- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 09 de setembro de 1998

CINEMA
Circuito de cinema erótico vive bom tempo

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

"Venham. Entrem. Venham ver a coisa boa que tem aqui dentro. O filme já começou".Como um mestre de cerimônia de circo, um dos funcionários do cinema erótico Especial -- vestido com um traje (calça social, camisa impecavelmente branca e gravata) que poderia facilmente ser confundido com o de um pastor da Igreja Universal-- convida os pedestres para assistirem a uma das inúmeras sessões do filme Noivinha Safada. Esse tipo de cena, com certeza, já virou típica para os freqüentadores do centro. Enquanto os cinemas do shopping multiplicam-se na mesma proporção em que os da cidade são fechados, os especializados em exibir filmes eróticos não demonstram estar em crise e já contam com sete salas de exibição só no centro do Recife, reunindo um público que não está muito interessado no filme em si.

O empresário João Santana é dono de três dos cinemas eróticos da cidade e vê a situação dos cinemas chamados convencionais como algo bastante distante da realidade dos de filmes eróticos. "Na minha opinião não existe crise neste ramo. Enquanto os outros estão fechando, estou pensando em abrir salas. O meu grande sonho é abrir um cinema erótico em um dos shoppings, qualquer um deles. Mas os empresários dos shoppings não me deixam fazer isso. É só dizer o preço que eu pago", comenta o empresário, e ainda completa: "Estou oferecendo um serviço às pessoas e se elas sempre voltam é porque sabem que o serviço é mesmo bom".

Um dos pontos mais comentados no trabalho de João Santana é o Lux 2, que está em funcionamento há cinco meses, especializado em filmes eróticos gays -- que ele afirma ser o primeiro do norte-nordeste: "Esse cinema surgiu de uma pesquisa que eu realizei. Se existe um público para isso, por que não oferecer esse serviço?", questiona.

Essa opinião sobre a freqüência nos filmes gays não é compartilhada por Luiz Ferreira, proprietário dos cinemas Victória e Imperador -- esse último recém-inaugurado: "Já tentamos colocar esses filmes no Victória, mas o público não aparecia. Esse tipo de filme não preserva a identidade de quem quer ir ao cinema e ter relações homossexuais sem ser identificado como gay", observa Luiz. Para o empresário, trabalhar no ramo de filmes eróticos é mais uma necessidade financeira do que uma opção propriamente dita. "Eu tentei trabalhar com outras espécies de filmes, mas as salas ficavam vazias".

Com o advento do videocassete, as salas de exibição de filmes eróticos perderam o seu caráter de meras exibidoras para ganhar ares de ponto de encontro para aventuras sexuais. "Em qualquer cinema do mundo existe uma espécie de etiqueta: as pessoas que estão sentadas nas poltronas geralmente querem apenas assistir aos filmes. Quem fica em pé junto do balcão está procurando um encontro", revela João Santana, sobre o clima dentro das salas. "Ninguém é agarrado à força lá dentro. Só tem esse tipo de relação quem quer", completa.

"Antes de entrarem em contato com o público, os meus funcionários passam por um treinamento que eu chamo de multiplex. Eles precisam aprender a deixar a platéia à vontade. Ninguém chega dentro das salas para ver o que está acontecendo. As pessoas se sentem em casa", esclarece João Santana a respeito do relacionamento entre seus funcionários e o público. Essa busca pela discrição também é seguida por Luiz Ferreira: "Nós procuramos deixar o cliente o mais à vontade possível".

A impressão mais evidente ao entrar em uma dessas salas de exibição é que o ambiente é muito mais escuro do que o existente nas convencionais. Sendo assim quase impossível identificar a pessoa que está ao seu lado, ou mesmo discernir se uma poltrona está ocupada ou não.

Ao contrário de locais que servem como pontos de encontros -- hetero ou gay -- em que existe a paquera antes do ato, nos cinemas eróticos, devido à escuridão, o contato se realiza quase sem qualquer tipo de prelúdio. "O que acontece sempre nos cinemas é alguém passando a mão em você. Mas lá fora, pelo menos eu, nunca procurei me relacionar ou me encontrar com nenhuma das pessoas com que fiquei aqui, pode ser perigoso. Esse é um lugar seguro, nunca tive problemas", confessa C.M., 35 anos, freqüentador do cinema de filmes gays Lux 2.

"Geralmente as mulheres vêm muito pouco aqui. Quando elas comparecem é nas últimas sessões e quase sempre acompanhadas", revela João Santana. Essa ausência feminina só faz confirmar o fato dessas salas de exibição terem se tornado um fenômeno inerente ao comportamento do sexo masculino. Sobre esse assunto, a escritora americana Camille Paglia já afirmou: "Fazer sexo anônimo em um beco escuro é prestar homenagem ao sonho de liberdade masculina".

"A minha mulher sabe que venho aqui para ter relações com outros homens. Ela acha que dessa forma não estou cometendo adultério", admite R.M., 33 anos, freqüentador do cinema Especial. Para R.M., como para alguns outros freqüentadores, os cinemas de filmes eróticos tornaram-se uma forma segura e discreta de viver sua identidade sexual.


     

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