CORPO
Os altos
riscos da ginástica malfeitaO que é melhor para a
saúde: a corrida rápida e
intensa ou uma outra, longa e
vagarosa? Poucos exercícios com
muito peso ou muitos exercícios
com pouco peso? A polêmica entre
professores de ginástica levou
um deles, Paulo Malta, da
academia Pró-Forma (do Rio de
Janeiro), à busca da aula
perfeita, tema que vem
desenvolvendo em sua tese de
mestrado. Ele vai medir perdas de
gordura e ganhos de massa e
resistência muscular em alunos
de quatro professores famosos do
Rio que têm programas de
exercícios bem distintos para
definir qual seria a quantidade
de exercício ideal para se obter
o máximo em matéria de
condicionamento físico.
"As
pesquisas científicas já
derrubaram vários mitos, entre
eles, o benefício do excesso de
repetições, como exercícios de
cem a 150 flexões. Hoje, sabemos
que o uso de sobrecargas de peso,
antes criticado, produz melhor
efeito com menor número de
repetições. Quero adaptar estas
pesquisas internacionais às
aulas brasileiras, porque, para
mim, a educação física vai ser
a ciência do Terceiro Milênio,
que estará todo voltado para o
bem-estar",explica.
As últimas
recomendações do American
College of Sports Medicine
(ACSM), um dos melhores centros
de orientação para a prática
de exercícios, indicam que o
melhor exercício é o que se
adapta às condições físicas
de cada um. Mas a meta deve ser
comum a todos: melhor
condicionamento
cardiorrespiratório, força e
resistência muscular. O caminho
será sempre individual e uma
corrida curta de alta intensidade
pode produzir idêntico resultado
de outra corrida longa, de baixa
intensidade.
"A
duração do exercício aeróbico
deve variar de 20 a 60 minutos. A
intensidade depende da duração.
Um exercício de alta intensidade
deve durar 20 minutos ou pouco
mais. Os de baixa intensidade
podem ultrapassar 30 minutos.
Como o melhor condicionamento é
alcançado rapidamente com
exercícios de longa duração e
há lesões e acidentes
relacionados às atividades de
alta intensidade, recomendamos
intensidade moderada", diz
Michael Pollock, diretor do ACSM.
Outras
recomendações do especialista
causam controvérsia em academias
brasileiras. São as séries de
exercícios com oito a dez
repetições e intervalos entre
elas, numa freqüência de duas a
três vezes por semana.
FREQÜÊNCIA
- O médico Cláudio Gil
Araújo, professor de medicina do
exercício da UFRJ, diz que a
freqüência ideal é a que
envolve a maioria dos dias da
semana, ou seja, de quatro a
sete, e a corrida pode ser feita
até por gestantes. "É mais
perigoso não fazer exercícios
do que fazê-los. A dose ideal,
como os remédios, é individual.
O maior problema que vejo hoje é
que todos buscam as academias
para fazer musculação e se
esquecem de fazer um mínimo de
trabalho aeróbico, que é muito
importante, e alongamento para a
flexibilidade muscular".
Já a
sobrecarga de peso nos halteres e
nas caneleiras, agora recomendada
pela ACSM, em vez do elevado
número de repetições sem
pesos, consagra professores
criticados há décadas por seus
métodos, entre eles, Manoel
Simões, famoso por ter alunas
esculturais que fazem exercícios
de glúteos com 20 quilos em cada
perna ou de braços com halteres
de dez quilos cada. As
condenações foram tantas que
Simões expulsou todos os
professores de ginástica de suas
academias.
INICIANTES
- O professor carioca
Cesar Parcias esclarece que estas
recomendações da ACSM sobre
número de repetições
referem-se especialmente aos
exercícios de musculação para
adultos que vão começar um
programa. "Evidentemente,
isto não se aplica às aulas de
ginástica localizada que dou
para alunas que são praticamente
atletas. Minhas alunas fazem uma
hora de aula por dia, uma hora de
musculação, uma hora de
exercícios aeróbicos, além de
alongamentos. Têm
condicionamento físico de
atletas, embora não participem
de competições. Respeito as
pesquisas, as teorias ajudam
muito, mas não se pode levar
tudo ao pé da letra. Porque a
ginástica é apoiada na ciência
médica e esta evolui a cada dia.
É preciso acompanhar as
transformações sem
radicalização. Minha aula de 15
anos atrás, por exemplo, é
completamente diferente da de
hoje", defende.
Já Paulo Malta
esclarece que a ACSM apenas
constatou que o pequeno número
de repetições com maior peso
traz mais benefícios do que
muitas repetições com pouco
peso. "Este é o resultado
de uma pesquisa científica. O
sujeito que faz 25 roscas para o
bíceps com peso de dez quilos
obtém mais resultado do que o
que faz 50 roscas com peso de
cinco quilos. É uma
constatação que deve servir
para aprimorar o aproveitamento
do aluno e para que ele não
perca tempo na academia".
Polêmica à
parte, os professores de
ginástica já identificaram em
suas academias perfis de alunos
com padrões de comportamento
comprovadamente nocivos à
saúde. As adolescentes
anoréxicas, por exemplo - que
passam seis horas numa academia,
não comem e se acham gordas -
estão pondo em risco a própria
vida, sem compensar o desgaste
físico com a nutrição.
RISCO -
Há os alunos que comem já
pensando na quantidade de
exercícios que vão fazer no dia
seguinte para queimar estas
calorias. Se ataca uma caixa de
bombom, deve ficar, no mínimo,
duas horas na esteira para perder
1.700 calorias. "O aluno
precisa aprender que 65% da boa
forma vêm da alimentação e
35%, da atividade física. Logo,
não adianta passar o dia na
academia. É melhor procurar um
médico e um nutricionista para
evitar problemas futuros de
osteoporose e perda de massa
magra. Do contrário, ficarão
deprimidos, porque jamais
alcançarão seu objetivo",
adverte Malta.
Há os alunos
que chegam sempre atrasados,
perdem o aquecimento inicial e se
arriscam a lesões nas
articulações. Há os
exagerados, que se alimentam bem,
mas fazem exercícios em
excessos. "É o chamado
overtraining, que poderá sofrer
de insônia, mau humor e
impotência sexual", disse
Malta.
O que é ponto
pacífico entre os professores de
ginástica é que o exercício
ideal é individualizado,
respeitando as limitações e as
aptidões de cada aluno. A melhor
recomendação que se poderia dar
a um aluno é que procure a
orientação de um bom professor.
Trata-se de uma procura difícil,
já que a regulamentação
profissional foi recentemente
aprovada pelo Congresso Nacional,
depois de 17 anos de
reivindicações da classe.
"A regulamentação é um
começo para profissionalizar o
trabalho. Conheço muita gente
que trabalha em academias que
não é formada. Os alunos
também têm que se conscientizar
para procurar um orientador
capaz", diz Parcias.
CLASSIFICAÇÃO
- O médico Gil de Araújo,
que também preside o
Departamento de Ergometria da
Sociedade Brasileira de
Cardiologia, anunciou que, a
exemplo dos levantamentos feitos
pela ACSM sobre as academias
qualificadas para receber
determinados tipos de aluno, a
Sociedade Brasileira de
Cardiologia vai classificar, a
partir de 1999, academias do
Brasil inteiro quanto aos
serviços que podem prestar.
"O que vemos hoje é o
paciente pedir ao cardiologista a
indicação de uma academia. E,
na verdade, os médicos não
sabem o que dizer, porque não
conhecem as academias. Um sujeito
saudável pode andar à vontade
no calçadão. Um
recém-infartado só pode se
exercitar com supervisão. Entre
o primeiro e o segundo caso está
uma legião de pessoas que devem
procurar a academia certa".
O médico
informa, ainda, que as academias
receberão classificações
segundo o tipo de profissional e
a sofisticação de seus
equipamentos. Uma academia que
tiver, por exemplo, um professor
treinado em ressuscitação
cardiopulmonar, balões de
oxigênio e números de
emergência para acionar um
pronto-socorro cardíaco terá um
selo da Sociedade Brasileira de
Cardiologia e será indicada para
pacientes de risco.