-- - - - - - - -- - - - - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de dezembro de 1998

MISÉRIA IV

Meninos ajudam os pais a quebrarem pedras

por CLÁUDIA PARENTE
Correspondente

ARARIPINA - Não fosse a seca e suas desastrosas conseqüências, perpetuadas por populações e governos omissos, talvez os meninos Raimundo da Silva Aquino, 8 anos, e Paulo da Silva Aquino, 11, não precisassem acordar todos os dias às 5h para executar a penosa e perigosa atividade de quebrar pedras a golpes do martelo sob o sol escaldante do Sertão do Araripe. Junto com o pai, Geraldo Aquino de Silva, as duas crianças vivem há mais de quatro anos extraindo e quebrando rochas às margens da BR-316, na periferia de Araripina. O produto é vendido a particulares e empresas de construção civil e garantir a sobrevivência da família.

Desiludido com uma agricultura que não dava recursos para alimentar os seus 10 filhos, Geraldo Aquino mudo-se do pequeno sítio que possuía na Serra do Marinheiro, para a periferia de Araripina, durante a seca de 93. "Descobri, nessa época, que compensava quebrar pedras para vender como brita e desisti da roça", lembra. Ele conta que ainda tentou conciliar as duas atividades, mas não conseguiu. "Era muito cansativo vir do sítio todos os dias para quebrar pedras e voltar para cuidar da roça. Achei melhor ficar aqui". Desde então, a vida dos meninos não tem sido fácil.

Geraldo Aquino conta que o promotor de Justiça da cidade já o procurou para retirar os meninos do serviço. "Fui até intimado na Justiça. Mas disse que, se ele (o promotor) se responsabilizasse pela sobrevivência dos meus filhos, os tiraria daqui", lembra, ao dizer que não obteve resposta. Aquino argumenta que com a ajuda dos meninos consegue ganhar até R$ 400,00 por mês com a venda da brita. "Sem eles, não conseguiria ganhar mais que a metade", afirma.

Com um pequeno marrete na mão e sem qualquer equipamento de proteção os meninos trabalham das 6h até as 11h30. Quando o sol fica insuportável, "seu" Geraldo improvisa uma tenda, feita com uma espécie de peneira de flandre (usada para separar as pedras da areia) escorada com paus. Concluída a tarefa, eles vão para casa almoçar e trocar de roupa para ir à escola. Apesar da diferença de idade, ambos estão cursando a 1ª série primária. Durante o período das provas, eles saem às 11h para estudarem até às 14h. "O trabalho aqui não é muito ruim, mas eu preferia ir só para a escola e assistir televisão", diz o tímido Raimundo, que ainda pode se considerar um garoto de sorte, comparado a alguns "colegas de trabalho".

Na outra margem da rodovia, trabalham os menores Cícero Moreira, 9, e Wilton Moreira, 8. Eles nunca foram a escola e desfrutam de pouco lazer para crianças de sua idade. José Moreira, pai de um dos meninos e avô de outro, diz que sabe dos perigos do serviço. "Só permito que eles trabalhem porque de outra forma morreríamos de fome com essa seca que tá aí". José Moreira garantiu que no próximo ano os meninos voltarão para a escola.

FABRICAÇÃO DE TIJOLOS - No Sertão do Pajeú, a fabricação artesanal de tijolos cresceu bastante no último ano. A seca que castiga a região forçou os agricultores a criarem atividades extras e as olarias familiares epalharam-se pela região. Com isso, dezenas de menores são obrigados a trabalhar em atividades estafantes para ajudar a aumentar a renda familiar. Erivelton Guimarães Coeiho, 12, mora no sítio Riachão, a três quilômetros de São José do Egito. As 6h, chegaa olaria acompanhado da mãe, Núbia Coelho, 32, só para de trabalhar por voltas das 17 horas. A sua função é cortar o tijolo que já passou pela secagem. Com ajuda de uma faca peixeira, ele raspa o excesso de barro que fica colado ao produto. É um trabalho repetitivo, que só tem uma pausa cinco horas depois, para o almoço. Ele deixou a escola em junho de 97.


     

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