poucas pretensões.
"Quem quer mais que o que
convém perde o que quer e o que
tem". Mas, antes de morrer,
quer construir um
"ranchinho" para
abrigar São Francisco, "um
homem que não viveu ao gosto dos
pais, mas ao gosto da
natureza", e visitá-lo todo
final de tarde. Depois de morto,
só mais um apelo: ser enterrado
perto do primeiro rancho,
derrubado pela chuva, onde viveu
durante 22 anos, sob a pitombeira
frondosa, rodeado das inúmeras
árvores que plantou. Se fosse
para colocar uma epígrafe na sua
lápide, certamente seria a frase
que usou para definir o estilo de
vida que escolheu para si:
"O que comi, logrei; o que
dei, guardei; o que deixei, não
sei".