..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

DEPRESSÃO INFANTIL II
Há tratamento para bebês deprimidos

O professor Salvador Célia, com o apoio da Unesco e dos cientistas suíços Bertrand Cramer e Daniel Stern, realiza há três anos no Rio Grande do Sul dois projetos pioneiros de prevenção à depressão infantil. O primeiro determina que cada novo aluno da Faculdade Luterana de Medicina de Porto Alegre adote uma gestante e a acompanhe até o fim do curso. "A idéia é transformar o aluno num agente de saúde. Já temos 250 mães e bebês em acompanhamento. Foi possível tratar muitos casos de depressão pós-parto e evitar que as mães perdessem os vínculos afetivos com os filhos".

Este trabalho permitiu que Salvador Célia e seus alunos criassem uma escala de relacionamentos entre mãe e filho que já identifica, pelos sintomas do bebê e pelas queixas da mãe, os que apresentam provável depressão. "Aplicamos esta escala durante duas campanhas de vacinação na cidade de Canela. Foram entrevistadas 600 mães com bebês em dois anos de vacinação e, entre elas, identificamos 10% com prováveis problemas de depressão", diz.

Estas 60 mães com seus bebês foram encaminhadas para a Saúde Pública de Canela, onde poderão receber atendimento de médicos, assistentes sociais e terapeutas. Salvador Célia considera fundamental o trabalho preventivo, porque o cérebro da criança se desenvolve nos três primeiros anos de vida e, para tanto, ele precisa de contato com a mãe. "A criança nasce para se comunicar com a mãe. Se esta mãe está deprimida, ausente, o bebê se deprime e não se desenvolve como deveria", explica.

A falta de vínculo com a mãe poderá desencadear estados depressivos ao longo da vida, especialmente na adolescência, onde o suicídio, segundo dados da Sociedade Brasileira de Pediatria, é a segunda causa da morte. "A primeira causa são os acidentes em geral, mas o suicídio vem em segundo aqui no Brasil e em muitos outros países do mundo. Nos Estados Unidos, cerca de 30% das consultas psicológicas de crianças são casos de depressão. O médico americano Leon Cytrin fez um levantamento estatístico que calcula em três milhões o número de crianças deprimidas não diagnosticadas", diz Salvador Célia.

A depressão ataca na pré-escola, quando a criança apresenta distúrbios de fala, dificuldade para comer ou chora à toa. Para a psicanalista Bruna Carvalho, esta criança está dizendo que precisa de amparo e não o encontra em sua mãe. Este potencial depressivo poderá se manifestar a cada perda ou sofrimento ao longo da vida da criança. "A mudança de escola, a saída de uma babá ou a separação dos pais causa uma tristeza natural nas crianças saudáveis. Mas, nas crianças depressivas, estes acontecimentos podem desencadear problemas mais graves", alerta.

Já o psicanalista Giovanni Gangemi desenvolveu, ao longo de seus 40 anos de clínica, uma concepção própria sobre as conseqüências na vida adulta do estado depressivo do primeiro ano de vida. Para ele, a psicopatia que ataca a sociedade contemporânea decorre deste vazio melancólico criado no bebê por falta de vínculo com sua mãe. (M.C.)


     

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes