Padrinhos
& afilhadosPor mais que se tente
minimizar o fato, ou desviar a
atenção do público para
detalhes menos importantes, não
há como negar a gravidade da
informação publicada neste
jornal sobre a prática de
retenção de servidores do Poder
Executivo pelo Tribunal de
Justiça de Pernambuco. Segundo
demonstrou a repórter Ciara
Carvalho, com base em
documentação do próprio TJPE,
com o dinheiro das
gratificações pagas a tantos
protegidos poderiam ser
contratadas cerca de 400 pessoas
concursadas.
Em sua maioria,
diz a reportagem, não são
necessários ao serviço, mas
apenas apadrinhados que recebem,
em gratificações, R$ 250.000,00
a cada mês. A reportagem
ressalta que "nas últimas
semanas, várias pessoas estariam
sendo devolvidas aos seus locais
de origem". Mas, acrescenta
que por conta dessa ação
moralizadora o presidente do
Tribunal "vem sofrendo
fortes pressões". Não nos
parece relevante confirmar se
essa informação foi colhida
junto ao próprio gabinete do
desembargador Etério Galvão, ou
em outros setores existentes no
nosso imponente Palácio da
Justiça, hoje tão repleto de
servidores que exigiu a
aquisição das dependências do
antigo Grande Hotel e a
construção de um novo prédio
para funcionar depois do Ano
2.000.
Diz, ainda, a
reportagem publicada no Caderno
Cidades da última sexta-feira,
que de todo o contingente
atualmente posto à disposição,
"apenas o pessoal da
Polícia Militar e alguns cargos
comissionados seriam, de fato,
necessários aos quadros do
tribunal. A resistência dos
servidores em deixar o
Judiciário deve-se à
gratificação de 120% paga pelo
tribunal sobre o salário do
funcionário no órgão de
origem." Diz também que a
despesa total já foi maior, mas
houve uma tentativa para limitar
tal gratificação, que se
estabilizou em oitocentos mil per
capita (mais do que recebe a
maioria dos funcionários do
Executivo, agora com os salários
atrasados).
Pode-se apenas
alegar que essa situação não
é exclusiva de um dos poderes do
Estado, nem acontece apenas em
Pernambuco. Diz-se mesmo que por
tras do passeio de funcionários
de um para outro poder existe um
jogo já antigo, que consiste em
obter a contratação de parentes
por uma repartição do governo,
para em seguida transferi-lo,
lotando-o no gabinete do seu
protetor. Alguns integrantes do
Poder Legislativo seriam também
muito hábeis nesse tipo de
manobra. E isso explica talvez a
demora na aprovação do projeto
contra o nepotismo do senador
Roberto Freire (PPS-PE), há
tanto tempo tramitando no
Congresso Nacional.
Já arquivada
uma vez, a proposta moralizadora
foi recentemente aprovada pelo
Senado, ainda que por uma
raquítica margem de dois votos.
Mas, ainda está à espera da
votação na Câmara dos
Deputados, e nada indica que vá
obter ali os votos necessários,
na legislatura que finda no
próximo dia 15. Se o
prognóstico negativo se
confirmar, respirarão aliviados
por um bom tempo (até quando?)
aqueles integrantes dos três
poderes que engordam sua renda
familiar dando emprego de
assistentes diretos aos parentes
mais próximos, tanto no plano
federal quanto no estadual e no
municipal.
O projeto
aprovado pelo Senado e à espera
de votação na Câmara Federal
proíbe a nomeação para cargos
comissionados, sob a chefia
imediata de quaisquer integrantes
dos três poderes, de pessoas que
sejam "cônjuge, companheiro
ou parente consangüíneo ou
afim, até o terceiro grau
civil". Já se divulgou que
perto de 60% dos deputados têm
parentes trabalhando em seus
gabinetes ou em suas bases
eleitorais (com vencimentos pagos
pelos cofres públicos). Como
isso se repete em escala variada
entre os estaduais e os
vereadores, o caminho do projeto
parece ser uma gaveta. Poderá
ser reapresentado, mas somente
noutra legislatura.
Na região
brasileira em que nasceu o
senador Roberto Freire, o
nepotismo sempre foi um
instrumento de manutenção do
poder. A herança é muito antiga
e o seu primeiro sinal
emblemático está contido na
carta de Pero Vaz de Caminha,
nosso primeiro documento escrito,
ao dar notícia do descobrimento
do país ao rei de Portugal e, de
passagem, pedir um emprego para
um parente que se encontrava na
Ilha de São Tomé. É muito
difícil que o projeto contra
nomeação de parentes seja
aprovado, enquanto a opinião
pública não estiver convencida
de sua conveniência absoluta.