DE
OLHO NA CIÊNCIA
Estação
Espacial: castelo no ar?por JOSÉ MONSERRAT
FILHO*
Dizíamos no
domingo passado que a Estação
Espacial Internacional (EEI) é
apresentada pelos seus
patrocinadores como o lugar ideal
para se gerar o crescimento de
cristais usados em valiosas
pesquisas farmacológicas. Será
mesmo?
"Vejamos o
cerne do argumento a favor, como
descreve o The Economist:
"Os cristais em questão
seriam as proteínas humanas. A
idéia seria usar a
cristalografia de raios X para
analisar as estruturas das
proteínas. Esta área da
pesquisa farmacológica cresce
rapidamente, porque,
conhecendo-se a estrutura de uma
proteína, fica mais fácil
projetar um medicamento ajustado
a ela e influir em suas
atividades. A cristalografia de
raios X tem melhor desempenho com
cristais grandes, e a ausência
de gravidade facilita o
crescimento desses
cristais".
Agora vejamos
as razões contrárias formuladas
pela Sociedade Americana de
Biologia Celular: 1) a pureza e a
estabilidade são fatores muito
mais importantes do que a
gravidade para o crescimento de
cristais grandes; 2) é
improvável que o ambiente da
estação espacial possa
aumentá-los; e 3) Deve haver
formas bem mais baratas de
desenvolver novas técnicas de
gerar o crescimento de cristais,
em instalações terrestres.
A estação
espacial seria igualmente útil
para desenvolver a telemedicina,
na medida em que médicos
sediados na Terra poderiam
monitorar a saúde dos
astronautas. A idéia vem sendo
acenada pela Nasa como mais um
ponto a favor do projeto.
Acontece que, segundo os
próprios médicos, o quadro
físico dos astronautas pode ser
facilmente acompanhado em
condições simuladas aqui no
rés-do-chão...
Por essas e
outras, nos EUA - como informou o
insuspeito Finantial Times de
Londres, em 22 de novembro, dois
dias após o lançamento da
primeira peça da estação
espacial -, não poucos
cientistas sustentam que o
dinheiro desse megaprojeto
"seria melhor empregado numa
miríade de pequenos
projetos".
Para que serve,
então, a estação espacial?
Para estudar de modo sistemático
os efeitos dos vôos espaciais,
especialmente os de longa
duração, sobre a fisiologia
humana. Disso não há quem
duvide. São exemplares neste
sentido as experiências a bordo
da estação Mir de vários
cosmonautas russos, que bateram
recordes de permanência no
espaço e deram enorme
contribuição à medicina
espacial.
Quer dizer, a
estação espacial pode ser muito
útil como base de preparação
para a viagem do homem a Marte.
Aqui, no entanto, há dois
problemas: 1) para preparar a
viagem a Marte, a estação
espacial não precisaria ser tão
cara; e 2) em 1996, o Governo
Clinton cancelou o projeto de
vôo tripulado a Marte, o que
retira da Estação Espacial o
motivo mais convincente para a
sua existência.
Talvez por
isso, o astronauta Michael Foale,
vice-diretor do Johnson Space
Centre da Nasa, em Houston, EUA,
tenha feito esta sintomática
declaração ao mesmo Finantial
Times: "A pesquisa não é,
realmente, o caminho, a razão de
ser e o fim maior da Estação
Espacial Internacional. Esta, na
verdade, é um veículo para se
fazer alguma coisa no espaço,
continuando a exploração,
avançando para fora do
planeta..."
O contexto
parece, portanto, de
generalidades e inconsistências.
Daí que, num esforço de
irônico realismo, o The
Economist alinhou quatro razões
para justificar a milionária
estação espacial: 1) dar
ocupação aos astronautas
americanos, pois demiti-los ou
desempregá-los causaria uma
grita insuportável; 2) subsidiar
as corporações aeroespaciais
numa época em que as verbas para
fins militares tendem a diminuir
cada vez mais; 3) manter os
especialistas russos em foguetes
e mísseis na própria Rússia e
não na Coréia do Norte ou no
Irã; 4) evitar a humilhação de
voltar atrás (e desistir de um
projeto que, além de caríssimo,
é campeoníssimo de
badalação).
Este vexame,
certamente doloroso, seria, no
entanto, bastante compensador. O
tesouro dos EUA economizaria,
pelo menos, US$ 30 bilhões. Este
cálculo também é do The
Economist, que o expõe em duro
editorial intitulado "Jogar
fora a estação espacial".
A revista
recomenda que a Nasa deixe de
"construir castelos no
ar" e invista seus belos
recursos numa "nova era de
exploração e utilização
comercial do espaço". Isso
permitiria "a adoção de um
enfoque mais racional para os
vôos espaciais". Agora me
digam: tudo isso não deveria ser
melhor divulgado e conhecido no
Brasil?
* José
Monserrat Filho é jornalista e
jurista, editor do Jornal da
Ciência e do JC E-Mail, da SBPC,
vice-presidente da Sociedade
Brasileira de Direito
Aeroespacial e membro da
diretoria do Instituto
Internacional de Direito Espacial
da Federação Internacional de
Astronáutica.