-- - - - - - - -- - - - - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

MISÉRIA II

Menor trabalha em casa de farinha até ficar esgotado

por RICARDO PERRIER
Da Sucursal de Caruaru

JUPI - Com apenas 12 anos de idade, a rotina de Reginaldo Romão da Silva é estafante. Por volta das 5h, ele já está de pé. Ao invés de ir para escola, ele segue para o trabalho numa casa de farinha localizada às margens da BR-423, onde passa o dia raspando mandioca. Sem horário fixo para largar - que varia de acordo com sua disposição para descascar mandioca - ele só volta para casa quando não têm mais forças para continuar o serviço. O menino trabalha no local há três anos e é analfabeto.

Reginaldo inicialmente ajudava a mãe, que hoje tem que ficar em casa cuidado do irmão mais novo, nascido há um mês. O pai dele trabalha na frente de emergência, onde recebe R$ 80,00 por mês. Apesar da grande disposição que diz ter para o trabalho, o garoto admitiu que já se deixou derrotar pelo cansaço. "Quando me mandaram peneirar a farinha, não passei mais de duas semanas, pois trabalhava até tarde da noite e não agüentava o cansaço", contou. Nesse setor - que a maioria dos proprietários de casas de farinha garantem ser restrito aos adultos - além da temperatura ultrapassar os 40 graus por conta da existência dos fornos, os trabalhadores são obrigados a respirar o pó de farinha e conviver com o forte cheiro da manipueira (subproduto da raspa da mandioca).

Quando há muito serviço o menor chega a tirar R$ 15,00 por semana. No entanto, ele relata que raramente consegue obter esta quantia, recebendo normalmente R$ 7,00 por semana. "Se eu estivesse em Neves, em Jucati, estaria ganhando mais, pois eles pagam um pouco melhor", revelou. Reginaldo garante que não está arrependido de ter trocado a escola pelo trabalho. "É melhor trabalhar e poder se vestir do que estar numa escola que não dá nenhum retorno". Metade do que ganha é entregue à mãe para ajudar na alimentação dos seus quatro irmãos.

Quanto ao fato da Justiça impedir o acesso de menores ao trabalho, ele acha um "grande erro". "Eles não vão nos dar dinheiro, comida ou roupa. Por isso temos que continuar trabalhando".


     

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