..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

DEPRESSÃO INFANTIL
Aumenta índice de depressão entre crianças brasileiras

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

A depressão infantil atinge 20% das crianças brasileiras, ataca inclusive bebês recém-nascidos e deixa marcas profundas, que vão interferir não só na infância, mas também na adolescência e na vida adulta. Estes dados alarmantes são da Organização Mundial de Saúde e foram referendados pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Os sinais da doença - entre eles, apatia, insônia e comportamentos autodestrutivos - passam às vezes despercebidos dos pais e, quando diagnosticados, deixam os profissionais de saúde diante de um dilema: usar ou não remédios antidepressivos?

"Os antidepressivos são indicados apenas quando o esforço familiar, a ajuda da escola e a terapia não fazem a criança melhorar. Estas drogas são perigosas porque, dependendo da idade, interferem na maturação do cérebro e ainda não se avaliaram os danos potenciais ao sistema nervoso e cardiológico da criança", adverte o psiquiatra Salvador Célia, presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade Brasileira de Pediatria.

O aumento dos casos de depressão em bebês, crianças e adolescentes está levando ao abuso de antidepressivos, segundo o psiquiatra Guilherme Toledo, do Hospital Miguel Couto. Ele denuncia que os laboratórios acenam com drogas milagrosas, que a propaganda apresenta como a solução mais fácil para a depressão.

"O uso crescente de antidepressivos em crianças e adolescentes nos Estados Unidos têm forte influência na prática pediátrica no Brasil. Mas cabe perguntar: Estão nossas crianças precisando de tantos antidepressivos ou o que nos faltaria não seria uma reflexão sobre nosso estilo de vida, que a elas impõe um viver indesejado, afastado dos direitos essenciais ao prazer, à felicidade e à proteção?", adverte Teresa Costa, presidente da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio.

Como a depressão que ataca crianças e adolescentes surge nos primeiros meses de vida, o psiquiatra Salvador Célia explica que só um trabalho preventivo de apoio à gestante, para ajudá-la a criar um vínculo afetivo com seu bebê, pode reduzir estes índices alarmantes."A depressão do bebê decorre de sua relação com a mãe, com o ambiente familiar ou de problemas genéticos. A mãe com depressão pós-parto deprime também o filho. Como 15% das mães têm oficialmente depressão pós-parto e 35% têm a doença sob a forma mascarada, os bebês com depressão podem chegar a 50%. Há estudos importantes, como o da professora Linne Murray, da Inglaterra, comprovando que os bebês de mães depressivas, dez anos depois, tinham dificuldades de aprendizado e de sociabilidade.

O psiquiatra infantil Alfredo Castro Neto diz que bebês manifestam depressão com distúrbios de sono, de alimentação ou apatia. A criança tem problemas de aprendizado e os adolescentes se isolam, usam drogas e podem chegar ao suicídio. "A criança depressiva apresenta comportamentos autodestrutivos, que passam despercebidos. Muitos acidentes na infância surgem de estados depressivos. São crianças que têm plena noção do perigo quando se colocam próximas a ele.

A psicanalista Ruth Goldenberg, diretora do Departamento de Psicologia da Universidade Santa Úrsula, adverte que o tratamento deve começar por uma terapia. "Recomendo a ludoterapia, processo terapêutico desenvolvido por Melanie Klein. O tratamento é feito com brinquedos, desenhos, modelagem e pinturas. O objetivo é que a criança recupere o interesse pela vida, ao compreender, por meio da linguagem infantil da brincadeira, a causa de seu sofrimento".

Ruth critica a cultura de antidepressivos, agora fabricados para crianças. "Não adianta negar a dor com pílulas mágicas. O que nos torna melhores para a vida é aprender que todos somos limitados e que isto não nos impede de realizar nossos sonhos".


     

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