-- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 03 de dezembro de 1998

CUBA IV
Tire do baú o velho espírito de aventura

Cruzar o país por terra ou conhecer o seu interior requer coragem e desprendimento com o conforto. A Rede Ferroviária Cubana tem trilhos bem conservados mas, em compensação, os vagões estão aos cacos, sacolejam bastante e os bancos são de madeira. Além disso, a travessia se torna bastante enfadonha com uma paisagem que é bem conhecida dos pernambucanos: uma vasta plantação de cana e pequenos vilarejos.

Não é fácil conhecer Cuba. O maior problema de uma visita a ilha está justamente no seu acesso. A partir do Brasil, apenas a Varig opera vôos regulares para Cuba, através de conexões e troca de aeronaves. A Aeropostal Alas de Venezuela, e a Cubana de Aviacion, alternam vôos diários à ilha saindo do aeroporto de Maiquetia, em Caracas. É aconselhável ir pela Aeropostal. As aeronaves cubanas são aparelhos soviéticos YAK-42 fabricados na década de 60 que costumam provocar horas de atraso, seja por superaquecimento das turbinas ou outras razões que seus tripulantes se recusam a revelar.

Com sorte, o vôo de ida pela Cubana de Aviacion, com escala em Curaçao, dura 5 horas. Tempo suficiente para levar o mais sereno dos passageiros à beira de um ataque de nervos. Por motivos que são óbvios, caem melhor às aeromoças o apelido de aerovelhas. Elas servem apenas balas e refrigerantes aos passageiros durante todo o trajeto.

TREM FANTASMA - Antes mesmo da decolagem, enquanto o comandante anuncia pelo rádio as boas vindas e comunica que "segundo o código internacional de aviação é proibido fumar à bordo", o passageiro desavisado imediatamente percebe que as leis internacionais de vôos são simplesmente ignoradas no interior dos aviões da estatal cubana. Cigarros e charutos de largo diâmetro são acesos pelos passageiros nativos sem a menor cerimônia.

Não bastasse isso, durante o vôo o barulho das turbinas é ensurdecedor, saem baratas dos buracos das carcomidas poltronas de espuma e, assim que o avião entra no tenebroso espaço aéreo conhecido como Triângulo das Bermudas, o piso da aeronave é coberto por uma espessa fumaça, semelhante a que é produzida pelo gelo seco nas boates. Nada de grave. Apenas o velho sistema de refrigeração funcionando. (L.E.M.)


     

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