Medicina com qualidadeO tema saúde não sai
de pauta, embora já não se fale
muito em falsificação de
medicamentos, laboratórios
clandestinos, além de o ministro
da área, José Serra, haver
diminuído um pouco o seu ritmo
de criação de notícias. A
formação de uma agência
reguladora, para controlar e
fiscalizar a produção e venda
de alimentos e remédios no
Brasil, foi bem recebida pelo
público em geral e pela área
médica. A idéia se inspira na
Food and Drug Administration
(FDA) americana e o ministro quer
vê-la debatida por entidades
ligadas à saúde e à medicina,
antes de defini-la e de iniciar a
capacitação e treinamento dos
técnicos brasileiros que
integrarão os quadros da
agência. O diretor da FDA,
Michael Friedman, está disposto
a colaborar com o projeto de
Serra e disse que o mais
importante é investir em
credibilidade.
O trabalho do
ministro vem sendo aplaudido pela
sociedade e tirando o Ministério
da Saúde de um noticiário
negativo que o persegue há muito
tempo, pois os problemas dessa
área se acumulam e se agravam,
com muitos e grandes prejuízos
para a população. A prioridade
ao clientelismo político que
caracterizava essa pasta
literalmente vital tem dado
força à deterioração da área
de saúde pública no país.
Quando o Conselho Regional de
Medicina de São Paulo divulgou o
resultado de levantamento que fez
sobre o desempenho das
maternidades no Estado mais rico
da nossa federação, os números
e dados foram, no mínimo,
impressionantes: despreparo de
médicos, improvisação de
hospitais, falta de medicamentos,
equipamentos, material. O que
resulta no aumento da mortalidade
materna e perinatal, muito
sofrimento para a população.
Critica-se
também a baixa qualidade de
escolas de medicina, muitas das
quais, embora oficialmente
autorizadas, sequer têm
hospital-escola digno. "O
crime é cometido na esquina e à
luz do dia, e não se faz
nada", observa o novo
secretário nacional da
Vigilância Sanitária, Gonzalo
Vecina Neto, até há pouco
diretor do Instituto Central do
Hospital das Clínicas da USP.
Pior ainda, escolas são abertas
com fins puramente mercantis e
continuam funcionando mesmo sem
autorização, sob a égide do
clientelismo
político-partidário. Indignado,
ele clama para que se reavaliem
as condições de funcionamento
dessas escolas e se dê "um
basta a essa imundície".
Tem razão. Se uma escola de
letras de má qualidade já causa
bastante dano à sociedade, o que
dizer de uma faculdade de
medicina desqualificada? Outra
queixa do médico e executivo é
que a maioria esmagadora das
escolas de medicina forma
médicos para tratar de doenças
e não de seres humanos. O tema
da humanização do médico é
discutido, mas a situação
continua.
Além desses
graves problemas, o Ministério
da Saúde tem uma questão bem
imediata a administrar, que é a
da regulamentação da lei sobre
seguros e planos de saúde, que
está sendo negociada com
operadoras de medicina privada e
entidades de defesa do
consumidor. Depois de muitos anos
de total liberdade e
desregulação para aquelas
operadoras, o Congresso Nacional
(este elogio ele merece) aprovou
uma lei que civilizou o mercado.
Em dois anos, o empenho de uns
poucos parlamentares conseguiu
essa façanha. As operadoras vão
ressarcir o Estado quando seus
clientes forem atendidos na rede
pública de saúde; não podem
mais deixar de atender pacientes
por vencimento de prazo de
internação; já não podem
denunciar contratos
unilateralmente; vão ter de
renunciar ao aumento das
prestações dos clientes com
mais de 60 anos; terão que
discutir a questão das doenças
preexistentes; deverão cobrir as
despesas de transplante de rins e
córnea; vão manter os
desempregados por um ano nos
planos coletivos.
É um grande
avanço no setor social. A
regulamentação da lei não pode
ser feita apressadamente e sem
debate com a sociedade, como
pretendem setores do governo.
Este não deveria aproveitar a
regulamentação para voltar
atrás no avanço conseguido em
parceria com o Legislativo, como
ocorre freqüentemente com nossa
legislação. Claro que é uma
oportunidade para discussão e
conciliação de interesses, mas
sem prejuízo dos cerca de 40
milhões de brasileiros que
dependem de planos de saúde. E
essa regulamentação pode ser um
ponto naquela humanização da
medicina e dos médicos a que nos
referimos, que passa por uma
formação profissional voltada
para a pessoa humana.