- - - - - - -- - - - - - - -- - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

ESCAVAÇÕES
Gasoduto esconde tesouro arqueológico

por VERÔNICA FALCÃO

Uma expedição arqueológica está cruzando os canaviais e Mata Atlântica do sul de Pernambuco em busca de fragmentos da Pré-história que vão desaparecer completamente com a implantação de um gasoduto da Petrobras. Mais de 30 mil pedaços de cerâmica e instrumentos de pedra já foram coletados pelos arqueólogos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Até fevereiro, eles pretendem concluir a operação de resgate ao longo dos 204 quilômetros de tubulação de gás natural, de Pilar, em Alagoas, até o Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife.

O trabalho começou em abril, com a prospecção de toda a área, quando os pesquisadores identificaram 53 sítios arqueológicos. A maioria está no topo dos morros, onde a vegetação predominante é a cana-de-açúcar. "Antes, no entanto, havia Mata Atlântica e as populações provavelmente faziam clareiras na floresta, para implantar suas aldeias", explica a arqueóloga Suely Luna, da UFPE.

A pesquisadora acredita que ocupar o topo dos morros tinha uma função estratégica para os índios. "Além de ter uma visão geral do entorno, no alto havia menos calor e mosquitos", diz Suely. A equipe ainda não encontrou material que possa ser datado, mas a pesquisadora estima que as populações pré-históricas ocuparam a região há mais de mil anos.

Durante a prospecção, os arqueólogos também encontraram um engenho do século 17 soterrado. Eles viram tachos de ferro, utensílios de louça e moinhos, que serão estudados posteriormente por uma equipe de pesquisadores de arqueologia histórica.

O material arqueológico pré-histórico mais significativo foi localizado entre os municípios de Jacuípe e Água Preta, na divida de Alagoas e Pernambuco. São cachimbos, fusos (usado para fiar algodão) e até três adornos labiais em amazonita, uma pedra esverdeada.

A prospecção e o salvamento arqueológico são financiados pela Petrobras. Essa é uma das exigências do EIA/Rima, o estudo e relatório de impacto ambiental exigido pela legislação federal para obras de grande porte.

CAMPO - Para fazer o serviço, a Petrobras contratou a Fundação Seridó, uma organização não-governamental com sede em Carnaúba dos Dantas, no Sertão do Seridó (RN), que se propõe a realizar pesquisas e educação arqueológica na região. A fundação contratou os pesquisadores da UFPE. Estão realizando o trabalho de campo, duas arqueólogas, 12 bolsistas de iniciação científica, quatro de pós-graduação e um topógrafo.


     

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