CINEMA
Circuito
de cinema erótico vive bom tempopor SCHNEIDER
CARPEGGIANI
"Venham.
Entrem. Venham ver a coisa boa
que tem aqui dentro. O filme já
começou".Como um mestre de
cerimônia de circo, um dos
funcionários do cinema erótico
Especial -- vestido com um traje
(calça social, camisa
impecavelmente branca e gravata)
que poderia facilmente ser
confundido com o de um pastor da
Igreja Universal-- convida os
pedestres para assistirem a uma
das inúmeras sessões do filme
Noivinha Safada. Esse tipo de
cena, com certeza, já virou
típica para os freqüentadores
do centro. Enquanto os cinemas do
shopping multiplicam-se na mesma
proporção em que os da cidade
são fechados, os especializados
em exibir filmes eróticos não
demonstram estar em crise e já
contam com sete salas de
exibição só no centro do
Recife, reunindo um público que
não está muito interessado no
filme em si.
O empresário
João Santana é dono de três
dos cinemas eróticos da cidade e
vê a situação dos cinemas
chamados convencionais como algo
bastante distante da realidade
dos de filmes eróticos. "Na
minha opinião não existe crise
neste ramo. Enquanto os outros
estão fechando, estou pensando
em abrir salas. O meu grande
sonho é abrir um cinema erótico
em um dos shoppings, qualquer um
deles. Mas os empresários dos
shoppings não me deixam fazer
isso. É só dizer o preço que
eu pago", comenta o
empresário, e ainda completa:
"Estou oferecendo um
serviço às pessoas e se elas
sempre voltam é porque sabem que
o serviço é mesmo bom".
Um dos pontos
mais comentados no trabalho de
João Santana é o Lux 2, que
está em funcionamento há cinco
meses, especializado em filmes
eróticos gays -- que ele afirma
ser o primeiro do norte-nordeste:
"Esse cinema surgiu de uma
pesquisa que eu realizei. Se
existe um público para isso, por
que não oferecer esse
serviço?", questiona.
Essa opinião
sobre a freqüência nos filmes
gays não é compartilhada por
Luiz Ferreira, proprietário dos
cinemas Victória e Imperador --
esse último recém-inaugurado:
"Já tentamos colocar esses
filmes no Victória, mas o
público não aparecia. Esse tipo
de filme não preserva a
identidade de quem quer ir ao
cinema e ter relações
homossexuais sem ser identificado
como gay", observa Luiz.
Para o empresário, trabalhar no
ramo de filmes eróticos é mais
uma necessidade financeira do que
uma opção propriamente dita.
"Eu tentei trabalhar com
outras espécies de filmes, mas
as salas ficavam vazias".
Com o advento
do videocassete, as salas de
exibição de filmes eróticos
perderam o seu caráter de meras
exibidoras para ganhar ares de
ponto de encontro para aventuras
sexuais. "Em qualquer cinema
do mundo existe uma espécie de
etiqueta: as pessoas que estão
sentadas nas poltronas geralmente
querem apenas assistir aos
filmes. Quem fica em pé junto do
balcão está procurando um
encontro", revela João
Santana, sobre o clima dentro das
salas. "Ninguém é agarrado
à força lá dentro. Só tem
esse tipo de relação quem
quer", completa.
"Antes de
entrarem em contato com o
público, os meus funcionários
passam por um treinamento que eu
chamo de multiplex. Eles precisam
aprender a deixar a platéia à
vontade. Ninguém chega dentro
das salas para ver o que está
acontecendo. As pessoas se sentem
em casa", esclarece João
Santana a respeito do
relacionamento entre seus
funcionários e o público. Essa
busca pela discrição também é
seguida por Luiz Ferreira:
"Nós procuramos deixar o
cliente o mais à vontade
possível".
A impressão
mais evidente ao entrar em uma
dessas salas de exibição é que
o ambiente é muito mais escuro
do que o existente nas
convencionais. Sendo assim quase
impossível identificar a pessoa
que está ao seu lado, ou mesmo
discernir se uma poltrona está
ocupada ou não.
Ao contrário
de locais que servem como pontos
de encontros -- hetero ou gay --
em que existe a paquera antes do
ato, nos cinemas eróticos,
devido à escuridão, o contato
se realiza quase sem qualquer
tipo de prelúdio. "O que
acontece sempre nos cinemas é
alguém passando a mão em você.
Mas lá fora, pelo menos eu,
nunca procurei me relacionar ou
me encontrar com nenhuma das
pessoas com que fiquei aqui, pode
ser perigoso. Esse é um lugar
seguro, nunca tive
problemas", confessa C.M.,
35 anos, freqüentador do cinema
de filmes gays Lux 2.
"Geralmente
as mulheres vêm muito pouco
aqui. Quando elas comparecem é
nas últimas sessões e quase
sempre acompanhadas", revela
João Santana. Essa ausência
feminina só faz confirmar o fato
dessas salas de exibição terem
se tornado um fenômeno inerente
ao comportamento do sexo
masculino. Sobre esse assunto, a
escritora americana Camille
Paglia já afirmou: "Fazer
sexo anônimo em um beco escuro
é prestar homenagem ao sonho de
liberdade masculina".
"A minha
mulher sabe que venho aqui para
ter relações com outros homens.
Ela acha que dessa forma não
estou cometendo adultério",
admite R.M., 33 anos,
freqüentador do cinema Especial.
Para R.M., como para alguns
outros freqüentadores, os
cinemas de filmes eróticos
tornaram-se uma forma segura e
discreta de viver sua identidade
sexual.