ESCAVAÇÕES
Gasoduto
esconde tesouro arqueológicopor VERÔNICA
FALCÃO
Uma expedição
arqueológica está cruzando os
canaviais e Mata Atlântica do
sul de Pernambuco em busca de
fragmentos da Pré-história que
vão desaparecer completamente
com a implantação de um
gasoduto da Petrobras. Mais de 30
mil pedaços de cerâmica e
instrumentos de pedra já foram
coletados pelos arqueólogos da
Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Até
fevereiro, eles pretendem
concluir a operação de resgate
ao longo dos 204 quilômetros de
tubulação de gás natural, de
Pilar, em Alagoas, até o Cabo de
Santo Agostinho, na Região
Metropolitana do Recife.
O trabalho
começou em abril, com a
prospecção de toda a área,
quando os pesquisadores
identificaram 53 sítios
arqueológicos. A maioria está
no topo dos morros, onde a
vegetação predominante é a
cana-de-açúcar. "Antes, no
entanto, havia Mata Atlântica e
as populações provavelmente
faziam clareiras na floresta,
para implantar suas
aldeias", explica a
arqueóloga Suely Luna, da UFPE.
A pesquisadora
acredita que ocupar o topo dos
morros tinha uma função
estratégica para os índios.
"Além de ter uma visão
geral do entorno, no alto havia
menos calor e mosquitos",
diz Suely. A equipe ainda não
encontrou material que possa ser
datado, mas a pesquisadora estima
que as populações
pré-históricas ocuparam a
região há mais de mil anos.
Durante a
prospecção, os arqueólogos
também encontraram um engenho do
século 17 soterrado. Eles viram
tachos de ferro, utensílios de
louça e moinhos, que serão
estudados posteriormente por uma
equipe de pesquisadores de
arqueologia histórica.
O material
arqueológico pré-histórico
mais significativo foi localizado
entre os municípios de Jacuípe
e Água Preta, na divida de
Alagoas e Pernambuco. São
cachimbos, fusos (usado para fiar
algodão) e até três adornos
labiais em amazonita, uma pedra
esverdeada.
A prospecção
e o salvamento arqueológico são
financiados pela Petrobras. Essa
é uma das exigências do
EIA/Rima, o estudo e relatório
de impacto ambiental exigido pela
legislação federal para obras
de grande porte.
CAMPO -
Para fazer o serviço, a
Petrobras contratou a Fundação
Seridó, uma organização
não-governamental com sede em
Carnaúba dos Dantas, no Sertão
do Seridó (RN), que se propõe a
realizar pesquisas e educação
arqueológica na região. A
fundação contratou os
pesquisadores da UFPE. Estão
realizando o trabalho de campo,
duas arqueólogas, 12 bolsistas
de iniciação científica,
quatro de pós-graduação e um
topógrafo.