-- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 03 de dezembro de 1998

CUBA III
Habaneros fiéis preservam o charme revolucionário da ilha

De maneira geral, a população reconhece as conquistas da revolução implantada há 40 anos por Fidel Castro, mas acha que está chegando a hora de mudar. "Meus filhos estudam na mesma escola que os do irmão de Fidel, Raul Castro", disse o taxista Gilberto Montez, 48 anos. "Isto prova que os ideais de igualdade da revolução deram resultados. Embora algumas coisas precisem ser revistas, creia que o fidelismo está mais vivo do que nunca em Cuba", defende.

Montez tem razão. Mais de 80% dos cubanos apoiam a permanência de Fidel no poder, segundo pesquisa realizada no país recentemente. Andando pelas ruas da velha Havana percebe-se que é difícil ter havido manipulação no resultado da pesquisa encomendada pelo governo cubano. O culto ao mito dos heróis da revolução é visto em todos os lugares. Enormes cartazes exaltam os feitos de Fidel, Che Guevara e Camilo Cinfuegos, o terceiro herói máximo do país, morto em acidente aéreo em 1975.

Há quem exagere na idolatria. É o caso do vendedor de sorvetes, Florencio Nunes, 55 anos. Ombreiro (funcionário) da sorveteria Copelia, ao lado do Hotel Habana Livre e que é citada no maior sucesso do cinema cubano, Morangos e Chocolates, Florencio carrega no peito a imagem de Che Guevara. Ele garante que lutou ao lado de Che na tomada da cidade de Santa Clara, em dezembro de 1958 e que abriu caminho para a tomada de Santiago de Cuba, por Fidel, culminando com a fuga do presidente Fulgêncio Batista e seus seguidores nas primeiras horas de 1959. "Quando Che morreu tatuei a sua imagem para que ficasse sempre perto do meu coração", disse.

FUTURO - O orgulho com que os habaneros enaltecem os feitos dos seus heróis revolucionários transmite a idéia de que eles são mais fidelistas do que socialistas. E isto revela um futuro incerto. Afinal, o que será da ilha quando Fidel morrer? A bordo do seu Chevrolet 58, o taxista Montez é taxativo. "Não há quem o substitua. Raul nem nenhum dirigente tem a sombra do carisma do comandante".

É grande a possibilidade de que o último bastião do socialismo esteja com os dias contados. Quem tiver a oportunidade de conhecer a genuína Cuba revolucionária que se apresse. Se demorar muito, corre o risco de visitar mais um paraíso de consumo como tantos outros que são encontrados no Caribe e no resto do mundo. Neste momento, no entanto, Cuba é única.

O QUE DÁ CERTO - Em Cuba, a educação, a saúde e o esporte são totalmente gratuitos em todos os níveis. Não há analfabetismo e os livros são distribuídos pelo governo. A saúde avança na área de pesquisa e a mortalidade infantil é uma das mais baixas do mundo - 10 para cada mil crianças nascidas vivas.(L.E.M.)


     

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