..............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

CORPO
Os altos riscos da ginástica malfeita

O que é melhor para a saúde: a corrida rápida e intensa ou uma outra, longa e vagarosa? Poucos exercícios com muito peso ou muitos exercícios com pouco peso? A polêmica entre professores de ginástica levou um deles, Paulo Malta, da academia Pró-Forma (do Rio de Janeiro), à busca da aula perfeita, tema que vem desenvolvendo em sua tese de mestrado. Ele vai medir perdas de gordura e ganhos de massa e resistência muscular em alunos de quatro professores famosos do Rio que têm programas de exercícios bem distintos para definir qual seria a quantidade de exercício ideal para se obter o máximo em matéria de condicionamento físico.

"As pesquisas científicas já derrubaram vários mitos, entre eles, o benefício do excesso de repetições, como exercícios de cem a 150 flexões. Hoje, sabemos que o uso de sobrecargas de peso, antes criticado, produz melhor efeito com menor número de repetições. Quero adaptar estas pesquisas internacionais às aulas brasileiras, porque, para mim, a educação física vai ser a ciência do Terceiro Milênio, que estará todo voltado para o bem-estar",explica.

As últimas recomendações do American College of Sports Medicine (ACSM), um dos melhores centros de orientação para a prática de exercícios, indicam que o melhor exercício é o que se adapta às condições físicas de cada um. Mas a meta deve ser comum a todos: melhor condicionamento cardiorrespiratório, força e resistência muscular. O caminho será sempre individual e uma corrida curta de alta intensidade pode produzir idêntico resultado de outra corrida longa, de baixa intensidade.

"A duração do exercício aeróbico deve variar de 20 a 60 minutos. A intensidade depende da duração. Um exercício de alta intensidade deve durar 20 minutos ou pouco mais. Os de baixa intensidade podem ultrapassar 30 minutos. Como o melhor condicionamento é alcançado rapidamente com exercícios de longa duração e há lesões e acidentes relacionados às atividades de alta intensidade, recomendamos intensidade moderada", diz Michael Pollock, diretor do ACSM.

Outras recomendações do especialista causam controvérsia em academias brasileiras. São as séries de exercícios com oito a dez repetições e intervalos entre elas, numa freqüência de duas a três vezes por semana.

FREQÜÊNCIA - O médico Cláudio Gil Araújo, professor de medicina do exercício da UFRJ, diz que a freqüência ideal é a que envolve a maioria dos dias da semana, ou seja, de quatro a sete, e a corrida pode ser feita até por gestantes. "É mais perigoso não fazer exercícios do que fazê-los. A dose ideal, como os remédios, é individual. O maior problema que vejo hoje é que todos buscam as academias para fazer musculação e se esquecem de fazer um mínimo de trabalho aeróbico, que é muito importante, e alongamento para a flexibilidade muscular".

Já a sobrecarga de peso nos halteres e nas caneleiras, agora recomendada pela ACSM, em vez do elevado número de repetições sem pesos, consagra professores criticados há décadas por seus métodos, entre eles, Manoel Simões, famoso por ter alunas esculturais que fazem exercícios de glúteos com 20 quilos em cada perna ou de braços com halteres de dez quilos cada. As condenações foram tantas que Simões expulsou todos os professores de ginástica de suas academias.

INICIANTES - O professor carioca Cesar Parcias esclarece que estas recomendações da ACSM sobre número de repetições referem-se especialmente aos exercícios de musculação para adultos que vão começar um programa. "Evidentemente, isto não se aplica às aulas de ginástica localizada que dou para alunas que são praticamente atletas. Minhas alunas fazem uma hora de aula por dia, uma hora de musculação, uma hora de exercícios aeróbicos, além de alongamentos. Têm condicionamento físico de atletas, embora não participem de competições. Respeito as pesquisas, as teorias ajudam muito, mas não se pode levar tudo ao pé da letra. Porque a ginástica é apoiada na ciência médica e esta evolui a cada dia. É preciso acompanhar as transformações sem radicalização. Minha aula de 15 anos atrás, por exemplo, é completamente diferente da de hoje", defende.

Já Paulo Malta esclarece que a ACSM apenas constatou que o pequeno número de repetições com maior peso traz mais benefícios do que muitas repetições com pouco peso. "Este é o resultado de uma pesquisa científica. O sujeito que faz 25 roscas para o bíceps com peso de dez quilos obtém mais resultado do que o que faz 50 roscas com peso de cinco quilos. É uma constatação que deve servir para aprimorar o aproveitamento do aluno e para que ele não perca tempo na academia".

Polêmica à parte, os professores de ginástica já identificaram em suas academias perfis de alunos com padrões de comportamento comprovadamente nocivos à saúde. As adolescentes anoréxicas, por exemplo - que passam seis horas numa academia, não comem e se acham gordas - estão pondo em risco a própria vida, sem compensar o desgaste físico com a nutrição.

RISCO - Há os alunos que comem já pensando na quantidade de exercícios que vão fazer no dia seguinte para queimar estas calorias. Se ataca uma caixa de bombom, deve ficar, no mínimo, duas horas na esteira para perder 1.700 calorias. "O aluno precisa aprender que 65% da boa forma vêm da alimentação e 35%, da atividade física. Logo, não adianta passar o dia na academia. É melhor procurar um médico e um nutricionista para evitar problemas futuros de osteoporose e perda de massa magra. Do contrário, ficarão deprimidos, porque jamais alcançarão seu objetivo", adverte Malta.

Há os alunos que chegam sempre atrasados, perdem o aquecimento inicial e se arriscam a lesões nas articulações. Há os exagerados, que se alimentam bem, mas fazem exercícios em excessos. "É o chamado overtraining, que poderá sofrer de insônia, mau humor e impotência sexual", disse Malta.

O que é ponto pacífico entre os professores de ginástica é que o exercício ideal é individualizado, respeitando as limitações e as aptidões de cada aluno. A melhor recomendação que se poderia dar a um aluno é que procure a orientação de um bom professor. Trata-se de uma procura difícil, já que a regulamentação profissional foi recentemente aprovada pelo Congresso Nacional, depois de 17 anos de reivindicações da classe. "A regulamentação é um começo para profissionalizar o trabalho. Conheço muita gente que trabalha em academias que não é formada. Os alunos também têm que se conscientizar para procurar um orientador capaz", diz Parcias.

CLASSIFICAÇÃO - O médico Gil de Araújo, que também preside o Departamento de Ergometria da Sociedade Brasileira de Cardiologia, anunciou que, a exemplo dos levantamentos feitos pela ACSM sobre as academias qualificadas para receber determinados tipos de aluno, a Sociedade Brasileira de Cardiologia vai classificar, a partir de 1999, academias do Brasil inteiro quanto aos serviços que podem prestar. "O que vemos hoje é o paciente pedir ao cardiologista a indicação de uma academia. E, na verdade, os médicos não sabem o que dizer, porque não conhecem as academias. Um sujeito saudável pode andar à vontade no calçadão. Um recém-infartado só pode se exercitar com supervisão. Entre o primeiro e o segundo caso está uma legião de pessoas que devem procurar a academia certa".

O médico informa, ainda, que as academias receberão classificações segundo o tipo de profissional e a sofisticação de seus equipamentos. Uma academia que tiver, por exemplo, um professor treinado em ressuscitação cardiopulmonar, balões de oxigênio e números de emergência para acionar um pronto-socorro cardíaco terá um selo da Sociedade Brasileira de Cardiologia e será indicada para pacientes de risco.


     

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