- - - - - - -- - - - - - - -- - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

DE OLHO NA CIÊNCIA
Estação Espacial: castelo no ar?

por JOSÉ MONSERRAT FILHO*

Dizíamos no domingo passado que a Estação Espacial Internacional (EEI) é apresentada pelos seus patrocinadores como o lugar ideal para se gerar o crescimento de cristais usados em valiosas pesquisas farmacológicas. Será mesmo?

"Vejamos o cerne do argumento a favor, como descreve o The Economist: "Os cristais em questão seriam as proteínas humanas. A idéia seria usar a cristalografia de raios X para analisar as estruturas das proteínas. Esta área da pesquisa farmacológica cresce rapidamente, porque, conhecendo-se a estrutura de uma proteína, fica mais fácil projetar um medicamento ajustado a ela e influir em suas atividades. A cristalografia de raios X tem melhor desempenho com cristais grandes, e a ausência de gravidade facilita o crescimento desses cristais".

Agora vejamos as razões contrárias formuladas pela Sociedade Americana de Biologia Celular: 1) a pureza e a estabilidade são fatores muito mais importantes do que a gravidade para o crescimento de cristais grandes; 2) é improvável que o ambiente da estação espacial possa aumentá-los; e 3) Deve haver formas bem mais baratas de desenvolver novas técnicas de gerar o crescimento de cristais, em instalações terrestres.

A estação espacial seria igualmente útil para desenvolver a telemedicina, na medida em que médicos sediados na Terra poderiam monitorar a saúde dos astronautas. A idéia vem sendo acenada pela Nasa como mais um ponto a favor do projeto. Acontece que, segundo os próprios médicos, o quadro físico dos astronautas pode ser facilmente acompanhado em condições simuladas aqui no rés-do-chão...

Por essas e outras, nos EUA - como informou o insuspeito Finantial Times de Londres, em 22 de novembro, dois dias após o lançamento da primeira peça da estação espacial -, não poucos cientistas sustentam que o dinheiro desse megaprojeto "seria melhor empregado numa miríade de pequenos projetos".

Para que serve, então, a estação espacial? Para estudar de modo sistemático os efeitos dos vôos espaciais, especialmente os de longa duração, sobre a fisiologia humana. Disso não há quem duvide. São exemplares neste sentido as experiências a bordo da estação Mir de vários cosmonautas russos, que bateram recordes de permanência no espaço e deram enorme contribuição à medicina espacial.

Quer dizer, a estação espacial pode ser muito útil como base de preparação para a viagem do homem a Marte. Aqui, no entanto, há dois problemas: 1) para preparar a viagem a Marte, a estação espacial não precisaria ser tão cara; e 2) em 1996, o Governo Clinton cancelou o projeto de vôo tripulado a Marte, o que retira da Estação Espacial o motivo mais convincente para a sua existência.

Talvez por isso, o astronauta Michael Foale, vice-diretor do Johnson Space Centre da Nasa, em Houston, EUA, tenha feito esta sintomática declaração ao mesmo Finantial Times: "A pesquisa não é, realmente, o caminho, a razão de ser e o fim maior da Estação Espacial Internacional. Esta, na verdade, é um veículo para se fazer alguma coisa no espaço, continuando a exploração, avançando para fora do planeta..."

O contexto parece, portanto, de generalidades e inconsistências. Daí que, num esforço de irônico realismo, o The Economist alinhou quatro razões para justificar a milionária estação espacial: 1) dar ocupação aos astronautas americanos, pois demiti-los ou desempregá-los causaria uma grita insuportável; 2) subsidiar as corporações aeroespaciais numa época em que as verbas para fins militares tendem a diminuir cada vez mais; 3) manter os especialistas russos em foguetes e mísseis na própria Rússia e não na Coréia do Norte ou no Irã; 4) evitar a humilhação de voltar atrás (e desistir de um projeto que, além de caríssimo, é campeoníssimo de badalação).

Este vexame, certamente doloroso, seria, no entanto, bastante compensador. O tesouro dos EUA economizaria, pelo menos, US$ 30 bilhões. Este cálculo também é do The Economist, que o expõe em duro editorial intitulado "Jogar fora a estação espacial".

A revista recomenda que a Nasa deixe de "construir castelos no ar" e invista seus belos recursos numa "nova era de exploração e utilização comercial do espaço". Isso permitiria "a adoção de um enfoque mais racional para os vôos espaciais". Agora me digam: tudo isso não deveria ser melhor divulgado e conhecido no Brasil?

* José Monserrat Filho é jornalista e jurista, editor do Jornal da Ciência e do JC E-Mail, da SBPC, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Direito Aeroespacial e membro da diretoria do Instituto Internacional de Direito Espacial da Federação Internacional de Astronáutica.

 
     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes