HISTÓRIA
Memória
da Violência Olhar para trás pode
dar torcicolo. Mas apenas
naqueles desabituados a esse
movimento de precaução. Quando
na noite de 13 de Dezembro de
1968 divulgou-se a promulgação
do AI-5 já havíamos esquecido
dos festejos, três dias antes,
dos 20 anos da Declaração
Universal dos Direitos do Homem.
No auge da agressão, não
tivemos tempo para perceber a
dimensão de um episódio,
aparentemente isolado. Na
terça-feira comemoramos a
maioridade do Grande Manifesto e,
na fatídica sexta-feira 13,
éramos esmagados por aqueles que
o rasgaram.
Hoje, o
entrelaçamento entre
aniversários tão díspares pode
render frutos e lições.
Sobretudo, advertências. A
truculência, verbal ou física,
não é apenas um traço de
personalidade e manifestação de
humor. Além de bárbara é ato
eminentemente político. A
ferocidade é desumana não
apenas porque fere pessoas, mas
porque estabelece uma dinâmica
de tripúdio de direitos e
dignidades.
Este meio
século de existência do
documento básico na luta contra
o arbítrio justaposto à
lembrança das três décadas do
início dos Anos de Chumbo
articulam-se, para nós, num
único objeto de culto. A
própria ONU faz esta oportuna
junção quando concede o prêmio
máximo nesta matéria ao
brasileiro José Gregori,
Secretário Nacional dos Direitos
Humanos.
A Declaração
Universal resulta do mais antigo
sonho político da humanidade.
Utopia das utopias, gozar a
liberdade, foi concretizada
porque ainda estavam quentes as
cinzas da grande hecatombe da
Segunda Guerra Mundial. Quando
Hitler fez o pacto com Stalin
permitindo o fulminante
aniquilamento da Polônia revelou
suas prioridades de forma
pragmática: acabar com a
democracia. A escolha de Eleonor
Roosevelt para presidir a
comissão internacional que
redigiu o lapidar documento tem a
ver com a sua trajetória pessoal
de feminista, liberal em
política e progressista em
questões sociais. Mas é, antes
de tudo, uma homenagem ao New
Deal, o Novo Pacto, conduzido por
seu marido, Franklin Delano
Roosevelt, figura instrumental na
mobilização mundial contra o
nazi-fascismo.
O Ato
Institucional Nº 5 não
aconteceu por acaso. Suas
motivações vão além dos
pretextos então invocados - as
manifestações estudantis e o
discurso do deputado-jornalista
Márcio Moreira Alves contra os
militares na Câmara Federal.
A verdade é
que a democracia restaurada em
1945 não foi suficientemente
assimilada pela sociedade
brasileira. O fechamento do PCB
em 1947, a República do Galeão
para depor Vargas em 1954, as
tentativas de impedir a eleição
de JK, as insurreições ao longo
do seu governo, o ensaio para
impedir a posse de Jango e,
depois, as próprias vacilações
deste em 63-64 revelam a
fragilidade da consciência
democrática.
O golpe militar
de 1964 foi recebido com
naturalidade e teve a
colaboração de setores
liberais. A imprensa não foi
afetada (salvo no caso da Última
Hora) porque o processo
jornalístico até então jamais
fora integralmente fluente. A
liberdade de imprensa era, no
máximo, um ideal, Na realidade,
uma fantasia. No Correio da
Manhã, que caiu em 1974, vítima
tardia do AI-5, sempre houve
"listas negras" com os
nomes que não mereciam
exposição. Este tipo de embargo
sobrevive até hoje em alguns
bastiões da grande mídia
(jornalões,
"revistões" e
televisões). E também em nossa
academia.
Nos bastidores
do abominóvel AI-5 havia dois
movimentos: o grupo Delfim
Netto-Mario Andreazza queria mais
poder para impulsionar o
"Milagre Brasileiro",
caricatura do desenvolvimentismo
de JK. Já o grupo de generais da
linha dura queria reconduzir a
disputa pela sucessão do
Marechal Costa Silva aos estritos
trâmites castrenses. Nesta
disputa, de um lado, o general
Albuquerque Lima (Ministro do
Interior), aglutinando os
militares nacionalistas (não
necessariamente de esquerda). Do
outro, o mesmo Andreazza
(Ministro dos Transportes),
atraindo empresários e,
sobretudo, empreiteiros de obras
públicas. Albuquerque Lima era
general de divisão, portanto
inabilitado hierarquicamente para
comandar generais de exército
(posto máximo) mas com enorme
penetração junto às bases do
oficialato da força terrestre.
Andreazza, coronel reformado
oriundo da área de
inteligência, era tido como
civil e dado a namoricos com
certos setores de intelectuais
próximos daqueles empreiteiros.
Além das
complicadas maquinações dentro
do bunker militar, os objetivos
do AI-5 foram claros: a)
desarticular a Frente Ampla
(Lacerda, JK e Jango) que ganhava
força; b) punir o Congresso pela
rebeldia em resistir à quebra da
imunidade parlamentar de Márcio
Moreira Alves; c) criar as
condições "legais"
para iniciar um movimento de
repressão de grande envergadura
contra estudantes e a
"guerrilha urbana" que
dois meses antes havia
assassinado o capitão americano
Charles R. Chandler; d)
enquadrar, através de um sistema
de censura ostensiva, jornais e
jornalistas que esboçavam
visível impaciência com a
continuação de um processo de
pequenos arbítrios, agora
intolerável.
Dar nomes
genéricos a certos momentos da
história é uma perigosa
armadilha simplista. Os
"Dourados Anos de JK"
foram permeados por golpes,
contragolpes e ilegalidades. Mas
começaram antes, no segundo
governo de Getúlio. Têm muito a
ver com os impulsos
revitalizadores na imprensa da
então Capital e começam com o
lançamento de Última Hora de
Samuel Wainer em 1951.
Um segundo
momento "dourado" da
imprensa e da cultura
(impossível dissociá-los),
paradoxalmente, coincide com o
regime militar, em grande parte
alimentado pela resistência.
A censura
escancarada começou menos de uma
hora depois de anunciado o AI-5
pela Hora do Brasil com a
irrupção de militares fardados
em algumas redações cariocas
(no caso da Última Hora,
armados, conforme contou-me
Moacir Werneck de Castro num dos
depoimentos que serão exibidos
nestes dias no Observatório da
Imprensa).
Acabara-se a
fase dos panos quentes e
disfarces. Os militares e seus
acólitos perceberam que àquela
altura cristalizara-se algo
extraordinário na imprensa
brasileira. Maior do que as
entidades corporativas, sem
palavras de ordem nem badalação
de marketing, sobrepondo-se às
preocupações materiais,
impunha-se a consciência
jornalística. Dever moral,
espírito missionório. O AI-5
tentou sufocá-los. Só os
revigorou. (Continuas)
EM TEMPO - Meus
caros: Este é o primeiro de uma
série de dois ou três artigos.
Aproveito para informar que
entrarei de férias em dezembro.
Meu último texto deste ano será
no dia 19/12. Retornarei no dia
23/1. Abraços, Dines.