-- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 03 de dezembro de 1998

CUBA II
Tudo para ganhar os dólares do turista

Mundialmente conhecida como a pérola antilhana e uma das principais capitais da América Latina até meados dos anos 50, Havana é, hoje, uma cidade que parece ter sofrido um bombardeio recente. Ainda que com um olhar mais atento possa se notar o esplendor de suas fachadas, a maioria dos prédios do centro antigo da cidade - apesar de declarada patrimônio histórico da humanidade em 1982 - está em ruínas. Não há cores. Apenas o monótono cinza deixado pelo tempo estampa suas imensas paredes. No entanto, as edificações históricas, hotéis e restaurantes de forte apelo turístico recebem tratamento diferenciado do governo, e estão bem preservados. A maioria restante - fora das áreas consideradas prioritárias - serve de moradia ou está abandonada, e muitos edifícios parecem prestes a desabar.

"Um dia desses caiu um do tamanho de um quarteirão", contou Alfredo Ortega, 21 anos, enquanto levava um turista italiano em sua bici-táxi (uma espécie de riquixá movido a pedal). Mas, apesar das pedaladas que lhe fazem o suor escorrer pela testa, Alfredo não tem o que se queixar. Afinal, ele é um muchacho (rapaz) de sorte. Tem licença para dirigir bici-táxi, uma das muitas atividades informais que pipocaram na ilha com o turismo. O serviço lhe rende 5 dólares a hora. Ao final do mês, paga US$ 100 de taxa ao governo e mais 200 pesos cubanos, o que equivale a outros 10 dólares.

A satisfação que Alfredo tem pelo seu trabalho pode ser medida pelo dinheiro que recebe. Ele ganha, no mínimo, 10 dólares por dia, o que soma US$ 300 ao final do mês. Abatidas as taxas, mais as gorjetas, fica algo em torno de US$ 200, valor considerado uma pequena fortuna para os padrões cubanos num país em que um médico ganha 400 pesos de salário mensal, ou seja, 20 dólares. Isto gera um caos econômico. As atividades informais trazidas pela indústria do turismo são mais rentáveis do que os empregos oferecidos pelo governo que pagam mal e são a cada dia mais escassos.

A relação dólar X peso espelha bem as imensas contradições em que vive o país neste período de transição. Nos principais bares e restaurantes de Havana, e até mesmo nos lares que servem comida tipicamente cubana ou creoula, apelidados de "paladares" (termo introduzido na ilha pela novela da TV Globo Vale Tudo, que fez um tremendo sucesso), o cardápio vem em dólar.

E, por mais estranho que pareça, é na moeda americana que boa parte dos cubanos encontrou o meio para se sustentar diante da vida que o regime oferece desde que o seu maior provedor, a Rússia, foi à bancarrota e suspendeu definitivamente a remessa de divisas para a manutenção do país, que chegavam à ordem de US$ 8 bilhões ao ano.

ASSÉDIO - Só há um meio do dólar entrar na ilha - no bolso dos turistas. É por isso que o setor cresce assustadoramente e os visitantes são praticamente "caçados" por guias, vendedores, desenhistas e, sobretudo, prostitutas, pelas ruas da velha Havana.

Os cubanos são incisivos na hora de pedir. E insuportavelmente insistentes. Não há como conseguir uma simples informação em alguma esquina sem que ela venha acompanhada de ofertas de serviço que vão desde a tarefa de guia até a compra, no câmbio negro, de charutos de marcas superiores como Cohiba e Monte Cristo.

Apesar do apelo do governo para que o turista só adquira charutos nas tiendas (lojas), a oferta clandestina do famoso charuto cubano é irresistível. Nas tiendas, a caixa do Esplêndido (o preferido de Fidel quando fumava) vale 240 dólares. Desviados das fábricas, são encontrados nas ruas por até 30 dólares. O mercado clandestino de charuto representa um rombo na economia de Cuba. Afinal, é o seu produto de primeira linha que ao lado do açúcar, café, rum e, agora, do turismo, garantem as parcas divisas do país.

Os desempregados cubanos usam a tática de vencer pelo cansaço. São capazes de caminhar quadras ao lado do turista pedindo isso ou aquilo. Até o sujeito se render e desembolsar um dólar ou, se não, perder a esportiva. O assédio nas ruas é inevitável. Principalmente das prostitutas, as jinetera. Elas estão por toda parte da velha Havana. Não é difícil encontrá-las já pela manhã, diante das portas dos hotéis, esperando a saída dos turistas. São em sua maioria homens, especialmente espanhóis e italianos de meia-idade, que justamente vêm à ilha atraídos não somente pelo turismo político-social, mas pelo intenso turismo sexual que o lugar oferece.

"Ganho numa noite de programa o equivalente ao que ganhava em um mês de trabalho", revela a dentista Sandra Herraro, 23 anos. Morena, cabelos ondulados e sorriso perfeito, Sandra trocou o emprego no consultório odontológico em um dos hospitais policlínicos da cidade pela profissão de jinetera. Como ela, há centenas de jovens espalhadas nas ruas do centro antigo de Havana. A repressão é quase inexistente. Mas, quando ocorre algum operatório (batida policial), a jinetera que for pega é multada.

DECADÊNCIA MORAL - O contrabando e a prostituição são desvios que exibem a decadência moral do sistema cubano e que as autoridades fingem não ver. "O governo quer que os turistas venham com as carteiras recheadas de dólares, mas que não influenciem no comportamento da população. Isso é impossível", diz Pastor Pérez, 52 anos, que aluga habitacion (quartos) para encontros sexuais em sua casa na movimentada Obispo, uma das principais ruas do comércio do antigo centro de Havana.

O aluguel de cômodos nos lares para as jineteras tem se tornado um próspero negócio para muitas famílias cubanas, uma vez que a prostituição é considerada prática ilegal no país e os hotéis, que são controlados pelo estado, não permitem o acesso de mulheres em seus quartos. No entanto, o turista que quiser levar uma jinetera para o hotel apela para o suborno, e a maioria dos gerentes aceita propina de bom grado. Paga-se, em média, US$ 12 por duas horas de encontro. Numa habitacion, o preço cai para US$ 10 o pernoite.

"Recebo casais em minha casa há dois anos, e por causa disso tomo banho todos os dias com sabonete e lavo meus cabelos com xampu", diz a dona-de-casa Maria Mercedez, 59 anos. Antiga funcionária de uma fábrica de tabaco, ela recebe da previdência cubana tarjetas (tickets de crédito do governo) que correspondem a 220 pesos, 11 dólares. Segundo ela, as tarjetas mal duram a primeira semana do mês.

Só o básico é garantido para a população, assim também como assistência médica. Há 660 mil médicos trabalhando nos 270 hospitais do país. Um para cada 170 habitantes. Os cubanos vivem modestamente, mas com dignidade e saúde. As novelas brasileiras, uma coqueluche na ilha, introduziram novos hábitos junto à população. Isto afeta o imaginário de pessoas simples como a dona-de-casa Maria Mercedez. "Quero ser bonita e cheirosa que nem a viúva Porcina", diz Maria Mercez. (L.E.M.)


     

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