- -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 07 de dezembro de 1998

DEMOCRACIA
Ex-golpista Hugo Chávez eleito novo presidente da Venezuela

CARACAS - O ex-tenente-coronel Hugo Chávez, líder da fracassada tentativa de golpe de fevereiro de 1992 contra o então presidente venezuelano, Carlos Andrés Pérez, atingiu ontem, pelo voto, seu objetivo de chegar ao poder na Venezuela, segundo indicaram várias pesquisas de boca-de-urna, divulgadas logo depois do encerramento da votação e que lhe dão 57% dos votos.

Ele venceu o economista e ex-governador do Estado de Carabobo (centro do país) Henrique Salas Romer, que inscreveu-se na corrida presidencial como independente, mas, ao longo da campanha, foi aglutinando todas as forças políticas tradicionais venezuelanas, desesperadas com a possibilidade de Chávez chegar à presidência.

Apesar da tensão que marcou as últimas semanas da campanha eleitoral, a votação transcorreu em clima de tranqüilidade. Cerca de 300 observadores internacionais, incluindo o ex-presidente americano Jimmy Carter, acompanharam a eleição venezuelana.

Diante das acusações mútuas entre Chávez e Salas, o presidente venezuelano, Rafael Caldera, pediu calma à população, assegurando que as Forças Armadas do país estavam prontas para garantir o resultado das urnas. Ele também fez um apelo para que todos os quase 11 milhões de eleitores comparecessem à votação.

Salas Romer, que durante a votação afirmou que vencia "em todas as regiões do país", voltou a declarar ontem que Chávez estava distribuindo armas aos seus partidários com o objetivo de provocar uma onda de violência caso perdesse a eleição.

Antes de votar, em Valência, a 100 quilômetros de Caracas, ele disse que se sentia "alegre" porque os eleitores estavam votando maciçamente e demonstrando querer uma mudança democrática e não "uma mudança com balas", em referência às supostas intenções de violência de seu rival. "Condeno desde já qualquer chamado para que se desconheça a vontade popular", declarou.

O ex-militar golpista, por sua vez, acusou Salas de ter planejado - com a ajuda dos "políticos corruptos que o apóiam" - uma seqüência de fraudes destinada a modificar o resultado eleitoral.

Ao comparecer para votar num distrito de Caracas, no entanto, Chávez moderou seu discurso, pedindo a seus partidários que comemorassem sua vitória "sem excessos e sem provocações" aos eleitores de Salas. "Está nascendo hoje uma nova Venezuela; nosso povo está para recuperar a confiança e a fé num sistema que deve ser democrático de verdade", discursou o ex-tenente-coronel.

Depois de ter passado oito meses na prisão por causa da tentativa de golpe a primeira das duas sangrentas rebeliões militares enfrentadas por Andrés Pérez em 1992 , Chávez lançou-se à corrida presidencial apoiado por antigos membros de seu Movimento Bolivariano 2000 e por pequenos partidos de esquerda, seduzidos pelo discurso anticorrupção e antipobreza do candidatato.

A populista plataforma política do presidente eleito prevê a paralisação do processo de privatização das companhias estatais do país entre as quais, as petrolíferas, que administram as mais ricas reservas de petróleo fora do Oriente Médio.

Em contraste com a prosperidade sem precedentes do país durante a crise do petróleo, mais da metade da população venezuelana vive hoje em situação de pobreza. Durante a campanha eleitoral, Chávez acusou os dois mais tradicionais partidos do país, a Ação Democrática (AD) e o Comitê de Organização Político-Eleitoral Independente (Copei) - que se alternaram no poder por 40 anos -, pelo empobrecimento da Venezuela.

 
 
 

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