- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 07 de dezembro de 1998

TRADIÇÃO
Iemanjá: uma deusa para o próximo milênio

por por DUDA GUENNES
Especial para o JC

LISBOA - Os revéillons das passagens dos anos 1999/2000 e 2000/2201 serão duas grandes festas, com direito a comemoração dupla: o século e o milênio. Por certo, os festejos serão presididos por uma nova Rainha: Iemanjá, a deusa das águas.

Iemanjá é hoje o ícone representativo da passagem do ano, como o Papai Noel é, universalmente, a figura emblemática do Natal. Fenômeno recente, o culto a Iemanjá, a rainha do mar e mãe dos peixe e de todos os orixás, tem contudo uma longa tradição nos cultos afro-brasileiros. Vem dos tempos da escravidão, quando os negros cativos, para aproveitar a feriado do dia santo de Nossa Senhora da Glória, iam pedir graças e oferecer presentes a sua deusa.

O tempo foi passando e a homenagem foi transferida para o último dia do ano, em praias desertas, ainda às escondidas. Os negros sempre acreditaram que todas as graças viriam primeiro por intermédio de Iemanjá, pois ela era a mãe de todos nós.

As comemorações só começaram a ser feitas abertamente à medida que as religiões de raiz africana foram sendo toleradas pelas autoridades.

Na década de 40, surgiu no Rio de Janeiro uma nova maneira de comemorar o revéillon, quando diversos adeptos passaram a deitar nas águas da baía da Guanabara, na travessia Rio-Niterói, oferendas a Iemanjá. E mesmo assim o faziam muito discretamente, quando a barca já estava no meio da baía.

Uma década depois, um conhecido pai-de-santo do Rio, "Paizinho", chefe de um terreiro de Umbanda, organizou uma luxuosa procissão, da praia do Leme até o Posto 6, no outro extremo da praia de Copacabana, onde uma multidão incalculável de "fiéis" começaram a dançar ao som dos atabaques, homenageando a Rainha do Mar.

Estava lançada a "tradição".

Em 1957, D. Hélder Câmara, arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, "assombrado com o crescente prestígio da festa de Iemanjá, resolveu trazer para a rua, como no tempo das antigas procissões, a imagem e o culto da Virgem", lembra o escritor António Callado, que assistiu a esse encontro de duas religiosidades.

Continuo com Callado: "Afinal de contas, Nossa Senhora, que jesuítas espanhóis das missões do Sul chamavam La Conquistadora, emigrara para o Brasil, com seu filho, antes dos deuses e deusas da África. Assim dia 31 de Dezembro de 1957, fez tirar a Virgem da igreja de Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, para que desfilasse em procissão nocturna pelas praias (...). O que aconteceu - meninos, eu vi - é que Iemanjá acolheu a Virgem como rainha que recebe cumprimentos de outra rainha. Houve até mesmo, em todo o percurso, uma troca de fiéis, quer dizer, gente saindo no préstito católico para ir tomar uma bençãozinha à beira-mar e mães-de-santo que subiam à calçada de mosaico para fazer o pelo-sinal e se ajoelhar à passagem da outra soberana". Até 1964, quando D. Hélder foi transferido para a Arquidiocese de Olinda e Recife, o culto às rainhas continuou a ser praticado por católicos e umbandistas. Com a saída de D. Hélder, o campo ficou livre para estes últimos

IMPARÁVEL - A partir de 1957, mais que o futebol e o Carnaval, a festa da passagem do ano, dedicada a Iemanjá, passou a ser o maior acontecimento de massas no Brasil. Fenômeno recente, a solenidade à deusa das águas em pouco tempo alastrou-se a todo território brasileiro, inflacionando-se nos países limítrofes do Sul do Continente e, até, já retornando à sua África ancestral como produto made in Brazil. Em Portugal, nas praias da linha de Cascais e na costa da Caparica, também já se ouvem os primeiros toques dos atabaques saudando a sereia rainha do mar.

Iemanjá, que era cultuada em dias diferentes e em vários estados, sempre à sombra de um festa de Nossa Senhora, que pode ser Nossa Senhora da Glória, da Conceição, dos Navegantes, da Piedade ou das Candeias, hoje tem a sua festa sincronizada no dia do ano novo. Nas areias das praias ou à margem dos rios, açudes e lagos, no litoral ou no interior, a mãe de todo os orixás atrai uma multidão cada vez mais numerosa de fiéis ou curiosos que vão em trajes rituais ou vestidos de azul e branco fazer oferendas à deusa das águas. Presentes que lhe são ofertados - tudo que realce a sua beleza (ela é vaidosa): pentes, flores, perfumes, moedas, fitas multicores, sabonetes, espelhos e velas. Muitos espelhos. Muitas velas. Tantas que, nos anos 70, um satélite espião da NASA "entrou em pânico" ao constatar surpreendido a presença de imenso e inesperado incêndio no Atlântico Sul. Era a luz das velas refletindo nos espelhos.

Daí para a frente, ninguém mais segurou a "tradição". Primeiro, foram os donos dos hotéis da praia de Copacabana que "adotaram-na". Depois, a TV Globo se encarregou do resto, divulgando a festa para "o mundo e para o estrangeiro".

O MITO - Iemanjá, deusa do amor e da beleza, esposa e mãe, Rainha dos Sete Mares, chama-se em iorubá Yevê omo ejá - mãe cujos filhos são peixes - e tem como "tarefa" ajudar os namorados, as mulheres, aqueles que têm filhos e a todos que a respeitam e dependem das águas onde ela mora.

A vida começou na água. O mito dos seres aquáticos teria sua origem na teoria do eterno retorno e está presente em todas as culturas. Mães ancestrais, elas são as Lorelays do Reno, as Mermaids da Inglaterra, as Spunkies da Escócia, as Groachs da Bretanha, as Russalkas da Rússia, as Ninguyo do Japão, as Zavas polonesas, as Mouras Encantadas lusitanas, a Iara e o Boto, Iemanjá e Janaína das religiões afro-brasileiras. Dagon, deusa dos Assírios, dos Filisteus e dos judeus antes de Moisés, era uma bela mulher com rabo de peixe.

Dos seres aquáticos do Brasil, os maiores destaques vão para o Boto e a Iara. Iemanjá e Janaína são de origem africana, trasladadas e embranquecidas no Brasil pelo sincretismo religioso católico-animista.

A Iara é um ente mitológico cuja origem ao certo ainda não foi determinada.

Tem a forma de uma mulher bonita de longos cabelos. Mora no fundo da água e sobe à tona para atrair incautos, aos quais afoga, levando-os para o fundo consigo. Para Luís Câmara Cascudo, a lenda da Iara só aparece depois da chegada dos portugueses ao Brasil, não sendo assim de origem nativa, mas um abrasileiramento do mito europeu da Sereia.

Diz ainda Cascudo que, em Angola, há três tipos de sereias. "Quimbanda é a sereia marítima, vive nas águas salgadas, ao redor de Luanda e por toda a orla marítima do Atlântico angolano. Sua morada é nos rochedos que circulam a fortaleza de São Miguel. A outra sereia é Quitute, morando nos rios e lagos, monte e matas. É Iemanjá terrestre. A terceira e Quiximbi, podendo ser masculina ou feminina e tendo domínio nas lagoas e nos rios da região."

Iemajá é cultuada no Candomblé como sereia milenar e simbolizada por uma imagem de sereia de grandes mamas - Ilá olo oyon oruba (Mãe dos seios úmidos).

Saravá.


     

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