-- - - - - - - -- - - - - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

MISÉRIA

Minicanavieiro não quer irmãos com fome

por DANIEL OLIVEIRA
Correspondente

MACAPARANA - O menor Adriano Severino, 14 anos, é um dos muitos garotos nordestinos que encaram o sacrifício de ajudar o pai no corte de cana para aumentar a renda da família. Ele é o mais velho entre os cinco filhos do casal Severino Trajano da Silva, 35, e Maria das Dores da Conceição Silva, 32, ambos analfabetos, residentes no Engenho Limão, neste município. Sua tarefa começa por volta das 7h, quando vai até o canavial levar o café da manhã para o pai. O garoto ajuda Trajano até as 14h e juntos cortam uma quadra e meia de cana por dia, que lhes garante um ganho de R$ 7,50 por dia. Adriano recebe do pai no final de semana R$ 5,00, que gasta com lanche durante os recreios da Escola Moura Cavalcanti, no centro de Macaparana, onde cursa a 3ª série à noite.

A mãe de Adriano conta que está tentando cadastrar a família no programa do Governo Federal (nomeado em Pernambuco de Mão Amiga) através do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Macaparana. Ela reclama que falta informação sobre as formas de acesso ao programa. "A gente vive aqui de ouvir dizer", lamenta. Ela acredita que para conseguir ser incluída no Mão Amiga terá que fazer plantão diário no sindicato. Alguns dos seu vizinhos já são beneficiados pelo programa que paga bolsas entre R$ 50,00 e 150,00, a depender da quantidade de filhos das famílias inscriatas. "O sonho de todo pai é dar o melhor para o filho, coisa que o canavieiro nunca pode fazer", desabafou.

Adriano tenta escapar da situação de penúria se esforçando para freqüentar a escola, que fica a cinco quilômetros do local onde mora. "Não quero continuar cortador de cana como o meu pai e meu avô". Ele sonha um dia ser motorista. "Na cabine de um caminhão eu quero viajar pelo mundo", fantasia. Ele diz o fato de não ter tempo para brincar não lhe preocupa. "Eu só não quero ver meus irmãos menores passarem fome como já passei", relata. O menino diz que não há outra opção senão trabalhar para ajudar a família. "O que você faria no meu lugar?", questionou, ao lembrar que cortador de cana só conta com três meses de trabalho por ano. "É nesse período que agente arruma pelo menos o que comer".


     

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