EFEITOS DA CRISE
União
corta R$ 4 bilhões em despesas e
põe o País no caminho da
recessãoBRASÍLIA - O
governo anunciou ontem um
conjunto de medidas fiscais para
tentar reduzir o déficit
público. As metas de superávit
anunciadas foram pouco
ambiciosas, mas o governo tentou
demonstrar que desta vez, ao
contrário das anteriores,
cumprirá o prometido. Para 98, a
estimativa de superávit
primário (sem levar em conta os
gastos com juros) foi elevada em
apenas R$ 700 milhões, de R$ 4,3
bilhões para R$ 5 bilhões. Para
99, foi mantida a meta de
superávit de R$ 8,7 bilhões,
contida no Orçamento enviado ao
Congresso no mês passado.
A melhora no
resultado primário deste ano é
insuficiente para cobrir o
aumento de R$ 3 bilhões nas
despesas com juros esperado a
partir da elevação das taxas na
semana passada. De acordo com o
pacote, a nova meta para este ano
será cumprida graças a um corte
de R$ 4 bilhões nas despesas
orçamentárias até dezembro.
Em Salvador, o
presidente do Senado, Antônio
Carlos Magalhães, informou que
caberá ao Congresso,
soberanamente, definir as áreas
onde o governo federal vai cortar
despesas para enfrentar a crise
econômica provocada pela queda
nas principais bolsas de valores
do mundo. O presidente do
Congresso prometeu apoio às
medidas do pacote depois de ouvir
em primeira mão as explicações
sobre as medidas de ajustes do
secretário-executivo do
Ministério da Fazenda, Pedro
Parente.
Com o corte de
R$ 4 bilhões, o governo poderá
gastar somente R$ 34,4 bilhões
em investimentos e atividades
neste ano, conforme o Orçamento.
No decreto que definirá o corte,
o governo fixará um limite anual
para o gasto de cada órgão ou
ministério. Pelas regras
definidas, até 31 de outubro só
poderão ter sido gastos 80% dos
recursos previstos. Será
limitada ainda a possibilidade de
transferir para 99 despesas não
realizadas neste ano, sob a forma
de restos a pagar.
Pela lógica,
esse corte deveria elevar o
superávit primário na mesma
proporção. Mas, segundo o
governo, a meta anterior estava
baseada em dados já defasados e
não seria cumprida sem o corte
de despesas. Como forma de
conferir maior confiabilidade às
previsões de resultados, foram
criados novos mecanismos para
acompanhar o desempenho do
governo e envolver o Legislativo
no controle dos gastos. A partir
de agora, o compromisso do
governo é com essas metas. Ou
seja, novos cortes poderão ser
feitos para que as metas sejam
atingidas.
A intenção do
governo, com esses mecanismos, é
acabar com a imagem negativa
deixada pelo pacote de outubro do
ano passado. Praticamente todas
as medidas que continham cortes
de despesas foram arquivadas. A
meta de superávit primário para
99 constará de uma medida
provisória a ser editada pelo
governo, que será submetida ao
Congresso. A mesma MP
estabelecerá resultados a serem
conseguidos em 2000 e 2001. O ano
eleitoral de 2002 foi excluído
da medida.
Os gastos
federais no próximo ano
seguirão uma programação
bimestral e serão revistos com a
mesma periodicidade. O governo
vai reter 20% das verbas de
custeio dos ministérios, que
serão liberadas apenas se as
metas bimestrais forem cumpridas.
Uma comissão formada pelos
secretários-executivos da
Fazenda e do Planejamento
acompanhará o cumprimento das
metas.
A redução de
despesas é mais uma medida
adotada como resposta aos efeitos
da crise financeira internacional
na economia brasileira. Na semana
passada, o governo já havia
elevado a taxa básica de juros e
reduzido impostos sobre
aplicações de capital
estrangeiro. Agora, o governo
quis dar mais uma demonstração
de que o país está buscando
equilibrar suas contas públicas,
considerado um dos pontos fracos
do Plano Real. Ao reduzir o
déficit público, o país passa
a depender menos do capital
externo, que ficou mais escasso
com a crise global.