-- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 03 de dezembro de 1998

CUBA
A última fronteira do socialismo rende-se ao turismo

por LUIZ ERNESTO MELLET
Especial para o JC

Às vésperas de completar 40 anos da revolução (janeiro de 1959), Cuba vive hoje uma situação no mínimo singular na geopolítica do planeta. É o único país socialista que ainda segue a cartilha de Karl Marx, depois do efeito dominó que se iniciou com a derrubada do comunismo na antiga União Soviética e se estendeu até os países do Leste europeu, no final da década de 80. O regime está mergulhado em contradições que sinalizam um fim próximo, fazendo da ilha um lugar especial para se conhecer, particularmente neste período de profundas mudanças.

Sob as barbas do comandante-chefe Fidel Castro, a ilha rapidamente vem abrindo as portas para investimentos vindos do estrangeiro a fim de sobreviver à esmagadora força do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos e que perdura há 35 anos. E o turismo é o setor que se apresenta como tábua de salvação do socialismo cubano nesta época de transformações, que os burocráticos do sistema chamam de período especial em tempos de paz. De 95 para cá, a taxa de crescimento do turismo no país é de cerca de 25% ao ano. Até o final do século, estimativas do ministério de Turismo de Cuba são de que a ilha receba 2 milhões de visitantes.

As cadeias hoteleiras internacionais, como as espanholas Meliá e Tryp (com diárias que vão de US$ 90 a US$ 190) disputam os pedaços mais privilegiados de Habana Vieja (a parte antiga da cidade) e da caribenha costa do país. Varadero, a 170 quilômetros ao norte de Havana e que é considerada a mais bonita praia do Caribe, por exemplo, foi completamente ocupada pelos hotéis da rede Meliá. A praia é reservada exclusivamente para os turistas, como também boa parte das existentes nas ilhotas que circundam Cuba e que são conhecidas como cayos.

Cuba é, na verdade, um arquipélago com centenas de ilhotas situado na entrada do Golfo do México, distante 175 quilômetros da Flórida, nos EUA. A ilha maior tem cerca de 2 milhões de habitantes, mede 1.250 quilômetros de uma ponta a outra - pouco mais da distância que separa Havana de Santiago de Cuba.

HAVANA - Caminhar pelas ruas estreitas do antigo centro de Havana é uma experiência deliciosa. Especialmente à noite escutando mambo, rumba, merengue e saboreando um mojito (bebida a base de rum, limão, açúcar e folhas de hortelã) no La Bodeguita del Medio, bar freqüentado, no passado, pelo escritor americano Ernest Hemingway. Mas pegue leve na bebida que desce bem como uma limonada gelada. Três ou quatro doses são suficientes para deixar qualquer um borracho (bêbado) cantando Guatanamera trôpego pelas calles (ruas) da cidade.

A gastronomia é rica e saborosa. Os pratos servidos fora dos restaurantes turísticos como a Floridita, também freqüentado por Hemingway, são fartos e baratos. Os paladares servem pratos típicos cubanos como a pierna de puerco asada em su jugo (perna de porco assada na própria gordura) e comida creoulla à base de frijoles negros (feijão preto). Os pratos para dois custam em média 10 dólares.

Andar em Havana é deixar o espírito se envolver por um sentimento nostálgico. O passado é evocado a todo tempo. Os Buicks, Chevrolets e Fords fabricados na década de 50 são comumente vistos trafegando pelas ruas ao lado de bici-táxis e motos equipadas com side-car. A necessidade fez do cubano um excelente mecânico. Os torneiros reciclam ou fabricam as peças de reposição. Na ilha tudo é aproveitado.

O povo cubano tem grande senso de humor, é alegre e de uma franqueza absoluta. Basta alguns minutos de conversa e parece que velhos amigos estão se reencontrando. São instruídos e educados. As ruas de Havana são limpas e suas praças bem cuidadas. Há muito o que se vê na cidade. No circuito do turismo político-social visitar o Museu da Revolução e o Ppalácio dos Presidentes é um programa obrigatório. Ali são exibidos os bonecos de cera de Fidel e Che, as pistolas e armamentos que usaram nas guerrilhas de Sierra Maestra. Nos jardins, entre tanques e aviões, está exposto o Granma, iate usado pelos revolucionários e que dá hoje nome ao jornal oficial do governo.

Há um apartheid social disfarçado em Havana. Basta um passeio pelas ruas da cidade para perceber a diferença com que são tratados os turistas e o cidadão comum. Para o turista, o dólar abre todas as portas. Enquanto a população espera em filas enormes um velho ônibus movido a caminhão à diesel, o vai-e-vem - micro-ônibus exclusivo para os turistas - percorre toda a Habana Vieja, desde o Passeio do Prado até o Malecón, a avenida beira-mar. Custa 2 dólares e é a forma mais rápida de conhecer a cidade.

Mais rápida, porém também a mais superficial. Para se aprofundar nos costumes de sua gente nada melhor do que andar a pé. Para isso, as melhores horas são pela manhã ou no cair da tarde quando o sol caribenho está mais fresco. A Plaza de la Cathedral, um imponente prédio em pedra sabão do século 17, merece uma parada para degustar um mojito ou guarapo (rum com caldo de cana) no El Pátio.

O litoral de Cuba é considerado um dos mais belos do mundo, tanto que a cadeia de hotéis espanhola Meliá construiu nos últimos anos 14 hotéis, oito considerados de cinco estrelas. A praia de Varadero é belíssima. O incoveniente é a distância e os altos preços praticados por lá. Mais perto e barato é Santa Maria, balneário a 37 quilômetros de Havana, que é freqüentada por turistas e nativos. Uma viagem de táxi até lá custa 10 dólares.


     

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