CUBA
A
última fronteira do socialismo
rende-se ao turismopor LUIZ ERNESTO
MELLET
Especial para o JC
Às vésperas
de completar 40 anos da
revolução (janeiro de 1959),
Cuba vive hoje uma situação no
mínimo singular na geopolítica
do planeta. É o único país
socialista que ainda segue a
cartilha de Karl Marx, depois do
efeito dominó que se iniciou com
a derrubada do comunismo na
antiga União Soviética e se
estendeu até os países do Leste
europeu, no final da década de
80. O regime está mergulhado em
contradições que sinalizam um
fim próximo, fazendo da ilha um
lugar especial para se conhecer,
particularmente neste período de
profundas mudanças.
Sob as barbas
do comandante-chefe Fidel Castro,
a ilha rapidamente vem abrindo as
portas para investimentos vindos
do estrangeiro a fim de
sobreviver à esmagadora força
do embargo econômico imposto
pelos Estados Unidos e que
perdura há 35 anos. E o turismo
é o setor que se apresenta como
tábua de salvação do
socialismo cubano nesta época de
transformações, que os
burocráticos do sistema chamam
de período especial em tempos de
paz. De 95 para cá, a taxa de
crescimento do turismo no país
é de cerca de 25% ao ano. Até o
final do século, estimativas do
ministério de Turismo de Cuba
são de que a ilha receba 2
milhões de visitantes.
As cadeias
hoteleiras internacionais, como
as espanholas Meliá e Tryp (com
diárias que vão de US$ 90 a US$
190) disputam os pedaços mais
privilegiados de Habana Vieja (a
parte antiga da cidade) e da
caribenha costa do país.
Varadero, a 170 quilômetros ao
norte de Havana e que é
considerada a mais bonita praia
do Caribe, por exemplo, foi
completamente ocupada pelos
hotéis da rede Meliá. A praia
é reservada exclusivamente para
os turistas, como também boa
parte das existentes nas ilhotas
que circundam Cuba e que são
conhecidas como cayos.
Cuba é, na
verdade, um arquipélago com
centenas de ilhotas situado na
entrada do Golfo do México,
distante 175 quilômetros da
Flórida, nos EUA. A ilha maior
tem cerca de 2 milhões de
habitantes, mede 1.250
quilômetros de uma ponta a outra
- pouco mais da distância que
separa Havana de Santiago de
Cuba.
HAVANA -
Caminhar pelas ruas estreitas do
antigo centro de Havana é uma
experiência deliciosa.
Especialmente à noite escutando
mambo, rumba, merengue e
saboreando um mojito (bebida a
base de rum, limão, açúcar e
folhas de hortelã) no La
Bodeguita del Medio, bar
freqüentado, no passado, pelo
escritor americano Ernest
Hemingway. Mas pegue leve na
bebida que desce bem como uma
limonada gelada. Três ou quatro
doses são suficientes para
deixar qualquer um borracho
(bêbado) cantando Guatanamera
trôpego pelas calles (ruas) da
cidade.
A gastronomia
é rica e saborosa. Os pratos
servidos fora dos restaurantes
turísticos como a Floridita,
também freqüentado por
Hemingway, são fartos e baratos.
Os paladares servem pratos
típicos cubanos como a pierna de
puerco asada em su jugo (perna de
porco assada na própria gordura)
e comida creoulla à base de
frijoles negros (feijão preto).
Os pratos para dois custam em
média 10 dólares.
Andar em Havana
é deixar o espírito se envolver
por um sentimento nostálgico. O
passado é evocado a todo tempo.
Os Buicks, Chevrolets e Fords
fabricados na década de 50 são
comumente vistos trafegando pelas
ruas ao lado de bici-táxis e
motos equipadas com side-car. A
necessidade fez do cubano um
excelente mecânico. Os torneiros
reciclam ou fabricam as peças de
reposição. Na ilha tudo é
aproveitado.
O povo cubano
tem grande senso de humor, é
alegre e de uma franqueza
absoluta. Basta alguns minutos de
conversa e parece que velhos
amigos estão se reencontrando.
São instruídos e educados. As
ruas de Havana são limpas e suas
praças bem cuidadas. Há muito o
que se vê na cidade. No circuito
do turismo político-social
visitar o Museu da Revolução e
o Ppalácio dos Presidentes é um
programa obrigatório. Ali são
exibidos os bonecos de cera de
Fidel e Che, as pistolas e
armamentos que usaram nas
guerrilhas de Sierra Maestra. Nos
jardins, entre tanques e aviões,
está exposto o Granma, iate
usado pelos revolucionários e
que dá hoje nome ao jornal
oficial do governo.
Há um
apartheid social disfarçado em
Havana. Basta um passeio pelas
ruas da cidade para perceber a
diferença com que são tratados
os turistas e o cidadão comum.
Para o turista, o dólar abre
todas as portas. Enquanto a
população espera em filas
enormes um velho ônibus movido a
caminhão à diesel, o vai-e-vem
- micro-ônibus exclusivo para os
turistas - percorre toda a Habana
Vieja, desde o Passeio do Prado
até o Malecón, a avenida
beira-mar. Custa 2 dólares e é
a forma mais rápida de conhecer
a cidade.
Mais rápida,
porém também a mais
superficial. Para se aprofundar
nos costumes de sua gente nada
melhor do que andar a pé. Para
isso, as melhores horas são pela
manhã ou no cair da tarde quando
o sol caribenho está mais
fresco. A Plaza de la Cathedral,
um imponente prédio em pedra
sabão do século 17, merece uma
parada para degustar um mojito ou
guarapo (rum com caldo de cana)
no El Pátio.
O litoral de
Cuba é considerado um dos mais
belos do mundo, tanto que a
cadeia de hotéis espanhola
Meliá construiu nos últimos
anos 14 hotéis, oito
considerados de cinco estrelas. A
praia de Varadero é belíssima.
O incoveniente é a distância e
os altos preços praticados por
lá. Mais perto e barato é Santa
Maria, balneário a 37
quilômetros de Havana, que é
freqüentada por turistas e
nativos. Uma viagem de táxi até
lá custa 10 dólares.