- - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 09 de setembro de 1998

CINEMA III
A marca eterna de Akira Kurosawa

por KLEBER MENDONÇA FILHO

No soberbo espécime hollywoodiano Expresso Para o Inferno (Runaway Train, EUA, 1985), dirigido pelo russo Andrei Konchalowski, há uma duplicidade difícil de ser encontrada num produto americano, apresentado na época comercialmente como um "filme de açãoõ. O filme é, sem dúvida alguma, um "filme de ação", e pode realmente ser lido como tal. Expresso Para o Inferno disponibiliza, no entanto, uma outra camada para quem quiser ver, uma história sobre a natureza do homem e o seu destino, no filme simbolizados por um trem desgovernado com três pessoas desesperadas a bordo. Foi adaptado de um roteiro original escrito por Akira Kurosawa, e traduz talvez a marca principal desse grande mestre que o cinema perdeu, aos 88 anos, no último domingo: a habilidade de usar parábolas com forte teor filosófico a partir de situações aparentemente simples.

Esse traço pode ser observado em algumas das suas grandes obras-primas.

Rashomon (1951), o filme que lhe trouxe reconhecimento internacional e o seu primeiro Oscar (num total de três), pode ser visto como um fascinante e acessível quebra-cabeça de mistério e assassinato, mas numa camada mais funda, também como uma análise sobre "o que é a verdade?", temática cada vez mais atual nos dias de hoje e em cartaz nos cinemas em filmes como O Quarto Poder e The Truman Show. A estrutura de Rashomon (pontos de vista contados por personagens diferentes) também tem suas ramificações até hoje (e para sempre) em filmes como Coragem Sob Fogo (EUA, 1996) ou Jackie Brown (EUA, 1997).

Em Os Sete Samurais (1954), sete homens defendem um lugarejo em troca de comida. Funciona como uma das maiores e mais eletrizantes aventuras do cinema, mas o subtexto é história, tradição e honra, aqui tratados com força suficiente para que iniciantes nesses três temas tenham material para ruminar por dias. Hollywood observou o alcance desta história e refilmou-a como Os Sete Magníficos2 (The Magnificent Seven, 1960), de John Sturges.

O mesmo pode ser dito de Yojimbo2 (1961), mais uma vez, na superfície, um quase aterrorizante "western japonês" sobre um homem solitário (o recém falecido rosto Kurosawiano Toshiro Mifune, com ecos nítidos de Matar ou Morrer e Os Brutos Também Amam) que se põe entre dois clãs que se degladiam numa pequena cidade, acirrando maquiavelicamente a violência entre ambos os lados ao ponto de, no auge da violência por ele insuflada, subir no alto de uma torre e divertir-se com a carnificina que ocorre lá embaixo. Mais uma vez, Kurosawa recebeu releituras, como no clássico Por Um Punhado de Dólares (Itália, 1964), de Sergio Leone, e numa versão míope chamada O Último Matador (EUA, 1996), de Walter Hill, com Bruce Willis, numa overdose de violência e sadismo que preferiu evitar todas as boas idéias do original Yojimbo, uma das maiores bilheterias japonesas dos anos 60.

Se Kurosawa foi saudado com (ou sofreu) releituras estrangeiras, o mesmo pode ser dito do seu próprio trabalho, que mesclou elementos japoneses e ocidentais. Suas versões de Shakespeare para Macbeth (Trono Manchado de Sangue2, 1957) e Rei Lear (Ran, 1985) são consideradas as mais eloqüentes e originais já filmadas, com destaques especiais para cenas inesquecíveis como Toshiro Mifune, no final de Trono... furado por dezenas de flechas, a mais cruel de todas as Lady Macbeths do cinema ou as duas batalhas campais de Ran.

Por duas vezes, recebeu dinheiro de dois grandes jovens discípulos americanos: Francis Ford Coppola e George Lucas que produziram Kagemusha - À Sombra de Um Samurai (1980) e o fascinante Sonhos (1989, apenas Lucas), este último, uma das obras mais curiosas da filmografia Kurosawa, pois há um mix perfeito do toque legítimo do mestre com a tecnologia que o cinema americano tem de melhor, em especial da LucasFilm.

Muitas vezes, esse equilíbrio de estilos rendeu a Kurosawa crítica dentro do próprio Japão, embora seus temas e estilo tenham mudado visivelmente nos anos 70, 80 e 90, com a abordagem de histórias "mais japonesas". Duodes'ka-dem (1970), ambientado numa favela de Tóquio foi um fracasso que o fez tentar o suicídio. O belo (carregado de morte e perdão) Rapsódia em Agosto (1991) e Madadayo (1993), que Kurosawa fez aos 82 anos, também se encaixam nesse lote de filmes. Esse último, sobre um velho professor que tem o reconhecimento dos seus alunos e prepara-se para morrer é o adequado canto de cisne deste mestre, que já deve estar na mesma ala do céu onde encontram-se Ford, Eisenstein, Hitchcock, Truffaut, Welles...


     

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