MISÉRIA IV
Meninos
ajudam os pais a quebrarem pedraspor CLÁUDIA PARENTE
Correspondente
ARARIPINA -
Não fosse a seca e suas
desastrosas conseqüências,
perpetuadas por populações e
governos omissos, talvez os
meninos Raimundo da Silva Aquino,
8 anos, e Paulo da Silva Aquino,
11, não precisassem acordar
todos os dias às 5h para
executar a penosa e perigosa
atividade de quebrar pedras a
golpes do martelo sob o sol
escaldante do Sertão do Araripe.
Junto com o pai, Geraldo Aquino
de Silva, as duas crianças vivem
há mais de quatro anos extraindo
e quebrando rochas às margens da
BR-316, na periferia de
Araripina. O produto é vendido a
particulares e empresas de
construção civil e garantir a
sobrevivência da família.
Desiludido com
uma agricultura que não dava
recursos para alimentar os seus
10 filhos, Geraldo Aquino mudo-se
do pequeno sítio que possuía na
Serra do Marinheiro, para a
periferia de Araripina, durante a
seca de 93. "Descobri, nessa
época, que compensava quebrar
pedras para vender como brita e
desisti da roça", lembra.
Ele conta que ainda tentou
conciliar as duas atividades, mas
não conseguiu. "Era muito
cansativo vir do sítio todos os
dias para quebrar pedras e voltar
para cuidar da roça. Achei
melhor ficar aqui". Desde
então, a vida dos meninos não
tem sido fácil.
Geraldo Aquino
conta que o promotor de Justiça
da cidade já o procurou para
retirar os meninos do serviço.
"Fui até intimado na
Justiça. Mas disse que, se ele
(o promotor) se responsabilizasse
pela sobrevivência dos meus
filhos, os tiraria daqui",
lembra, ao dizer que não obteve
resposta. Aquino argumenta que
com a ajuda dos meninos consegue
ganhar até R$ 400,00 por mês
com a venda da brita. "Sem
eles, não conseguiria ganhar
mais que a metade", afirma.
Com um pequeno
marrete na mão e sem qualquer
equipamento de proteção os
meninos trabalham das 6h até as
11h30. Quando o sol fica
insuportável, "seu"
Geraldo improvisa uma tenda,
feita com uma espécie de peneira
de flandre (usada para separar as
pedras da areia) escorada com
paus. Concluída a tarefa, eles
vão para casa almoçar e trocar
de roupa para ir à escola.
Apesar da diferença de idade,
ambos estão cursando a 1ª
série primária. Durante o
período das provas, eles saem
às 11h para estudarem até às
14h. "O trabalho aqui não
é muito ruim, mas eu preferia ir
só para a escola e assistir
televisão", diz o tímido
Raimundo, que ainda pode se
considerar um garoto de sorte,
comparado a alguns "colegas
de trabalho".
Na outra margem
da rodovia, trabalham os menores
Cícero Moreira, 9, e Wilton
Moreira, 8. Eles nunca foram a
escola e desfrutam de pouco lazer
para crianças de sua idade.
José Moreira, pai de um dos
meninos e avô de outro, diz que
sabe dos perigos do serviço.
"Só permito que eles
trabalhem porque de outra forma
morreríamos de fome com essa
seca que tá aí". José
Moreira garantiu que no próximo
ano os meninos voltarão para a
escola.
FABRICAÇÃO
DE TIJOLOS - No Sertão do
Pajeú, a fabricação artesanal
de tijolos cresceu bastante no
último ano. A seca que castiga a
região forçou os agricultores a
criarem atividades extras e as
olarias familiares epalharam-se
pela região. Com isso, dezenas
de menores são obrigados a
trabalhar em atividades
estafantes para ajudar a aumentar
a renda familiar. Erivelton
Guimarães Coeiho, 12, mora no
sítio Riachão, a três
quilômetros de São José do
Egito. As 6h, chegaa olaria
acompanhado da mãe, Núbia
Coelho, 32, só para de trabalhar
por voltas das 17 horas. A sua
função é cortar o tijolo que
já passou pela secagem. Com
ajuda de uma faca peixeira, ele
raspa o excesso de barro que fica
colado ao produto. É um trabalho
repetitivo, que só tem uma pausa
cinco horas depois, para o
almoço. Ele deixou a escola em
junho de 97.