DEMOCRACIA
Ex-golpista
Hugo Chávez eleito novo
presidente da VenezuelaCARACAS - O
ex-tenente-coronel Hugo Chávez,
líder da fracassada tentativa de
golpe de fevereiro de 1992 contra
o então presidente venezuelano,
Carlos Andrés Pérez, atingiu
ontem, pelo voto, seu objetivo de
chegar ao poder na Venezuela,
segundo indicaram várias
pesquisas de boca-de-urna,
divulgadas logo depois do
encerramento da votação e que
lhe dão 57% dos votos.
Ele venceu o
economista e ex-governador do
Estado de Carabobo (centro do
país) Henrique Salas Romer, que
inscreveu-se na corrida
presidencial como independente,
mas, ao longo da campanha, foi
aglutinando todas as forças
políticas tradicionais
venezuelanas, desesperadas com a
possibilidade de Chávez chegar
à presidência.
Apesar da
tensão que marcou as últimas
semanas da campanha eleitoral, a
votação transcorreu em clima de
tranqüilidade. Cerca de 300
observadores internacionais,
incluindo o ex-presidente
americano Jimmy Carter,
acompanharam a eleição
venezuelana.
Diante das
acusações mútuas entre Chávez
e Salas, o presidente
venezuelano, Rafael Caldera,
pediu calma à população,
assegurando que as Forças
Armadas do país estavam prontas
para garantir o resultado das
urnas. Ele também fez um apelo
para que todos os quase 11
milhões de eleitores
comparecessem à votação.
Salas Romer,
que durante a votação afirmou
que vencia "em todas as
regiões do país", voltou a
declarar ontem que Chávez estava
distribuindo armas aos seus
partidários com o objetivo de
provocar uma onda de violência
caso perdesse a eleição.
Antes de votar,
em Valência, a 100 quilômetros
de Caracas, ele disse que se
sentia "alegre" porque
os eleitores estavam votando
maciçamente e demonstrando
querer uma mudança democrática
e não "uma mudança com
balas", em referência às
supostas intenções de
violência de seu rival.
"Condeno desde já qualquer
chamado para que se desconheça a
vontade popular", declarou.
O ex-militar
golpista, por sua vez, acusou
Salas de ter planejado - com a
ajuda dos "políticos
corruptos que o apóiam" -
uma seqüência de fraudes
destinada a modificar o resultado
eleitoral.
Ao comparecer
para votar num distrito de
Caracas, no entanto, Chávez
moderou seu discurso, pedindo a
seus partidários que
comemorassem sua vitória
"sem excessos e sem
provocações" aos eleitores
de Salas. "Está nascendo
hoje uma nova Venezuela; nosso
povo está para recuperar a
confiança e a fé num sistema
que deve ser democrático de
verdade", discursou o
ex-tenente-coronel.
Depois de ter
passado oito meses na prisão por
causa da tentativa de golpe a
primeira das duas sangrentas
rebeliões militares enfrentadas
por Andrés Pérez em 1992 ,
Chávez lançou-se à corrida
presidencial apoiado por antigos
membros de seu Movimento
Bolivariano 2000 e por pequenos
partidos de esquerda, seduzidos
pelo discurso anticorrupção e
antipobreza do candidatato.
A populista
plataforma política do
presidente eleito prevê a
paralisação do processo de
privatização das companhias
estatais do país entre as quais,
as petrolíferas, que administram
as mais ricas reservas de
petróleo fora do Oriente Médio.
Em contraste
com a prosperidade sem
precedentes do país durante a
crise do petróleo, mais da
metade da população venezuelana
vive hoje em situação de
pobreza. Durante a campanha
eleitoral, Chávez acusou os dois
mais tradicionais partidos do
país, a Ação Democrática (AD)
e o Comitê de Organização
Político-Eleitoral Independente
(Copei) - que se alternaram no
poder por 40 anos -, pelo
empobrecimento da Venezuela.