MISÉRIA II
Menor
trabalha em casa de farinha até
ficar esgotadopor RICARDO PERRIER
Da Sucursal de Caruaru
JUPI -
Com apenas 12 anos de idade, a
rotina de Reginaldo Romão da
Silva é estafante. Por volta das
5h, ele já está de pé. Ao
invés de ir para escola, ele
segue para o trabalho numa casa
de farinha localizada às margens
da BR-423, onde passa o dia
raspando mandioca. Sem horário
fixo para largar - que varia de
acordo com sua disposição para
descascar mandioca - ele só
volta para casa quando não têm
mais forças para continuar o
serviço. O menino trabalha no
local há três anos e é
analfabeto.
Reginaldo
inicialmente ajudava a mãe, que
hoje tem que ficar em casa
cuidado do irmão mais novo,
nascido há um mês. O pai dele
trabalha na frente de
emergência, onde recebe R$ 80,00
por mês. Apesar da grande
disposição que diz ter para o
trabalho, o garoto admitiu que
já se deixou derrotar pelo
cansaço. "Quando me
mandaram peneirar a farinha, não
passei mais de duas semanas, pois
trabalhava até tarde da noite e
não agüentava o cansaço",
contou. Nesse setor - que a
maioria dos proprietários de
casas de farinha garantem ser
restrito aos adultos - além da
temperatura ultrapassar os 40
graus por conta da existência
dos fornos, os trabalhadores são
obrigados a respirar o pó de
farinha e conviver com o forte
cheiro da manipueira (subproduto
da raspa da mandioca).
Quando há
muito serviço o menor chega a
tirar R$ 15,00 por semana. No
entanto, ele relata que raramente
consegue obter esta quantia,
recebendo normalmente R$ 7,00 por
semana. "Se eu estivesse em
Neves, em Jucati, estaria
ganhando mais, pois eles pagam um
pouco melhor", revelou.
Reginaldo garante que não está
arrependido de ter trocado a
escola pelo trabalho. "É
melhor trabalhar e poder se
vestir do que estar numa escola
que não dá nenhum
retorno". Metade do que
ganha é entregue à mãe para
ajudar na alimentação dos seus
quatro irmãos.
Quanto ao fato
da Justiça impedir o acesso de
menores ao trabalho, ele acha um
"grande erro".
"Eles não vão nos dar
dinheiro, comida ou roupa. Por
isso temos que continuar
trabalhando".