DEPRESSÃO
INFANTIL
Aumenta
índice de depressão entre
crianças brasileiraspor MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo
A depressão
infantil atinge 20% das crianças
brasileiras, ataca inclusive
bebês recém-nascidos e deixa
marcas profundas, que vão
interferir não só na infância,
mas também na adolescência e na
vida adulta. Estes dados
alarmantes são da Organização
Mundial de Saúde e foram
referendados pela Sociedade
Brasileira de Pediatria. Os
sinais da doença - entre eles,
apatia, insônia e comportamentos
autodestrutivos - passam às
vezes despercebidos dos pais e,
quando diagnosticados, deixam os
profissionais de saúde diante de
um dilema: usar ou não remédios
antidepressivos?
"Os
antidepressivos são indicados
apenas quando o esforço
familiar, a ajuda da escola e a
terapia não fazem a criança
melhorar. Estas drogas são
perigosas porque, dependendo da
idade, interferem na maturação
do cérebro e ainda não se
avaliaram os danos potenciais ao
sistema nervoso e cardiológico
da criança", adverte o
psiquiatra Salvador Célia,
presidente do Departamento de
Saúde Mental da Sociedade
Brasileira de Pediatria.
O aumento dos
casos de depressão em bebês,
crianças e adolescentes está
levando ao abuso de
antidepressivos, segundo o
psiquiatra Guilherme Toledo, do
Hospital Miguel Couto. Ele
denuncia que os laboratórios
acenam com drogas milagrosas, que
a propaganda apresenta como a
solução mais fácil para a
depressão.
"O uso
crescente de antidepressivos em
crianças e adolescentes nos
Estados Unidos têm forte
influência na prática
pediátrica no Brasil. Mas cabe
perguntar: Estão nossas
crianças precisando de tantos
antidepressivos ou o que nos
faltaria não seria uma reflexão
sobre nosso estilo de vida, que a
elas impõe um viver indesejado,
afastado dos direitos essenciais
ao prazer, à felicidade e à
proteção?", adverte Teresa
Costa, presidente da Sociedade de
Pediatria do Estado do Rio.
Como a
depressão que ataca crianças e
adolescentes surge nos primeiros
meses de vida, o psiquiatra
Salvador Célia explica que só
um trabalho preventivo de apoio
à gestante, para ajudá-la a
criar um vínculo afetivo com seu
bebê, pode reduzir estes
índices alarmantes."A
depressão do bebê decorre de
sua relação com a mãe, com o
ambiente familiar ou de problemas
genéticos. A mãe com depressão
pós-parto deprime também o
filho. Como 15% das mães têm
oficialmente depressão
pós-parto e 35% têm a doença
sob a forma mascarada, os bebês
com depressão podem chegar a
50%. Há estudos importantes,
como o da professora Linne
Murray, da Inglaterra,
comprovando que os bebês de
mães depressivas, dez anos
depois, tinham dificuldades de
aprendizado e de sociabilidade.
O psiquiatra
infantil Alfredo Castro Neto diz
que bebês manifestam depressão
com distúrbios de sono, de
alimentação ou apatia. A
criança tem problemas de
aprendizado e os adolescentes se
isolam, usam drogas e podem
chegar ao suicídio. "A
criança depressiva apresenta
comportamentos autodestrutivos,
que passam despercebidos. Muitos
acidentes na infância surgem de
estados depressivos. São
crianças que têm plena noção
do perigo quando se colocam
próximas a ele.
A psicanalista
Ruth Goldenberg, diretora do
Departamento de Psicologia da
Universidade Santa Úrsula,
adverte que o tratamento deve
começar por uma terapia.
"Recomendo a ludoterapia,
processo terapêutico
desenvolvido por Melanie Klein. O
tratamento é feito com
brinquedos, desenhos, modelagem e
pinturas. O objetivo é que a
criança recupere o interesse
pela vida, ao compreender, por
meio da linguagem infantil da
brincadeira, a causa de seu
sofrimento".
Ruth critica a
cultura de antidepressivos, agora
fabricados para crianças.
"Não adianta negar a dor
com pílulas mágicas. O que nos
torna melhores para a vida é
aprender que todos somos
limitados e que isto não nos
impede de realizar nossos
sonhos".