CUBA II
Tudo
para ganhar os dólares do
turistaMundialmente conhecida
como a pérola antilhana e uma
das principais capitais da
América Latina até meados dos
anos 50, Havana é, hoje, uma
cidade que parece ter sofrido um
bombardeio recente. Ainda que com
um olhar mais atento possa se
notar o esplendor de suas
fachadas, a maioria dos prédios
do centro antigo da cidade -
apesar de declarada patrimônio
histórico da humanidade em 1982
- está em ruínas. Não há
cores. Apenas o monótono cinza
deixado pelo tempo estampa suas
imensas paredes. No entanto, as
edificações históricas,
hotéis e restaurantes de forte
apelo turístico recebem
tratamento diferenciado do
governo, e estão bem
preservados. A maioria restante -
fora das áreas consideradas
prioritárias - serve de moradia
ou está abandonada, e muitos
edifícios parecem prestes a
desabar.
"Um dia
desses caiu um do tamanho de um
quarteirão", contou Alfredo
Ortega, 21 anos, enquanto levava
um turista italiano em sua
bici-táxi (uma espécie de
riquixá movido a pedal). Mas,
apesar das pedaladas que lhe
fazem o suor escorrer pela testa,
Alfredo não tem o que se
queixar. Afinal, ele é um
muchacho (rapaz) de sorte. Tem
licença para dirigir bici-táxi,
uma das muitas atividades
informais que pipocaram na ilha
com o turismo. O serviço lhe
rende 5 dólares a hora. Ao final
do mês, paga US$ 100 de taxa ao
governo e mais 200 pesos cubanos,
o que equivale a outros 10
dólares.
A satisfação
que Alfredo tem pelo seu trabalho
pode ser medida pelo dinheiro que
recebe. Ele ganha, no mínimo, 10
dólares por dia, o que soma US$
300 ao final do mês. Abatidas as
taxas, mais as gorjetas, fica
algo em torno de US$ 200, valor
considerado uma pequena fortuna
para os padrões cubanos num
país em que um médico ganha 400
pesos de salário mensal, ou
seja, 20 dólares. Isto gera um
caos econômico. As atividades
informais trazidas pela
indústria do turismo são mais
rentáveis do que os empregos
oferecidos pelo governo que pagam
mal e são a cada dia mais
escassos.
A relação
dólar X peso espelha bem as
imensas contradições em que
vive o país neste período de
transição. Nos principais bares
e restaurantes de Havana, e até
mesmo nos lares que servem comida
tipicamente cubana ou creoula,
apelidados de
"paladares" (termo
introduzido na ilha pela novela
da TV Globo Vale Tudo, que fez um
tremendo sucesso), o cardápio
vem em dólar.
E, por mais
estranho que pareça, é na moeda
americana que boa parte dos
cubanos encontrou o meio para se
sustentar diante da vida que o
regime oferece desde que o seu
maior provedor, a Rússia, foi à
bancarrota e suspendeu
definitivamente a remessa de
divisas para a manutenção do
país, que chegavam à ordem de
US$ 8 bilhões ao ano.
ASSÉDIO -
Só há um meio do dólar entrar
na ilha - no bolso dos turistas.
É por isso que o setor cresce
assustadoramente e os visitantes
são praticamente
"caçados" por guias,
vendedores, desenhistas e,
sobretudo, prostitutas, pelas
ruas da velha Havana.
Os cubanos são
incisivos na hora de pedir. E
insuportavelmente insistentes.
Não há como conseguir uma
simples informação em alguma
esquina sem que ela venha
acompanhada de ofertas de
serviço que vão desde a tarefa
de guia até a compra, no câmbio
negro, de charutos de marcas
superiores como Cohiba e Monte
Cristo.
Apesar do apelo
do governo para que o turista só
adquira charutos nas tiendas
(lojas), a oferta clandestina do
famoso charuto cubano é
irresistível. Nas tiendas, a
caixa do Esplêndido (o preferido
de Fidel quando fumava) vale 240
dólares. Desviados das
fábricas, são encontrados nas
ruas por até 30 dólares. O
mercado clandestino de charuto
representa um rombo na economia
de Cuba. Afinal, é o seu produto
de primeira linha que ao lado do
açúcar, café, rum e, agora, do
turismo, garantem as parcas
divisas do país.
Os
desempregados cubanos usam a
tática de vencer pelo cansaço.
São capazes de caminhar quadras
ao lado do turista pedindo isso
ou aquilo. Até o sujeito se
render e desembolsar um dólar
ou, se não, perder a esportiva.
O assédio nas ruas é
inevitável. Principalmente das
prostitutas, as jinetera. Elas
estão por toda parte da velha
Havana. Não é difícil
encontrá-las já pela manhã,
diante das portas dos hotéis,
esperando a saída dos turistas.
São em sua maioria homens,
especialmente espanhóis e
italianos de meia-idade, que
justamente vêm à ilha atraídos
não somente pelo turismo
político-social, mas pelo
intenso turismo sexual que o
lugar oferece.
"Ganho
numa noite de programa o
equivalente ao que ganhava em um
mês de trabalho", revela a
dentista Sandra Herraro, 23 anos.
Morena, cabelos ondulados e
sorriso perfeito, Sandra trocou o
emprego no consultório
odontológico em um dos hospitais
policlínicos da cidade pela
profissão de jinetera. Como ela,
há centenas de jovens espalhadas
nas ruas do centro antigo de
Havana. A repressão é quase
inexistente. Mas, quando ocorre
algum operatório (batida
policial), a jinetera que for
pega é multada.
DECADÊNCIA
MORAL - O contrabando e a
prostituição são desvios que
exibem a decadência moral do
sistema cubano e que as
autoridades fingem não ver.
"O governo quer que os
turistas venham com as carteiras
recheadas de dólares, mas que
não influenciem no comportamento
da população. Isso é
impossível", diz Pastor
Pérez, 52 anos, que aluga
habitacion (quartos) para
encontros sexuais em sua casa na
movimentada Obispo, uma das
principais ruas do comércio do
antigo centro de Havana.
O aluguel de
cômodos nos lares para as
jineteras tem se tornado um
próspero negócio para muitas
famílias cubanas, uma vez que a
prostituição é considerada
prática ilegal no país e os
hotéis, que são controlados
pelo estado, não permitem o
acesso de mulheres em seus
quartos. No entanto, o turista
que quiser levar uma jinetera
para o hotel apela para o
suborno, e a maioria dos gerentes
aceita propina de bom grado.
Paga-se, em média, US$ 12 por
duas horas de encontro. Numa
habitacion, o preço cai para US$
10 o pernoite.
"Recebo
casais em minha casa há dois
anos, e por causa disso tomo
banho todos os dias com sabonete
e lavo meus cabelos com
xampu", diz a dona-de-casa
Maria Mercedez, 59 anos. Antiga
funcionária de uma fábrica de
tabaco, ela recebe da
previdência cubana tarjetas
(tickets de crédito do governo)
que correspondem a 220 pesos, 11
dólares. Segundo ela, as
tarjetas mal duram a primeira
semana do mês.
Só o básico
é garantido para a população,
assim também como assistência
médica. Há 660 mil médicos
trabalhando nos 270 hospitais do
país. Um para cada 170
habitantes. Os cubanos vivem
modestamente, mas com dignidade e
saúde. As novelas brasileiras,
uma coqueluche na ilha,
introduziram novos hábitos junto
à população. Isto afeta o
imaginário de pessoas simples
como a dona-de-casa Maria
Mercedez. "Quero ser bonita
e cheirosa que nem a viúva
Porcina", diz Maria Mercez. (L.E.M.)