- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 07 de dezembro de 1998

SHOW II
Uma noite e quatro grandes espetáculos

por MARCOS TOLEDO

Quando se pega um disco de Airto Moreira e Flora Purim, imagina-se que se trata de um trabalho similar ao que se convencionou chamar de world music (ou música-exótica-do-terceiro-mundo-para-inglês-ouvir). A apresentação da dupla na noite de sábado passado, no Teatro Guararapes, esteve bem mais próxima da ascendência musical de ambos, que do estereótipo firmado. Acompanhados pela banda Fourth World ("quarto mundo"), Airto e Flora fizeram um show do primeiro mundo da música, que poderia ter terminado numa grande jam session, se não fosse uma brusca interrupção.

O início da apresentação não dava a menor pinta do que iria acontecer. Intimista, Airto introduz a platéia ao som que fará a todos viajarem. O que pode parecer exótico lá fora, aqui no Brasil transforma-se num belo passeio pela nossa alma e miscigenação; a "selva" nos é familiar.

O percussionista mistura sons da natureza aos tradicionais das raízes culturais que herdamos; que por sua vez introduz ao clássico, que leva ao pop - um pop diferente, a world music. World por que lá estão os ritmos "brasileños", mas também os ritmos gitanos e outros mais clássicos, como o jazz. No limiar da odisséia jazzística e regozijante, Airto dá a dica ao maestro Avelar, com um leve aceno, e sozinho solta os seus demônios à bateria e mostra seus dotes (incluindo nosso maracatu).

Um pouco mais exigida por causa do som inicialmente regular, que saía do microfone, Flora Purim entra em cena, com uma voz bem colocada - continua o puro jazz: a voz é apenas mais um instrumento, como a bateria e percussão de Airto, o teclado, o baixo, a guitarra e o sax. Performer, ela canta e dança para a platéia.

Embora não haja muitos shows similares na cidade, o público participativo deu o clima deste tipo de apresentação, ovacionando os artistas após quase todos os solos individuais. Como que aproveitando essa troca de atuações, Flora presenteia os espectadores com uma versão caprichada de Esquinas, versão da música de Djavan que lhe rendeu a indicação ao Grammy.

Num intervalo da banda, Airto anuncia os convidados da noite: Mestre Salu, Nação Erê e Tavares da Gaita; ao mesmo tempo, evocando todos os orixás, como que se revigorando para mais uma jazz hour. Na seqüência, toda a banda retorna ao palco, para o longo e inspirador 20 Anos Blues.

Ao final do blues, o palco cresceu para os convidados. Mestre Salu puxou o forró pé-de-serra, numa canja bem mais instigada que no último Zildjian Day. Padrinho de todos os santos (ou sons), Airto fez subir também o Nação Erê. Antes da "palhinha" de Tavares da Gaita, o show foi bruscamente interrompido por uma exigência da administração do teatro, que não mais permite o prolongamento de espetáculos para além das 23 horas(!). Mesmo com a exigência do público, não houve concessão. Permaneceu o brilho de um show memorável.


     

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