CINEMA III
A
marca eterna de Akira Kurosawapor KLEBER MENDONÇA
FILHO
No soberbo
espécime hollywoodiano Expresso
Para o Inferno (Runaway Train,
EUA, 1985), dirigido pelo russo
Andrei Konchalowski, há uma
duplicidade difícil de ser
encontrada num produto americano,
apresentado na época
comercialmente como um
"filme de açãoõ. O filme
é, sem dúvida alguma, um
"filme de ação", e
pode realmente ser lido como tal.
Expresso Para o Inferno
disponibiliza, no entanto, uma
outra camada para quem quiser
ver, uma história sobre a
natureza do homem e o seu
destino, no filme simbolizados
por um trem desgovernado com
três pessoas desesperadas a
bordo. Foi adaptado de um roteiro
original escrito por Akira
Kurosawa, e traduz talvez a marca
principal desse grande mestre que
o cinema perdeu, aos 88 anos, no
último domingo: a habilidade de
usar parábolas com forte teor
filosófico a partir de
situações aparentemente
simples.
Esse traço
pode ser observado em algumas das
suas grandes obras-primas.
Rashomon
(1951), o filme que lhe trouxe
reconhecimento internacional e o
seu primeiro Oscar (num total de
três), pode ser visto como um
fascinante e acessível
quebra-cabeça de mistério e
assassinato, mas numa camada mais
funda, também como uma análise
sobre "o que é a
verdade?", temática cada
vez mais atual nos dias de hoje e
em cartaz nos cinemas em filmes
como O Quarto Poder e The Truman
Show. A estrutura de Rashomon
(pontos de vista contados por
personagens diferentes) também
tem suas ramificações até hoje
(e para sempre) em filmes como
Coragem Sob Fogo (EUA, 1996) ou
Jackie Brown (EUA, 1997).
Em Os
Sete Samurais (1954),
sete homens defendem um lugarejo
em troca de comida. Funciona como
uma das maiores e mais
eletrizantes aventuras do cinema,
mas o subtexto é história,
tradição e honra, aqui tratados
com força suficiente para que
iniciantes nesses três temas
tenham material para ruminar por
dias. Hollywood observou o
alcance desta história e
refilmou-a como Os Sete
Magníficos2 (The Magnificent
Seven, 1960), de John Sturges.
O mesmo
pode ser dito de Yojimbo2
(1961), mais uma vez, na
superfície, um quase
aterrorizante "western
japonês" sobre um homem
solitário (o recém falecido
rosto Kurosawiano Toshiro Mifune,
com ecos nítidos de Matar ou
Morrer e Os Brutos Também Amam)
que se põe entre dois clãs que
se degladiam numa pequena cidade,
acirrando maquiavelicamente a
violência entre ambos os lados
ao ponto de, no auge da
violência por ele insuflada,
subir no alto de uma torre e
divertir-se com a carnificina que
ocorre lá embaixo. Mais uma vez,
Kurosawa recebeu releituras, como
no clássico Por Um Punhado de
Dólares (Itália, 1964), de
Sergio Leone, e numa versão
míope chamada O Último Matador
(EUA, 1996), de Walter Hill, com
Bruce Willis, numa overdose de
violência e sadismo que preferiu
evitar todas as boas idéias do
original Yojimbo, uma das maiores
bilheterias japonesas dos anos
60.
Se Kurosawa foi
saudado com (ou sofreu)
releituras estrangeiras, o mesmo
pode ser dito do seu próprio
trabalho, que mesclou elementos
japoneses e ocidentais. Suas
versões de Shakespeare para
Macbeth (Trono Manchado de
Sangue2, 1957) e Rei Lear (Ran,
1985) são consideradas as mais
eloqüentes e originais já
filmadas, com destaques especiais
para cenas inesquecíveis como
Toshiro Mifune, no final de
Trono... furado por dezenas de
flechas, a mais cruel de todas as
Lady Macbeths do cinema ou as
duas batalhas campais de Ran.
Por duas vezes,
recebeu dinheiro de dois grandes
jovens discípulos americanos:
Francis Ford Coppola e George
Lucas que produziram Kagemusha -
À Sombra de Um Samurai (1980) e
o fascinante Sonhos (1989, apenas
Lucas), este último, uma das
obras mais curiosas da
filmografia Kurosawa, pois há um
mix perfeito do toque legítimo
do mestre com a tecnologia que o
cinema americano tem de melhor,
em especial da LucasFilm.
Muitas vezes,
esse equilíbrio de estilos
rendeu a Kurosawa crítica dentro
do próprio Japão, embora seus
temas e estilo tenham mudado
visivelmente nos anos 70, 80 e
90, com a abordagem de histórias
"mais japonesas".
Duodes'ka-dem (1970), ambientado
numa favela de Tóquio foi um
fracasso que o fez tentar o
suicídio. O belo (carregado de
morte e perdão) Rapsódia em
Agosto (1991) e Madadayo (1993),
que Kurosawa fez aos 82 anos,
também se encaixam nesse lote de
filmes. Esse último, sobre um
velho professor que tem o
reconhecimento dos seus alunos e
prepara-se para morrer é o
adequado canto de cisne deste
mestre, que já deve estar na
mesma ala do céu onde
encontram-se Ford, Eisenstein,
Hitchcock, Truffaut, Welles...