MISÉRIA V
A dura
realidade do trabalhador-mirimpor TAÍZA BRITO
O problema da
exploração da mão-de-obra
infantil em Pernambuco ainda
está longe de ser resolvido.
Apesar de contar com a
mobilização de entidades
governamentais, ONGs e
representações sindicais na
erradicação desta mazela e já
contar com ações concretas
neste sentido, milhares de
crianças continuam presas a um
ciclo de "oportunidades
perdidas". Segundo
estimativa do IBGE, 226 mil
crianças menores de 14 anos
trabalham duro todo dia no Estado
para aumentar a renda familiar -
o que representa 13% da força de
trabalho infantil existente no
Nordeste. A região, inclusive,
é a que concentra o maior
índice - 46,2% - de meninos e
meninas trabalhadores dos 3,8
milhões existentes no Brasil.
A necessidade
de lutar pela sobrevivência leva
menores ao trabalho diariamente
nos canaviais da Zona da Mata,
casas de farinha no Agreste e nas
roças do Sertão de Pernambuco.
O número maior de
trabalhadores-mirins, contudo,
ainda está na agricultura, onde
58,7% deles estão engajados.
Independentemente do local onde
buscam "o pão de cada
dia", o mais dramático é
que estas crianças estão sendo
impedidas de ter acesso à
educação e de brincar, num
claro descumprimento ao Estatuto
da Criança e do Adolescente.
De acordo com a
socióloga Tereza Correia de
Araújo, que integra a equipe do
Centro Josué de Castro, estudos
realizados no País indicam que
80% das crianças que trabalham
são originárias de famílias em
situação de extrema pobreza.
"Nestas comunidades as
ações setorizadas não
conseguem romper o ciclo de
perpetuação da exploração e
pobreza", explicou, ao dizer
que os riscos advindos da
inserção precoce no mercado de
trabalho não têm apenas
impactos imediatos ou de médio
prazo. "Eles afetam o
futuro, pois negam aos
indíviduos de constituírem-se
em atores de mudanças
sociais".
Para o
procurador-chefe do Ministério
Público do Trabalho, Waldir de
Andrade Bitu Filho, não adiantam
apenas ações punitivas para
resolver a situação. "Tem
que haver uma política social
voltada para suprir a necessidade
econômica destas famílias e
compensar a ausência dos
rendimentos da criança retirada
do trabalho por força da
lei", enfatizou. Bitu Filho
acha que uma das alternativas
para a diminuição do trabalho
infantil no Estado é a
ampliação da oferta de bolsas
pelo Governo Federal em troca do
ingresso de crianças na escola,
como já vem sendo feito em 51
municípios da zona canavieira.
O IBGE aponta
que o número de novas crianças
no mercado de trabalho aumentou
12,5% de 89 a 95. Não existem
levantamentos mais recentes,
mesmo assim esse é um indicativo
preocupante e requer atenção
nas só das autoridades
governamentais, mas de toda
sociedade.