MISÉRIA
Minicanavieiro
não quer irmãos com fomepor DANIEL OLIVEIRA
Correspondente
MACAPARANA -
O menor Adriano Severino, 14
anos, é um dos muitos garotos
nordestinos que encaram o
sacrifício de ajudar o pai no
corte de cana para aumentar a
renda da família. Ele é o mais
velho entre os cinco filhos do
casal Severino Trajano da Silva,
35, e Maria das Dores da
Conceição Silva, 32, ambos
analfabetos, residentes no
Engenho Limão, neste município.
Sua tarefa começa por volta das
7h, quando vai até o canavial
levar o café da manhã para o
pai. O garoto ajuda Trajano até
as 14h e juntos cortam uma quadra
e meia de cana por dia, que lhes
garante um ganho de R$ 7,50 por
dia. Adriano recebe do pai no
final de semana R$ 5,00, que
gasta com lanche durante os
recreios da Escola Moura
Cavalcanti, no centro de
Macaparana, onde cursa a 3ª
série à noite.
A mãe de
Adriano conta que está tentando
cadastrar a família no programa
do Governo Federal (nomeado em
Pernambuco de Mão Amiga)
através do Sindicato dos
Trabalhadores Rurais de
Macaparana. Ela reclama que falta
informação sobre as formas de
acesso ao programa. "A gente
vive aqui de ouvir dizer",
lamenta. Ela acredita que para
conseguir ser incluída no Mão
Amiga terá que fazer plantão
diário no sindicato. Alguns dos
seu vizinhos já são
beneficiados pelo programa que
paga bolsas entre R$ 50,00 e
150,00, a depender da quantidade
de filhos das famílias
inscriatas. "O sonho de todo
pai é dar o melhor para o filho,
coisa que o canavieiro nunca pode
fazer", desabafou.
Adriano tenta
escapar da situação de penúria
se esforçando para freqüentar a
escola, que fica a cinco
quilômetros do local onde mora.
"Não quero continuar
cortador de cana como o meu pai e
meu avô". Ele sonha um dia
ser motorista. "Na cabine de
um caminhão eu quero viajar pelo
mundo", fantasia. Ele diz o
fato de não ter tempo para
brincar não lhe preocupa.
"Eu só não quero ver meus
irmãos menores passarem fome
como já passei", relata. O
menino diz que não há outra
opção senão trabalhar para
ajudar a família. "O que
você faria no meu lugar?",
questionou, ao lembrar que
cortador de cana só conta com
três meses de trabalho por ano.
"É nesse período que
agente arruma pelo menos o que
comer".