TRADIÇÃO
Iemanjá:
uma deusa para o próximo
milêniopor por DUDA GUENNES
Especial para o JC
LISBOA -
Os revéillons das passagens dos
anos 1999/2000 e 2000/2201 serão
duas grandes festas, com direito
a comemoração dupla: o século
e o milênio. Por certo, os
festejos serão presididos por
uma nova Rainha: Iemanjá, a
deusa das águas.
Iemanjá é
hoje o ícone representativo da
passagem do ano, como o Papai
Noel é, universalmente, a figura
emblemática do Natal. Fenômeno
recente, o culto a Iemanjá, a
rainha do mar e mãe dos peixe e
de todos os orixás, tem contudo
uma longa tradição nos cultos
afro-brasileiros. Vem dos tempos
da escravidão, quando os negros
cativos, para aproveitar a
feriado do dia santo de Nossa
Senhora da Glória, iam pedir
graças e oferecer presentes a
sua deusa.
O tempo foi
passando e a homenagem foi
transferida para o último dia do
ano, em praias desertas, ainda
às escondidas. Os negros sempre
acreditaram que todas as graças
viriam primeiro por intermédio
de Iemanjá, pois ela era a mãe
de todos nós.
As
comemorações só começaram a
ser feitas abertamente à medida
que as religiões de raiz
africana foram sendo toleradas
pelas autoridades.
Na década de
40, surgiu no Rio de Janeiro uma
nova maneira de comemorar o
revéillon, quando diversos
adeptos passaram a deitar nas
águas da baía da Guanabara, na
travessia Rio-Niterói, oferendas
a Iemanjá. E mesmo assim o
faziam muito discretamente,
quando a barca já estava no meio
da baía.
Uma década
depois, um conhecido pai-de-santo
do Rio, "Paizinho",
chefe de um terreiro de Umbanda,
organizou uma luxuosa procissão,
da praia do Leme até o Posto 6,
no outro extremo da praia de
Copacabana, onde uma multidão
incalculável de
"fiéis" começaram a
dançar ao som dos atabaques,
homenageando a Rainha do Mar.
Estava lançada
a "tradição".
Em 1957, D.
Hélder Câmara, arcebispo
auxiliar do Rio de Janeiro,
"assombrado com o crescente
prestígio da festa de Iemanjá,
resolveu trazer para a rua, como
no tempo das antigas procissões,
a imagem e o culto da
Virgem", lembra o escritor
António Callado, que assistiu a
esse encontro de duas
religiosidades.
Continuo com
Callado: "Afinal de contas,
Nossa Senhora, que jesuítas
espanhóis das missões do Sul
chamavam La Conquistadora,
emigrara para o Brasil, com seu
filho, antes dos deuses e deusas
da África. Assim dia 31 de
Dezembro de 1957, fez tirar a
Virgem da igreja de Nossa Senhora
da Paz, em Ipanema, para que
desfilasse em procissão nocturna
pelas praias (...). O que
aconteceu - meninos, eu vi - é
que Iemanjá acolheu a Virgem
como rainha que recebe
cumprimentos de outra rainha.
Houve até mesmo, em todo o
percurso, uma troca de fiéis,
quer dizer, gente saindo no
préstito católico para ir tomar
uma bençãozinha à beira-mar e
mães-de-santo que subiam à
calçada de mosaico para fazer o
pelo-sinal e se ajoelhar à
passagem da outra soberana".
Até 1964, quando D. Hélder foi
transferido para a Arquidiocese
de Olinda e Recife, o culto às
rainhas continuou a ser praticado
por católicos e umbandistas. Com
a saída de D. Hélder, o campo
ficou livre para estes últimos
IMPARÁVEL -
A partir de 1957, mais que o
futebol e o Carnaval, a festa da
passagem do ano, dedicada a
Iemanjá, passou a ser o maior
acontecimento de massas no
Brasil. Fenômeno recente, a
solenidade à deusa das águas em
pouco tempo alastrou-se a todo
território brasileiro,
inflacionando-se nos países
limítrofes do Sul do Continente
e, até, já retornando à sua
África ancestral como produto
made in Brazil. Em Portugal, nas
praias da linha de Cascais e na
costa da Caparica, também já se
ouvem os primeiros toques dos
atabaques saudando a sereia
rainha do mar.
Iemanjá, que
era cultuada em dias diferentes e
em vários estados, sempre à
sombra de um festa de Nossa
Senhora, que pode ser Nossa
Senhora da Glória, da
Conceição, dos Navegantes, da
Piedade ou das Candeias, hoje tem
a sua festa sincronizada no dia
do ano novo. Nas areias das
praias ou à margem dos rios,
açudes e lagos, no litoral ou no
interior, a mãe de todo os
orixás atrai uma multidão cada
vez mais numerosa de fiéis ou
curiosos que vão em trajes
rituais ou vestidos de azul e
branco fazer oferendas à deusa
das águas. Presentes que lhe
são ofertados - tudo que realce
a sua beleza (ela é vaidosa):
pentes, flores, perfumes, moedas,
fitas multicores, sabonetes,
espelhos e velas. Muitos
espelhos. Muitas velas. Tantas
que, nos anos 70, um satélite
espião da NASA "entrou em
pânico" ao constatar
surpreendido a presença de
imenso e inesperado incêndio no
Atlântico Sul. Era a luz das
velas refletindo nos espelhos.
Daí para a
frente, ninguém mais segurou a
"tradição". Primeiro,
foram os donos dos hotéis da
praia de Copacabana que
"adotaram-na". Depois,
a TV Globo se encarregou do
resto, divulgando a festa para
"o mundo e para o
estrangeiro".
O MITO -
Iemanjá, deusa do amor e da
beleza, esposa e mãe, Rainha dos
Sete Mares, chama-se em iorubá
Yevê omo ejá - mãe cujos
filhos são peixes - e tem como
"tarefa" ajudar os
namorados, as mulheres, aqueles
que têm filhos e a todos que a
respeitam e dependem das águas
onde ela mora.
A vida começou
na água. O mito dos seres
aquáticos teria sua origem na
teoria do eterno retorno e está
presente em todas as culturas.
Mães ancestrais, elas são as
Lorelays do Reno, as Mermaids da
Inglaterra, as Spunkies da
Escócia, as Groachs da Bretanha,
as Russalkas da Rússia, as
Ninguyo do Japão, as Zavas
polonesas, as Mouras Encantadas
lusitanas, a Iara e o Boto,
Iemanjá e Janaína das
religiões afro-brasileiras.
Dagon, deusa dos Assírios, dos
Filisteus e dos judeus antes de
Moisés, era uma bela mulher com
rabo de peixe.
Dos seres
aquáticos do Brasil, os maiores
destaques vão para o Boto e a
Iara. Iemanjá e Janaína são de
origem africana, trasladadas e
embranquecidas no Brasil pelo
sincretismo religioso
católico-animista.
A Iara é um
ente mitológico cuja origem ao
certo ainda não foi determinada.
Tem a forma de
uma mulher bonita de longos
cabelos. Mora no fundo da água e
sobe à tona para atrair
incautos, aos quais afoga,
levando-os para o fundo consigo.
Para Luís Câmara Cascudo, a
lenda da Iara só aparece depois
da chegada dos portugueses ao
Brasil, não sendo assim de
origem nativa, mas um
abrasileiramento do mito europeu
da Sereia.
Diz ainda
Cascudo que, em Angola, há três
tipos de sereias. "Quimbanda
é a sereia marítima, vive nas
águas salgadas, ao redor de
Luanda e por toda a orla
marítima do Atlântico angolano.
Sua morada é nos rochedos que
circulam a fortaleza de São
Miguel. A outra sereia é
Quitute, morando nos rios e
lagos, monte e matas. É Iemanjá
terrestre. A terceira e Quiximbi,
podendo ser masculina ou feminina
e tendo domínio nas lagoas e nos
rios da região."
Iemajá é
cultuada no Candomblé como
sereia milenar e simbolizada por
uma imagem de sereia de grandes
mamas - Ilá olo oyon oruba (Mãe
dos seios úmidos).
Saravá.