SHOW II
Uma noite
e quatro grandes espetáculospor MARCOS TOLEDO
Quando se pega
um disco de Airto Moreira e Flora
Purim, imagina-se que se trata de
um trabalho similar ao que se
convencionou chamar de world
music (ou
música-exótica-do-terceiro-mundo-para-inglês-ouvir).
A apresentação da dupla na
noite de sábado passado, no
Teatro Guararapes, esteve bem
mais próxima da ascendência
musical de ambos, que do
estereótipo firmado.
Acompanhados pela banda Fourth
World ("quarto mundo"),
Airto e Flora fizeram um show do
primeiro mundo da música, que
poderia ter terminado numa grande
jam session, se não fosse uma
brusca interrupção.
O início da
apresentação não dava a menor
pinta do que iria acontecer.
Intimista, Airto introduz a
platéia ao som que fará a todos
viajarem. O que pode parecer
exótico lá fora, aqui no Brasil
transforma-se num belo passeio
pela nossa alma e miscigenação;
a "selva" nos é
familiar.
O
percussionista mistura sons da
natureza aos tradicionais das
raízes culturais que herdamos;
que por sua vez introduz ao
clássico, que leva ao pop - um
pop diferente, a world music.
World por que lá estão os
ritmos "brasileños",
mas também os ritmos gitanos e
outros mais clássicos, como o
jazz. No limiar da odisséia
jazzística e regozijante, Airto
dá a dica ao maestro Avelar, com
um leve aceno, e sozinho solta os
seus demônios à bateria e
mostra seus dotes (incluindo
nosso maracatu).
Um pouco mais
exigida por causa do som
inicialmente regular, que saía
do microfone, Flora Purim entra
em cena, com uma voz bem colocada
- continua o puro jazz: a voz é
apenas mais um instrumento, como
a bateria e percussão de Airto,
o teclado, o baixo, a guitarra e
o sax. Performer, ela canta e
dança para a platéia.
Embora não
haja muitos shows similares na
cidade, o público participativo
deu o clima deste tipo de
apresentação, ovacionando os
artistas após quase todos os
solos individuais. Como que
aproveitando essa troca de
atuações, Flora presenteia os
espectadores com uma versão
caprichada de Esquinas, versão
da música de Djavan que lhe
rendeu a indicação ao Grammy.
Num intervalo
da banda, Airto anuncia os
convidados da noite: Mestre Salu,
Nação Erê e Tavares da Gaita;
ao mesmo tempo, evocando todos os
orixás, como que se revigorando
para mais uma jazz hour. Na
seqüência, toda a banda retorna
ao palco, para o longo e
inspirador 20 Anos Blues.
Ao final do
blues, o palco cresceu para os
convidados. Mestre Salu puxou o
forró pé-de-serra, numa canja
bem mais instigada que no último
Zildjian Day. Padrinho de todos
os santos (ou sons), Airto fez
subir também o Nação Erê.
Antes da "palhinha" de
Tavares da Gaita, o show foi
bruscamente interrompido por uma
exigência da administração do
teatro, que não mais permite o
prolongamento de espetáculos
para além das 23 horas(!). Mesmo
com a exigência do público,
não houve concessão. Permaneceu
o brilho de um show memorável.