DEPRESSÃO
INFANTIL II
Há
tratamento para bebês deprimidosO professor Salvador
Célia, com o apoio da Unesco e
dos cientistas suíços Bertrand
Cramer e Daniel Stern, realiza
há três anos no Rio Grande do
Sul dois projetos pioneiros de
prevenção à depressão
infantil. O primeiro determina
que cada novo aluno da Faculdade
Luterana de Medicina de Porto
Alegre adote uma gestante e a
acompanhe até o fim do curso.
"A idéia é transformar o
aluno num agente de saúde. Já
temos 250 mães e bebês em
acompanhamento. Foi possível
tratar muitos casos de depressão
pós-parto e evitar que as mães
perdessem os vínculos afetivos
com os filhos".
Este trabalho
permitiu que Salvador Célia e
seus alunos criassem uma escala
de relacionamentos entre mãe e
filho que já identifica, pelos
sintomas do bebê e pelas queixas
da mãe, os que apresentam
provável depressão.
"Aplicamos esta escala
durante duas campanhas de
vacinação na cidade de Canela.
Foram entrevistadas 600 mães com
bebês em dois anos de
vacinação e, entre elas,
identificamos 10% com prováveis
problemas de depressão",
diz.
Estas 60 mães
com seus bebês foram
encaminhadas para a Saúde
Pública de Canela, onde poderão
receber atendimento de médicos,
assistentes sociais e terapeutas.
Salvador Célia considera
fundamental o trabalho
preventivo, porque o cérebro da
criança se desenvolve nos três
primeiros anos de vida e, para
tanto, ele precisa de contato com
a mãe. "A criança nasce
para se comunicar com a mãe. Se
esta mãe está deprimida,
ausente, o bebê se deprime e
não se desenvolve como
deveria", explica.
A falta de
vínculo com a mãe poderá
desencadear estados depressivos
ao longo da vida, especialmente
na adolescência, onde o
suicídio, segundo dados da
Sociedade Brasileira de
Pediatria, é a segunda causa da
morte. "A primeira causa
são os acidentes em geral, mas o
suicídio vem em segundo aqui no
Brasil e em muitos outros países
do mundo. Nos Estados Unidos,
cerca de 30% das consultas
psicológicas de crianças são
casos de depressão. O médico
americano Leon Cytrin fez um
levantamento estatístico que
calcula em três milhões o
número de crianças deprimidas
não diagnosticadas", diz
Salvador Célia.
A depressão
ataca na pré-escola, quando a
criança apresenta distúrbios de
fala, dificuldade para comer ou
chora à toa. Para a psicanalista
Bruna Carvalho, esta criança
está dizendo que precisa de
amparo e não o encontra em sua
mãe. Este potencial depressivo
poderá se manifestar a cada
perda ou sofrimento ao longo da
vida da criança. "A
mudança de escola, a saída de
uma babá ou a separação dos
pais causa uma tristeza natural
nas crianças saudáveis. Mas,
nas crianças depressivas, estes
acontecimentos podem desencadear
problemas mais graves",
alerta.
Já o
psicanalista Giovanni Gangemi
desenvolveu, ao longo de seus 40
anos de clínica, uma concepção
própria sobre as conseqüências
na vida adulta do estado
depressivo do primeiro ano de
vida. Para ele, a psicopatia que
ataca a sociedade contemporânea
decorre deste vazio melancólico
criado no bebê por falta de
vínculo com sua mãe. (M.C.)